Um César para a Bella e um Sundance para o Esquenta | JUDAO.com.br

Definitivamente a semana mais bizarra para o cinema. Ou não? ;)

Na última semana, uma notícia bombástica e surpreendente chocou a opinião pública (ou quase isso): Kristen Stewart foi indicada a um prêmio de atuação! E nem foi o Framboesa de Ouro, olha só... :)

A moça, aquela-cujo-filme-mais-famoso-você-sabe-bem-qual-é, foi indicada a um prêmio importantíssimo concedido a poucos, o Cesar (o Oscar francês), por Acima das Nuvens e tornou-se a primeira atriz norte-americana a ser consagrada com uma indicação nos últimos 30 (TRINTA) anos. A última vez em que uma intérprete não-francesa esteve presente no Cesar aconteceu em 1985, quando a soprano Julia Migenes foi reconhecida por sua atuação em uma adaptação cinematográfica da ópera Carmen. Não preciso nem dizer que a Internet surtou com o anúncio da dona Kristen. Como pode alguém pensar em considerar “melhor atriz” a Bella Swan de Crepúsculo, aquela cuja fama provém de sua enorme versatilidade em expressões faciais?

Para engrossar ainda mais o caldo, a última semana também viu a popularíssima Regina Casé, aquela do Esquenta, ser laureada a Melhor Atriz do último Festival de Sundance – é, isso mesmo, o prestigiadíssimo festival de cinema independente criado por Robert Redford e que serve de painel para muitos cineastas de primeira viagem.

Como assim? O mundo pirou?

Regina Casé em "Que Horas Ela Volta?"

Regina Casé em “Que Horas Ela Volta?”

No caso da Kristen, para entender o que se passa, é importante conhecer o próprio filme que a levou a tal indicação, Acima das Nuvens (Clouds of Sils Maria), uma obscura co-produção franco/belga/alemã dirigida por Olivier Assayas, conhecido no circuito alternativo por trabalhos como os ótimos Horas de Verão e Depois de Maio. Mas dele, falemos mais tarde.

A grande questão, que diz respeito inclusive ao mote do excelente Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), já em cartaz nos cinemas brasileiros, é: até que ponto é justo julgar o ator pela qualidade dos seus trabalhos anteriores e não pelo mais recente?

Partindo de Birdman: nele, Michael Keaton vive uma celebridade assombrada por um papel de um super-herói que desempenhou em três filmes, performance que marcou sua carreira e o impede de atingir o reconhecimento artístico que seu talento merece. O sujeito come o pão que o diabo amassou para tentar desvencilhar sua figura da figura do personagem.

Esta é uma história que se vê em todo canto de Hollywood. Daniel Radcliffe, por exemplo, está há alguns anos mergulhando em papéis difíceis de projetos alternativos e ousados, como Versos de um Crime, para tentar fazer a galera lembrar que o nome dele não é Harry Potter. E tem muitos outros casos por aí: tente pensar em Hugh Jackman e não em Wolverine. Tente pensar em Sean Connery e não em James Bond. Tente pensar em Harrison Ford e não em Indiana Jones ou Han Solo. Tente pensar em Regina Casé e não pensar no Arlindo Cruz. :)

ZzzZzZZz...

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Kristen Stewart sofre deste mal. E ao contrário dos outros citados acima (exceto da Regina Casé), ela deu o azar de ser eternamente associada (e julgada) a um trabalho ruim. No caso, a sua lendária cara-de-porta e o insosso par romântico com o igualmente inexpressivo Robert Pattinson (outro que tem se esforçado para superar essa fase negra) marcaram para sempre sua carreira. A culpa é do ator? Nem tanto. E para endossar minha defesa, precisamos lembrar de dois fatores em Crepúsculo:

