O Único Filho de Krypton | JUDAO.com.br

Com o fim da Era Snyder à frente do panteão DCnauta, olhamos para trás para tentar entender algumas escolhas dessa fase tão controversa dos filmes de super-heróis

Todos nós ficamos meio maravilhados com certas escolhas de estilo e de tom dos trailers recém vistos na San Diego Comic-Con. Em especial, dois trailers eram os novos porta-bandeira daquilo que começou com Mulher-Maravilha: Aquaman e Shazam! apareceram para mostrar que a DC quer mesmo mudar os rumos. Fora com o mundo dark’n gritty, partimos agora para a nova dimensão que, antes de mais nada, é colorida e divertida.

Pode parecer piada pronta, mas isso não mostra necessariamente a DC querendo, como podemos ler por aí, “copiar a Marvel”. A natureza bem mais mitológica dos personagens da DC pede um APPROACH que não necessariamente cabe nos esquemões já conhecidos depois de 20 filmes da Marvel. E quem sabe, aqui, talvez REALMENTE dê-se a liberdade para os diretores se soltarem e criarem seus próprios mundos, colocando a necessidade de todos os filmes “caminharem para um fim comum”, fator que às vezes atrapalha os filmes marvetes, em um bem-vindo segundo plano. Ou assim esperamos.

Mas agora, estando nesse precipício, podemos dar mais uma olhada nos três filmes realizados por Zack Snyder e pensar no porquê deles terem criado um legado tão complicado. Em especial, no porquê, talvez, de Zack Snyder não ter sido a melhor escolha para contar uma história do Superman. E talvez quem nos deu a pista para descobrir isso tenha sido o próprio diretor.

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Snyder, como todos sabem, começou a carreira como diretor de longa-metragens com um filme muito bom, e seguiu com um dos grandes ícones da década passada. Em Madrugada dos Mortos, esforço de refilmar um dos grandes cineastas de terror de todos os tempos, George Romero, Snyder mostrou que tem na construção visual e no ritmo dois grandes talentos como diretor. Mas foi 300 que catapultou seu nome à fama de adaptador de quadrinhos. Traduzindo, outro grande mestre, Frank Miller, e em alguns pontos, aparando aresta, Snyder troca a crueza e o niilismo da HQ pela grandiloquência e pelas câmeras lentas – que viriam a ser sua marca e sua caricatura. 300 baseia quase toda sua glória nos aspectos “machões” de seus heróis, nas atitudes bruscas e impiedosas de personagens que sabem exatamente o que precisam ser. Há pouca dúvida na cabeça de Leônidas, até mesmo na hora de lançar-se para a morte.

Depois disso, seus filmes foram ficando menos unânimes, embora nunca pecando no espetáculo visual. Watchmen é um filme cheio de boas ideias (em especial a introdução maravilhosa), mas com um ritmo e uma certa “alteração de foco” que mais ajudou a ideia de que a grande obra de Alan Moore é mesmo inadaptável. Sucker Punch é uma viagem inacreditável e louca pelo estilismo de vários mundos nerds. A Lenda dos Guardiões é uma boa e velha jornada heróica, mas com corujas. E aí, depois da completa reconstrução que Christopher Nolan fez na trilogia do Cavaleiro das Trevas, com uma bilheteria que exigia a transposição de seus elementos para outras franquias, Snyder foi o selecionado pra levar outro super-herói pro cinema. Aquele último filho de Krypton.

E os três filmes seguintes foram filmes, no mínimo, controversos. Houve quem gostou um pouco, houve quem gostou muito, e houve quem odiou tudo. Mas o que houve, em grande escala, foram discussões intensas sobre o porquê daqueles personagens estarem daquele jeito. E só recentemente, Snyder deu uma pequena chave para alguns dos enigmas: o diretor declarou que um de seus maiores sonhos como diretor seria adaptar A Nascente, da autora Ayn Rand. Não se sabe muito sobre o andamento deste projeto. Só podemos prever que ele vai conter duas coisas: câmera lenta e individualismo.

Ayn Rand é a precursora de algo que ela mesma chamou de Objetivismo. “O conceito do homem como um ser heróico, com sua própria felicidade como o propósito moral de sua vida, com realizações produtivas como suas mais nobre atividades, e a razão como seu único absoluto”. Basicamente, é uma forma de individualismo on crack, a completa antítese de qualquer forma de coletivismo. Uma filosofia de vida que a própria Rand defendia como sendo sistemática, tendo aplicações nas mais diversas esferas da vida. A outra grande obra da escritora, A Revolução de Atlas, expõe os seus princípios num cenário distópico, onde um empreendedor privado enfrenta seu maior inimigo... a burocracia. É a obra onde Rand faz sua maior defesa do objetivismo, e é um livro incrivelmente influente em esferas filosóficas e econômicas nos Estados Unidos.

