Sequência de Círculo de Fogo ainda respira | Judão

Legendary Entertainment é comprada por um grupo chinês – e isso pode ser uma esperança pra quem quer ver Circulo de Fogo 2 se tornar uma realidade

A China não é apenas um grande mercado consumidor em potencial, com seus 1 bilhão e 350 milhões habitantes, nem apenas uma grande fonte de mão de obra barata para a produção de eletrônicos. Hoje, a China é um mercado com um poder de investimento enorme que, apesar dos recentes tombos, é o segundo maior PIB do mundo, perdendo apenas para os EUA. Se você nivelar o poder aquisitivo, então a China possui o MAIOR PIB do mundo.

E esse é um país que, de diversas maneiras, quer se internacionalizar. Um exemplo é o futebol: o esporte é agora programa estatal, com várias incentivos e facilidades. Isso que tá acontecendo nos últimos anos não é por acaso, e nem deve parar tão cedo.

O outro é o entretenimento. A Legendary Entertainment não é jogadora do Corinthians, mas foi comprada pela Dalian Wanda Group por US$ 3,5 bilhões. Em dinheiro. Nada de “troca de ações” e esse tipo de coisa que se faz em grandes aquisições. A Legendary você conhece: é aquela empresa criada por Thomas Tull para levantar investimentos para grandes produções de Hollywood e também para produzir filmes próprios. Por meio de parcerias com a Warner e, depois, a Universal, a Legendary trouxe grana e/ou produziu longas como Batman Begins, A Origem, Godzilla, Círculo de Fogo, Jurassic World e A Colina Escarlate, entre outros.

Na última terça (12), em Beijing, o acordo foi oficialmente anunciado como uma fusão entre as duas empresas – mas, na prática, foi mesmo uma compra. Ainda assim, Tull vai continuar como CEO da Legendary, pro desespero do pessoal de Hollywood, que não curte muito o cara. Ele vai chefiar aquela que já está sendo descrita como a “maior companhia de filmes em geração de receita do mundo”. Até por isso, a fusão será um processo bem complicado, que deverá ser concluído nos próximos meses, como informa o THR. Esse será o último estágio de uma negociação que começou em junho do ano passado.

Jurassic World

Os investidores entraram na brincadeira de Hollywood quando os blockbusters começaram a se tornar muito caros, por conta de altos cachês, efeitos especiais, salários e essas coisas. Estúdios como Warner, Universal, Disney, Fox e Paramount podem parecer gigantes – e são –, mas botar tanto dinheiro em diversos filmes durante o ano é um negócio muito arriscado. O investidor então chega com a sua mala de dinheiro, que ele poderia botar em ações da bolsa, numa empresa de mineração ou construção civil, mas resolve topar um projeto de entretenimento.

O que uma empresa como a Legendary faz, de forma simplista, é ter diversos investidores, pegar o dinheiro desses caras e aplicar nos filmes que eles acreditam que darão lucro.

Uma boa parte desses investidores hoje vêm justamente da China. Há diversas empresas e pessoas que fizeram dinheiro com a industrialização do país nas últimas décadas e que querem expandir seus horizontes na hora de escolher onde botar o dinheiro. De certa forma, isso é até um problema ESTATAL: o país cresceu menos do que se esperava desde 2015 e, pra manter as taxas altas e segurar a especulação negativa, eles vão precisar do mercado consumidor do resto do mundo. Não preciso nem dizer que poucas coisas são tão mundiais como cinema e futebol, né?

Ao mesmo tempo, as grandes cidades chinesas têm crescido, incluindo aí estruturas pra entretenimento. Entre 2009 e 2014, o número de salas de cinema no país pulou de 1.700 para 5.300. Números do governo (que devem ser sempre olhados com atenção porque né) indicam que 439 milhões de pessoas na parte continental do país consumiam conteúdo em vídeo em meados de 2014. É mais do que O DOBRO da POPULAÇÃO INTEIRA do Brasil. Gente pra qual Hollywood olha com a boca espumando.

Ou seja, há muito público, muito interesse, mais salas, mais dinheiro rodando...

Por tudo isso, a própria Dalian Wanda já havia comprado, em 2012, a AMC Theatres, a segunda maior rede de cinemas dos EUA, por US$ 2,6 bilhões. No ano passado, eles pagaram US$ 600 milhões pela Hoyts, que é a segunda maior exibidora da Austrália. Acha muito? Não é: eles estão colocando outros US$ 1 bilhão e 200 milhões só no prédio da sua nova sede norte-americana, em Beverly Hills, que também terá um hotel no complexo.