1) A matéria-prima dos filmes, os livros, já é muito ruim: a história criada pela aspirante a escritora Stephenie Meyer é amadora, repetitiva e muito, mas muito mal escrita. Os personagens são mal construídos e as situações vividas por eles são forçadas ao extremo. Fez sucesso porque tocou no calcanhar de Aquiles das pré-adolescentes (boa parte do núcleo de fãs da série) ansiosas por um amor juvenil arrebatador. Se o personagem já é mal construído e a trama não ajuda, o ator definitivamente não é capaz de salvar o conjunto da obra – vale lembrar que, em 2013, quando A Saga Crepúsculo: Amanhecer Parte 2 venceu o Framboesa de Ouro de Pior Filme, um dos “indicados” a Pior Ator era ninguém menos que Liam Neeson, por Battleship. Neeson é ótimo e atuou mal pra cacete porque o filme é um lixo.

b) Os filmes da Saga Crepúsculo são produtos industriais e não obras de autor – e esta é uma constatação sem qualquer juízo de valor. Ponto. Tudo foi milimetricamente construído, desde o roteiro até as atuações, para que o resultado não fugisse do livro e os fãs não se sentissem desrespeitados, e os envolvidos com a produção tiveram liberdade artística zero no desenvolvimento do projeto. Kristen Stewart atuou como uma porta porque a personagem, Bella Swan, é uma porta e era assim que precisava ser feito. E não poderia ser diferente: qualquer atriz ali teria destino semelhante.

Agora que a série é coisa do passado, Kristen Stewart aproveitou-se da fama que o trabalho lhe proporcionou e pôde se dar ao luxo de embarcar em projetos que lhe possibilitem mostrar a que veio. E foi exatamente o que aconteceu em Acima das Nuvens, que por si só constitui um paraíso para qualquer ator em busca de desafios: é um drama francês dirigido por um sujeito especializado em contar histórias com personagens fortes e difíceis (Olivier Assayas, por sinal, é reconhecido por ser um grande diretor de atores), estrelado por uma atriz areia-demais-para-qualquer-caminhãozinho chamada Juliette Binoche, e com uma trama centrada sobretudo em simbolismos. É nessa escola em que o ator pode dar vazão a todo seu potencial. A tal “obra de autor” sobre a qual comentei logo acima.

E “dar vazão a todo seu potencial” foi justamente o que Kristen Stewart fez: na Valentine, a centradíssima assistente da perturbada Maria Enders (Binoche), Stewart encontrou uma personagem que se assemelhava e muito a ela mesma, ou à imagem que ela gostaria de ter perante o público. Alguém que convive diariamente com egos, mas que não só se torna invulnerável ao ego como também torna-se referência de “como sobreviver ao ego”. Uma personagem enigmática, que não externa suas verdadeiras intenções, e que por isso se torna a única capaz de controlar os impulsos de Maria Enders, uma atriz de meia-idade que de repente se vê forçada a enfrentar a passagem do tempo (personagem, por sinal, vivida brilhantemente por Binoche). A interpretação de Stewart, carregada nos olhares misteriosos e nas expressões indiferentes em momentos intensos, era justamente o que seu personagem pedia.

O resultado: seu papel foi o perfeito contraponto à atuação de Binoche e o longa-metragem tornou-se um sucesso na França. E todo mundo que pensava “Kristen Stewart HAHAHAHA” viu o filme e na saída ficou meio “estou arrependido de ter tirado um sarrinho”. Eu também.

Juliette Binoche e Kristen Stewart em Acima das Nuvens

Juliette Binoche e Kristen Stewart em Acima das Nuvens

“Pô, mas se Acima das Nuvens é tão bom e Kristen está tão fodasticamente bem, por que ambos não estão no Oscar?” Simples. Acima das Nuvens é de fato excelente, um dos melhores... entre as produções lançadas na França no último ano. Não significa que é o melhor filme e/ou melhor atuação do ano a ponto de chegar nos Academy Awards, ué.

