Um novo capítulo de Frank Miller chega em Dezembro, com o retorno do seu Cavaleiro das Trevas | JUDAO.com.br

Com arte do brasileiro Rafael Grampá, este one-shot só tem o nome do Batman, porque tudo leva a crer que é mais focado no Superman do que em qualquer personagem — mostrando que o escritor, aliás, fez mesmo as pazes com o Homem de Aço

“O que está rolando agora é muito mais a visão do Brian [Azzarello]. Mas eu tenho visto o que ele está fazendo, e eu acho que é maravilhoso”, disse Frank Miller, numa entrevista pro Newsarama. Com este comentário, no qual se referia à série Dark Knight III: The Master Race, o roteirista só ajudou a alimentar a boataria sobre ele mesmo não ser EXATAMENTE o escritor neste projeto, mais assinando a parada para dar VISIBILIDADE do que qualquer outra coisa.

Era um momento delicado, com a saúde do autor visivelmente debilitada, atacada por uma doença jamais comentada até então. Mas também era um momento em que ele prometia que, não, a história distópica e futurista do Cavaleiro das Trevas não era uma trilogia apenas e que aquele NÃO seria o final. “Está nas mãos do Brian Azzarello agora, e eu aplaudo totalmente o que ele está fazendo. Mas agora que ele está fazendo a dele, é uma série de quatro partes. E eu vou fazer a quarta”.

Bom, promessa é dívida e, em dezembro, chega The Dark Knight Returns: The Golden Child, o próximo capítulo da saga — mas nada de série em diversas edições. Trata-se de apenas e tão somente um one-shot, história única, que traz Miller como único roteirista creditado. Desenhos? Ufa, ainda bem que este cargo TAMBÉM não ficou pra ele (cujo traço nos dias de hoje está, sejamos totalmente honestos, bastante bizarro). Quem foi convocado pra missão foi o brasileiro Rafael Grampá, que volta a fazer a arte interna para as grandes editoras americanas depois de belos seis anos de sumiço (o máximo que tinham rolado nos últimos tempos eram capas, principalmente pra Image Comics). Nas primeiras imagens de preview, pelo menos, sua arte encontra um lindo equilíbrio, ecoando o Miller de outrora mas trazendo uma dose de modernidade, quase um Frank Quitely da vida.

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Se passando três anos depois de Master Race, esta trama traz como a tal criança dourada do título ninguém menos do que Jonathan Kent, filho do Superman e da Mulher-Maravilha que ainda era um bebê na série anterior, devidamente ladeado por sua irmã mais velha, Lara, que herdou muito da fúria da mãe e teve um papel fundamental na batalha entre humanos, amazonas e os kryptonianos fanáticos que foram libertados da cidade engarrafada de Kandor. A mesma Lara que, ao final de DK III, embarcou numa jornada para aprender mais sobre a humanidade ao lado do pai, agora disfarçado de Clark Kent em tempo integral. No fim, ela mesma acabou encontrando para si uma espécie de identidade secreta para caminhar entre os humanos.

“As possibilidades para o que ele [Jonathan] poderia começar a fazer começaram a pintar loucamente na minha cabeça. Eu pensei que o contraste entre ele e Lara poderia ser empolgante”, afirmou Miller ao EW. “Lara tem muito poder e paixão, então o pequeno garoto incorporando a sabedoria e inteligência da raça kryptoniana traria uma nova dimensão bem interessante. Ele meio que se desenvolveu como um pequeno Buda flutuante, alguém que antes mesmo de aprender a andar já estava falando frases completas e tinha um entendimento das coisas que ultrapassava o de qualquer um. Ele é o membro mais mágico da família”.

O mais curioso desta nova história, cujos detalhes narrativos ainda são poucos (sabe-se apenas que a ideia é mostrar esta “nova geração de heróis” contra um mal terrível que retorna a Gotham City), é que apesar de trazer “O Cavaleiro das Trevas” no título e ter, na capa da edição, Carrie Kelly, a menina que foi Robin e agora assumiu em toda a sua glória o papel de Batwoman (“ela é, como sempre, a garota mais esperta da vizinhança”, diz Miller), a história parece de fato girar bem mais em torno do Superman. Como, aliás, DK III (que é beeeeeeeem melhor do que a segunda parte), já tinha feito, dando um destaque bem maior pra família Super do que pro Morcegão.

Isso parece, no entanto, parte de uma espécie de processo, no qual Miller meio que fez as pazes com o Homem de Aço, tratado de maneira quase tirânica/ditatorial na histórica primeira parte de O Cavaleiro das Trevas e depois tendo o rabo devidamente chutado pelo Batman, naquela sequência que todo bom fã de quadrinhos reconheceria de longe. “Por mais que no começo eu tenha dado a ele alguns momentos difíceis, no título dele eu realmente tentei celebrar o personagem”, confirma o roteirista.

