Os Registros de uma viagem inesquecível em HQ | JUDAO.com.br

O quadrinista Glauber Lopes conseguiu financiar, via Catarse, a versão autobiográfica em quadrinhos de sua jornada em terras colombianas e argentinas. Tudo com uma mochila nas costas e um lápis na mão. :)

Nascido em São Paulo, Glauber Lopes descobriu que queria ser ilustrador aos seis anos de idade. Formado em design gráfico pelas Faculdades Oswaldo Cruz, na capital, chegou a trabalhar em algumas empresas – mas descobriu, ironia do destino, que não gostava muito de design. “Mais pelo jeito que os escritórios adotam pra trabalhar do que pela execução das tarefas em si. Além disso, o design é industrial e eu não tenho muita cabeça pra pensar em produtos”.

Embora hoje trabalhe como ilustrador por encomenda e também como professor do SENAC, foi justamente aquela tão esperada grana que recebeu das férias no mundo corporativo que encheu a sua conta para um projeto audacioso: meter a mochila nas costas e sair sozinho pela América do Sul. Assim mesmo, sem planos, sem lenço e nem documento. “Imagina um cara jovem, com dinheiro das férias no bolso e doido pra conhecer novos ares?”, provoca Glauber. Não fez isso apenas uma vez, na verdade, mas DUAS.

Assim que voltou da segunda empreitada, Glauber resolveu registrar a experiência de alguma forma. Sempre foi fã de quadrinhos (em especial os mangás), mas nunca tinha trabalhado com eles. Ainda assim, da mesma forma que aconteceu quando saiu sozinho pra mochilar pela Colômbia e pela Argentina, não teve medo de tentar. “Foi em uma época quando eu tinha a necessidade de criar um produto que vingasse no mercado nacional, e que não me tomasse muito tempo produzindo. Acabei tendo a ideia de retratar essas viagens, que não seria algo que eu precisaria criar, somente traduzir minhas memórias em arte sequencial. Criar um traço que pudesse ser ágil, fazendo pelo menos uma página por dia, finalizada”, explica.

Nascia aí Registros – inicialmente pensada para ser publicada como um webcomic — o episódio da Argentina foi postado em sua página pessoal no Facebook. “Com o tempo, as pessoas foram acompanhando e mandando feedbacks positivos. Percebi grande potencial na obra e em vez de contar apenas um relato, resolvi contar os dois grandes momentos que vivi como mochileiro numa revista impressa e bem acabada”. O projeto foi parar no Catarse e, via financiamento coletivo, o autor ultrapassou a meta selecionada. O gibi está garantido, 48 páginas ao todo, formato fechado 16 x 22,5 cm, embora ainda sem data de lançamento confirmada.

O que o ajudou a reproduzir tudo com mais fidelidade foram as fotos das viagens. “Cada uma delas me lembra um momento”, explica o quadrinista. Pra Glauber, responsável não apenas pela arte mas também pelos roteiros, o grande diferencial dessa história é que ela não segue o padrão dos quadrinhos, com troca de diálogos em balões o tempo todo. “Busquei manter a atmosfera de que aqueles momentos que vivi estavam sendo ‘contados’, então a maioria dos textos nessa história são narrações detalhadas de como eu me sentia, como absorvia cada instante e o que aquilo tudo me fazia pensar. Acho que dessa forma, as pessoas podem ‘adentrar’ na minha mente, tornando a história mais íntima”. O autor confessa que sabia que tudo seria uma exposição muito grande. “As pessoas vão conhecer pensamentos bem particulares. Mas essa é a grande graça e não poderia ser diferente”.

A primeira viagem foi pra Colômbia, em 2009, e durou exatamente um mês. “Foi a primeira que fiz e foi a primeira vez que peguei avião. Assim que cheguei em Bogotá, fui direto para uma cidade chamada Neiva, no distrito de Huila”. Já a segunda viagem aconteceu no ano seguinte, desta vez para a Argentina. “O avião pousou em Buenos Aires. Fui de trem até La Plata, Mendoza, depois peguei um ônibus até Bariloche, onde a viagem se encerra”.

Glauber conta ainda que o que o motivou para fazer esta viagem sem ninguém ao seu lado e sem grandes luxos ou sofisticações de turista foi a necessidade de conhecer um pouco mais de si mesmo. “Desafiar-me de maneiras que jamais tinha feito. Passei não só por muitos momentos de aprendizado, como vislumbrei um novo mundo através das revelações da natureza e da sociedade. Me dei conta de como o mundo é bonito e abundante. Variado e intrigante. Te faz sentir capaz de tudo e aberto a qualquer possibilidade”.

Um destes momentos especiais aconteceu, por exemplo, dentro do ônibus que seguiu noite adentro para Bariloche. Ao seu lado, um certo senhor Sandoval, dono de uma “expressão feroz” que perdeu o olho direito. O pobre homem com cara de ogro não cheirava muito bem e carregava todos os seus pertences dentro de um saco de lixo.

registro-008Glauber ficou inicialmente com medo mas, quando deixou a conversa engatar com o colega de poltrona, de sorriso largo e sem dentes, descobriu um senhor humilde de vida precária que tinha saído da cidade natal, San Martin de Los Andes, para comprar remédios para o filhote, um menino doentinho de 1 ano de idade. Como diz o Borbs, nos registros da Volta ao Mundo que a gente vem publicando semanalmente, é com um olhar menos óbvio sobre os lugares que a gente acaba conhecendo o que vale a pena de verdade.

Depois de Registros, equilibrando-se entre as aulas e os trabalhos como freelancer, Glauber pensa em acrescentar para valer os gibis em sua produção artística. Além de dois roteiros já escritos, ele continua com Love Files, basicamente o registro (há!) de histórias que contem memórias boas das pessoas. Duas das histórias, Lifting Spirits e Descuido & Poesia, estão publicadas em sua página no Facebook – e a intenção é que, depois de completar cinco, fechar um primeiro volume.

“E que sejam momentos únicos”, conforme Glauber diz na história argentina de Registros. “Agora você entende por que eu agradeço?”.