Um dos melhores álbuns do ano ganha apresentação à altura: Pitty se domesticou pra fazer parte do jogo, mas continua bicho solto | JUDAO.com.br

2019 e a gente indo pra show de lançamento de álbum da Pitty: AINDA BEM. Espero que possamos fazer isso muito mais vezes daqui pra frente.

“Jamais pensei que fosse fazer isso na minha vida. Se alguém dissesse isso há uns, sei lá, dez anos, eu mandaria internar”, disse Priscilla Novaes Leone, na metade do show de lançamento de Matriz, em São Paulo, na madrugada de 14 pra 15 de Setembro de 2019.

O que a Pitty tava falando aqui era sobre estar no palco, sentada, com o mesmo violão em que começou a compor suas músicas ainda em Salvador, fazendo versões acústicas de Teto de Vidro e Dançando. Um dos momentos mais intimistas do show, no qual ela CONCLAMA todos a se expressarem da maneira que puderem, que conseguirem, já que arte e cultura são as únicas maneiras de fazer com que a gente atravesse esse “momento de trevas”.

O momento “Ei B******** vai tomar no cu” já havia acontecido antes, depois de Noite Inteira, com Lazzo Matumbi, que ficou com o palco pra si enquanto questionava se deu pra entender a mensagem com a sua 14 de Maio. Sim, ela falava disso tudo quando se referia às trevas. Mas falar disso, naquele momento, naquele show, fala de um outro tipo de escuridão: a nossa própria.

A verdade, porém, é que essas falas poderiam ter sido PROFERIDAS por esse que vos escreve. Porque, veja só: “jamais pensei que aconteceria” isso de eu querer ir a um show da Pitty — um show da Pitty em que o momento mais catártico envolveria a brasilidade doismiledezenovica do BaianaSystem e uma mensagem sobre deixar dançar do jeito que se quer. “Se alguém dissesse isso há uns, sei lá, dez anos, eu mandaria internar”.

O principal, porém, foi perceber que essa mesma pessoa que jamais pensou que isso aconteceria demorou quase 35 anos pra entender o poder da expressão e o que tirar as coisas de si pode fazer de bem pra alma, seja lá de que jeito, seja lá com que facilidade (ou dificuldade). Acredito que seja por isso que hoje eu consiga brincar de ser DJ, que eu consiga entender o que certas músicas fazem com as pessoas, toda essa possibilidade de expressão através do que o outro diz, mesmo que há alguns anos eu só pensasse que se tratava de crise enorme de adolescentismo.

Eu, com certeza, teria sido bem menos duro comigo mesmo durante a maior parte desses 35 anos (que em dois meses se tornam 36).

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Na resenha de Matriz, o álbum, publicada aqui no JUDAO.com.br em Maio, o Thiago Cardim fala das muitas Pitties que se soltaram das “margens quadradas e limitadoras do ROQUE”. “Agora que as amarras tão cortadas e ela se abraçou baiana (...), bebendo na fonte, tomando banho nela e jogando a água na cara de todo mundo que tava ouvindo, tem Pitty aí pra mais de metro”, afirmou. “Pra todo mundo. Mas, principalmente, PRA ELA. Que, no fim, é o que mais importa”.

No show, não à toa chamado de MATRIZ 2.0, Pitty deixa tudo isso ainda mais claro. Um bolo maravilhosamente batido, “muito bem recheado e cheio de cerejas”, como ela mesma definiu. Recheio que tinha Admirável Chip Novo, Setevidas, Na Sua Estante e Me Adora, entre outras, e as cerejas que atendiam por, além de Lazzo Matumbi, Russo Passapusso e Roberto Barreto, do BaianaSystem (que ainda participaram de um ~cover de Duas Cidades), e Larissa Luz, que surgiu ao fim de Máscara e destruiu tudo com a sua Bonecas Pretas e, é claro, Sol Quadrado.

Uma mistura que não só forma o Matriz, como explica quem é essa nova Pitty.

Quer dizer... Não é uma nova Pitty. Com certeza ela mudou, e muito. Mas ela agora parece ter se encontrado e se libertado, se ouvido (quando ela diz “sai daí”, em Submersa, ou que decidiu questionar e que não vai fugir nem perder a essência em Sol Quadrado ou canta sobre voltar pro azul que só tem lá e traz seu violão da adolescência pro palco) e se percebeu. Seu corpo reflete tudo isso, com uma sensualidade absolutamente natural de quem se sente bem dentro de si, mas, quando ela coloca o braço pra trás ao cantar Máscara (“desde 2003 sendo repetida”), como se tivesse se empurrando, se segurando em si mesma, se apoiando, se escondendo, fica óbvio que essa Pitty é a mesma. A gente é que não teve a oportunidade de conhecê-la antes.

Mas talvez nem ela tenha tido essa oportunidade até agora.

O show acabou com todo mundo de volta ao palco, numa espécie de procissão que, se possível fosse, teria tirado aquelas mais de 3000 pessoas que lotaram a casa de shows Audio pra segui-los por onde quer que fosse, lembrando a todos que bom mesmo é achar que a gente só passa pelo que tem que passar.

Eu teria ido junto. Porque, naquele momento, eu acreditei naquilo. Naquele momento, eu lembrei que eu existo, que eu sou.

No bis, Pitty voltou com Equalize (relembrando Peu Souza, com quem compôs a música lá no início dos anos 2000 e morreu em 2013), se lembrou quem ela É com Para o Grande Amor e entregou a noite para o amanhã que logo mais viria com Serpente.

Setembro de 2019, eu com 35 anos tenho Matriz como um dos melhores álbuns desse ano e, depois da apresentação, Priscilla Novaes Leone como inspiração. Inspiração como pessoa, mas principalmente como artista, como Pitty, como alguém se expressa pra enfrentar as trevas. Se expressa como consegue, como pode e que, com o passar do tempo, consegue atingir pessoas que jamais pensaram que isso aconteceria — e eu tenho a mais absoluta certeza de que isso começou com ela mesma.

E que isso seja só o começo.