O que virá a seguir, então? É fácil imaginar que, de alguma forma, Tull usará a grana do novo patrão pra continuar investindo em outros blockbusters – afinal, todo mundo quer botar dinheiro num Jurassic World da vida.

Quem pode sair ganhando é Guillermo Del Toro e seu Círculo de Fogo 2. O cineasta já estava trabalhando na continuação quando problemas entre a Legendary e a Universal fizeram com que tudo fosse “adiado por tempo indeterminado”. Porém, o primeiro filme teve investidores chineses (quem sabe até o próprio pessoal da Wanda) que ficaram MUITO feliz com o resultado financeiro: US$ 112 milhões de bilheteria vieram diretamente do país asiático. Foi mais do que o arrecadado nos EUA, que ficou em US$ 101 milhões, de acordo com o Box Office Mojo.

Pacific Rim

Godzilla e King Kong também vão ficar bem na fita. Depois do acordo entre a Legendary e a Warner para distribuição não só da luta entre os dois, mas também de Skull Island e Godzilla 2, a entrada dos chineses deve melhorar ainda mais esse cenário. Godzilla, o primeiro filme, arrecadou US$ 77 milhões no país da muralha, também mais que nos EUA.

Porém, é de se imaginar também uma diversificação nos filmes financiados e/ou produzidos pela empresa.


 

Amor recente
A China nem sempre foi essa FARRA pra Hollywood. Aliás, no passado, os grandes estúdios não tinham interesse no país. Além do menor número de salas, as distribuidoras apenas recebiam do governo um pequeno valor padronizado para lançar seus filmes por lá, sem uma porcentagem das vendas. Era melhor, então, ficar ausente. Por muito tempo, apenas filmes de estúdios menores ou antigos chegaram aos cinemas chineses.

As regras finalmente mudaram em 1994, com os grandões finalmente recebendo uma fatia da bilheteria. Porém, nem tudo é perfeito. Há uma cota anual de filmes estrangeiros para serem lançados (que hoje é de 34), algo que é regulado diretamente pelo governo. São eles que decidem qual filme será lançado, o que levou aos estúdios a levarem em consideração o que o pessoal de Beijing quer na hora de escrever roteiros e gravar as histórias. Ainda assim, trechos dos longas são muitas vezes cortados.

É por tudo isso, inclusive, que Star Wars nunca emplacou na China. Nos anos 70 e 80 não havia interesse da Fox no país, o que fez com que a trilogia original fosse exibida na tela grande apenas em 2015. O Wall Street Journal especula também que O Despertar da Força só foi lançado agora em janeiro por lá porque a cota de filmes de fora já estava preenchida em 2015.

Os chineses não querem apenas investir em filmes dos EUA ou ter um trechinho de um blockbuster gravado localmente pro mercado deles, como rolou em Homem de Ferro 3. Em janeiro do ano passado, a Entertainment Weekly já comentava sobre o mercado de filmes chinês e colocava que os caras querem também fortificar o ciclo de produção interno, e aquisições do tipo ajudam BASTANTE nisso.

“Nós temos muito o que aprender. A indústria chinesa está uns 30, 50 anos atrás da dos EUA”, disse Wang Jianlin, chefão da Wanda, durante o anúncio da compra da Legendary, nesta semana. “Os produtos da Legendary serão realmente lendários e vão turbinar o nosso turismo e o nosso negócio cultural”.

Por isso, o acordo deve turbinar a produção de filmes com conteúdo mais local. O primeiro exemplo já está em produção, aliás. The Great Wall estreia em novembro como uma grande produção entre EUA e China e estrelada por Matt Damon, Andy Lau, Willem Dafoe, Pedro Pascal e diversos atores locais e dirigida por um chinês, Zhang Yimou. A estratégia também serve para driblar os limites para a exibição de filmes estrangeiros.

Se você acha tudo isso surpreendente, anota aí: ainda é pouco. Cada vez mais as empresas ocidentais estão de olho no mercado chinês, mas existem diversas barreiras burocráticas para se instalar ou operar lá, como a já citada cota máxima de produções estrangeiras. Ao mesmo tempo, como você viu, os caras lá estão com grana, apetite e precisam manter o país em crescimento constante.

Netflix já anunciou que deixou a China de fora nesse primeiro momento de internacionalização do serviço de streaming, mas, como já tínhamos falado aqui no JUDÃO, estão em busca de um parceiro local. Distribuidoras de filmes também estão recorrendo alternativas parecidas para lançar filmes por lá, como aconteceu com o recente Star Wars: O Despertar da Força, que ficou com a Tencent Holdins no mercado local. Aliás, a própria Disney está para abrir um parque novo em Shanghai. Esse é um movimento que deve se intensificar.

Talvez não seja uma má ideia começar a praticar mandarim, né?