Em 2014 ele já tinha dado uma entrevista pra Playboy, deixando de lado todo o papo de que simplesmente odiava o Superman enquanto símbolo não apenas do sonho americano mas também como garoto-propaganda absoluto de toda uma indústria mainstream de HQs — e justamente por isso o tinha retratado de forma quase fascista. “A HQ é contada sob o ponto de vista do Batman. Mas se você olhar para Cavaleiro das Trevas 2, verá um Superman mais sereno do que no primeiro. Batman e Superman são opostos absolutos”. Valeu pela explicação, Frank, mas acho que ninguém aqui quer olhar pra Cavaleiro das Trevas 2 (e nem você mesmo deveria). ;)

Mas aí que, este ano, como parte do novo selo adulto da DC, o Black Label, Miller se juntou a John Romita Jr. e está fazendo Superman: Ano Um. A gente já tinha manifestado aqui um tanto do nosso receio com esta projeto, levando em consideração que justamente ESTE seria o momento menos adequado para o Miller reaça, que andou falando e escrevendo um caminhão de bosta nos últimos anos, resolvesse contar os tais primórdios do Homem de Aço, justamente um símbolo de paz e esperança, o super-herói primordial. No fim, a história tem seu quinhão de exageros sim, Miller sendo Miller na pegada “tenho que ser ousado para leitores maduros”, dando um passado militar pro Clark, incluindo o resgate de uma tentativa de estupro contra Lana Lang como o momento em que Clark e sua primeira namoradinha se apaixonam... Mas, no fim, apesar de acrescentar bem pouco para a mitologia do Azulão, é menos pior do que parecia.

Parece MESMO que o Frank de tempos mais recentes tinha sido substituído por um skrull e agora voltou de algum lugar muito, muito distante. “Certa vez, brinquei com o Alan Moore. Eu fiz Cavaleiro das Trevas, ele fez Watchmen, e logo depois começaram a fazer este monte de heróis sombrios”, disse ele, pro Deadline, depois de se derreter em elogios aos filmes da Mulher-Maravilha e do Homem-Aranha. “Eu disse ‘Alan, a gente arruinou tudo. Ninguém mais está se divertindo’. E ele disse ‘você tá certo, Frank’. Meu sentimento agora é que o cinismo puro é um refúgio, um lugar para onde os covardes vão. Você tem que repelir isso com idealismo e propósito. O trabalho que estou planejando pro futuro... as pessoas podem ficar desapontadas com o quão não cínico ele é”.

Vale lembrar ainda que Miller parece ter recuperado recentemente não só o amor pelos super-heróis mas também o prazer por trabalhar criativamente de maneira mais ativa: em outubro, será oficialmente lançado o livro Cursed, fantasia escrita por Thomas Wheeler e com ilustrações de Miller. A história, a respeito de como Nimue, a Dama do Lago da mitologia do Rei Arthur, se tornou a protetora da espada Excalibur, nem chegou às livrarias ainda e já foi encomendada como uma série pro Netflix, a ser lançada em 2020 e com Katherine Langford já escolhida pro papel principal.

Empolgado com este novo momento em que os serviços de streaming estão cada vez mais em busca de conteúdos autorais para as suas grades, ele trouxe Silenn Thomas, que já tinha sido sua produtora associada na adaptação pros cinemas de 300 e foi instrumental fazê-lo enxergar que podia ir além dos gibis, para ser a CEO de sua empresa, a Frank Miller Ink. “Ela vai supervisionar nossas operações em todos os aspectos e continuar nosso trabalho com diferentes parceiros para que possamos contar histórias significativas em diferentes mídias”, afirmou Miller em comunicado oficial. Silenn, no entanto, completa falando sobre explorar “novos mundos”, trazendo personagens heroicos em formatos multiplataforma. Sacou a ideia?

Considerando que, desde o ano passado, Miller ganhou de volta os direitos de adaptação de Sin City pra TV e pelos menos os direitos do PRIMEIRO filme que dirigiu com Robert Rodriguez, livrando-se dos efeitos colaterais da venda da Weinstein Co. pro fundo Lantern Capital Partners, dá pra imaginar que o autor tá MESMO com sangue nos olhos pra fazer os tais planos de uma série ambientada em Basin City acontecerem...

Por enquanto, lembremos que The Dark Knight Returns: The Golden Child, com suas 48 páginas, será lançado oficialmente no dia 11 de dezembro.