Trata-se de uma atriz trabalhando em um filme de nacionalidade francesa, o que desde já a torna elegível ao Cesar – por mais que eu ainda acredite numa possível vitória de Charlotte Le Bon por Saint Laurent, pelo visto a grande barbada deste ano. O Cesar é como o Goya, prêmio espanhol, ou até mesmo o Prêmio Melhores do Ano do Faustão (RISOS), para fazer uma comparação bem chula: o foco da premiação é a produção local. O trabalho de Stewart é muito inferior, por exemplo, ao trabalho de Julianne Moore em Para Sempre Alice, mas Julianne Moore não concorrerá ao Cesar porque seu filme é produzido nos EUA, e não na França. Daí a diferença. Se Acima das Nuvens fosse produzido na Espanha, Kristen Stewart não estaria nesta lista, e provavelmente estaria na lista do Goya.

...mas na realidade Esquenta!

Agora, sobre Regina Casé... Para a molecada de hoje, ela é lembrada sobretudo pelo tal Esquenta, programa dominical da Rede Globo que reproduz um climão de “junta a galera toda pra um pagode na laje”. Casé fez fama como apresentadora de diversos programas focados neste público, porque ela tem jeitão “de povão”, no melhor sentido da palavra. Mas em um passado distante, a apresentadora respondeu por papéis importantíssimos em longas-metragens cultuados da nossa produção cinematográfica como Os Sete Gatinhos, O Segredo da Múmia e Eu Tu Eles (onde demonstrou uma insuspeita veia dramática), além das clássicas participações na novela Cambalacho, como Tina Pepper, cover de Tina Turner (!), e no extinto humorístico TV Pirata.

Casé sofre do mal que assola a TV aberta, da limitação de certos profissionais a uma persona, que vêem seu verdadeiro talento escondido atrás da fachada que rende Ibope – no caso, o próprio Esquenta. Mesmo motivo pelo qual diversos atores revelam-se no cinema e no teatro...e quando chegam às telenovelas, dificilmente ultrapassam a barreira do “medíocre”.

Para quem está acostumado a ver Regina Casé no comando do programa do plim-plim, é difícil mesmo imaginar que ali esconde-se uma grande atriz capaz de alternar comédia e drama de forma magistral – e a crítica internacional que já conferiu Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (a mesma diretora do sensacional Durval Discos), filme este que deu o prêmio de melhor atriz a Casé no Sundance deste ano, é unânime em afirmar que este drama cômico é um dos melhores filmes independentes do ano, e a atuação de Regina é no mínimo visceral.

É preciso parar com esse complexo de vira-lata e aceitar que o Brasil é capaz, SIM, de entregar produtos de qualidade.

IXXXQUENTA!

IXXXQUENTA!

E mais: há quem esteja colocando tudo no mesmo balaio de gato e comparando diretamente Que Horas Ela Volta? com a comédia Made In China, também protagonizada por ela, um típico produto de humor da Globo Filmes – só faltou o onipresente Leandro Hassum no elenco. Não, gente, não. À exceção da presença da Regina, Que Horas Elas Volta? é um produto MUITO diferente de Made in China. Seria o mesmo que comparar um filme do Adam Sandler com um do Wes Anderson.

Então, voltando à pergunta do começo do texto: até que ponto é justo julgar o ator pela qualidade dos seus trabalhos como um todo? Resposta: não é justo. Um ator é nada mais do que um instrumento nas mãos do diretor, que determina, na sua visão, o que deve e o que não deve ser feito. Existem atores bons, daqueles que abrilhantam qualquer coisa que fazem; existem atores ruins, que conseguem destruir o maior dos clássicos só por estar lá; existem atores que dependem de um empurrãozinho para chegar lá (Kristen Stewart provavelmente pertence a esta categoria); e existem atores que mostram a que vieram quando têm a oportunidade de escolher seus trabalhos (Regina Casé pertence a esta categoria).

Mas cabe aqui um aviso: eu não vou assistir Crepúsculo por causa disso. Nem o IXQUENTA. :)

(Nota dos Editores: o referido redator desta matéria já viu filmes MUITO piores do que Crepúsculo na vida. Inclusive um determinado filme brasileiro que lhe proporciona pesadelos até hoje...)