A Nascente é um livro complicadíssimo de se adaptar literalmente para o mundo de hoje. Já era complicado para a época mesmo. O individualismo extremo se mistura com comportamento abusivo e opressor do personagem principal, e quem sobreviveu às 800 páginas entende que o personagem principal consegue transformar o seu objetivismo em sérios problemas éticos e morais. A coisa é bem pesada. Não dá para dizer que Snyder realmente é alguém que tenta viver, em sua esfera particular, através dos ensinos de Ayn Rand. O que os relatos contam sobre ele pessoalmente trabalhando como diretor é que é um cara muito gente fina e praticamente nada mais sobre sua “filosofia de vida pessoal”.

Mas colocar o Objetivismo e o Superman próximos um do outro é algo quase anacrônico.

Talvez uma das coisas mais estranhas a definir o Superman de Snyder é o Jonathan Kent de Kevin Costner. Quando Clark Kent começa a descobrir não só que tem poderes, mas que pode mudar a vida das pessoas com esses poderes, a reação de Kent Sr. não é a de apontar todo esse poder na direção da verdade e da justiça, como outras iterações de seu personagem, mas na de sugerir que, talvez, seja mais proveitoso e seguro deixar pessoas morrerem para não se sobressair. Cuidar de si mesmo antes de salvar os outros para manter a segurança do anonimato. E nessa paranóia de tentar proteger seu filho-deus, Jonathan sacrifica sua vida.

É aquela cena do furacão que ninguém no mundo entendeu.

Depois dessa sugestão de individualismo ser um pouco mais “revelada” por uma batalha onde Superman e Zod aniquilam Metrópolis, no filme seguinte temos Clark ainda sentindo-se visualmente incomodado com a ideia de salvar pessoas.

Porém, temos o Batman de Ben Affleck. E um dos poucos pontos que levantou mais concordância é que, em certo nível, esse é um personagem que funcionou. Não tanto falando da violência extrema, mas sim de sua obsessão pela destruição do Superman. Aqui vemos um Batman que tem uma meta calculista, clara e bem objetivista. E de certa forma, esse Batman saiu sendo um personagem mais coerente por ter essa faceta. Porque é algo que sempre esteve ali na alma do personagem. O homem solitário, que sabe que está certo em 110% das vezes.

É diferente do maior ícone de salvação e auto-sacrifício da história dos quadrinhos. Algo que até mesmo Snyder lembra de comparar graficamente com o maior ícone de auto-sacrifício da história da religião ocidental, lá, num momento onde a natureza heróica de um Clark em dúvida entra em conflito com os ensinos individualistas de seu pai e ele vai pedir ajuda para um padre.

Este é um conflito novo para um mundo onde os heróis precisam de problemas internos. Depois do Batman de Christian Bale, e certamente depois do Coringa de Heath Ledger, os heróis precisam mostrar seus conflitos psicológicos para serem “levados a sério”. Mas esse talvez tenha sido o conflito mais estranho para inserir no personagem que sempre escolhe andar a segunda milha por qualquer um, por qualquer vida — ética pessoal esta que virou tão icônica quando sua capa vermelha, seu S no peito.

Depois de uma década de Marvel, depois de Deadpool, depois daquele que é discutivelmente o melhor filme com o Batman de todos (LEGO Batman), quando aprendemos que “levar a sério” tem vários níveis de significado e que conseguimos ter um filme com discussões sérias e psicológicas sem esquecer da graça, da cor e da aventura (Poxa, o Brad Bird já tinha ensinado isso pra todo mundo em 2004, mesmo colocando uma mensagem objetivistinha ali no meio) , para onde os filmes de heróis estão caminhando?

A nova Mulher-Maravilha, versão que nasceu sob tutela de Snyder, mostrou que dá para mesclar seriedade e coração, atingindo aquilo que os heróis nasceram para ser: inspirações para nós sermos o melhor que pudermos ser. No final do filme, a discussão com o vilão é quase teológica: o que fazer para salvar uma humanidade que não merece ser salva? “Salvar o mundo incondicionalmente”, diz Diana, uma das muitas filhas de Themyscira.

Ayn Rand talvez quisesse escrever um Superman que fosse o único filho de Krypton. Mas o verbo que vem junto com “heróis” é “salvar”.

Está aqui o desejo tanto para que Zack Snyder não só se recupere, junto com sua família, da terrível tragédia pela qual passaram, mas encontre um projeto que seja muito mais coerente. O cara que fez Madrugada dos Mortos e 300 tem talento lá dentro. Tem também o desejo de que os filmes da DC encontrem o seu caminho de volta para os nossos corações. Todos nós queremos amar esses filmes, e todos nós precisamos, especialmente nessas épocas sombrias, de filmes que tenham amarrado em todos os seus aspectos a ideia de que nós podemos ser melhores, e que todos podemos viver sob o significado daquele S no peito do Superman.

“Salve um”, diz o Batman, num filme que teve complicações de todos os lados. “Salve um, e você saberá o que fazer depois”.