Nova temporada do Demolidor é gibi que caminha com as próprias pernas | Judão

Assistimos aos SETE primeiros episódios do retorno do Homem sem Medo, que fala mais com os gibis regulares do herói na década de 1980 e não depende tanto assim do que está rolando no restante do Universo Marvel

“Eles crescem tão rápido” comenta Foggy Nelson em um determinado momento da segunda temporada de Demolidor, que estreia no próximo dia 18 de Março. É uma brincadeira com o fato de a Karen Page ter entendido rápido a sua função dentro da Nelson & Murdock, mas poderia servir pra própria série que, de uma temporada pra outra, parece ter se desprendido de tudo que a segurava — e, nesse caso, estamos falando do famigerado MCU, que une todas as séries e filmes num único universo — pra seguir seus próprios rumos, suas próprias histórias.

Se a primeira temporada era uma história de origem, nitidamente inspirada em O Homem Sem Medo, a minissérie ano um do Frank Miller, esta segunda tem ares da passagem regular de Miller pelo gibi do DESTEMIDO, no começo da década de 1980. A primeira temporada é graphic novel, edição especial. A segunda é gibi seriado, daquele que você acompanha mensalmente.

Tire da sua cabeça, portanto, a ideia de que Justiceiro e Elektra, juntos, não pudesse dar certo. Nada disso seria possível — até literalmente, aliás — se não fosse por Frank Castle e pela Srta. Natchios. São eles, e suas interações com Matt Murdock (ou Matthew, dependendo de quem for), diretas ou indiretas, que o desenvolvem como personagem, como advogado e como vigilante.

Demolidor

Nas HQs, os encontros do Demolidor com o Justiceiro sempre serviram pra provocar Matt Murdock, mostrar que ele poderia tranquilamente se tornar Frank Castle, caminhando numa linha fina entre o herói íntegro e o serial killer. Se ele se rendesse um pouquinho mais à violência, poderia não existir diferença entre os dois — é justamente quando isso é discutido na série, uma homenagem clara à passagem de Garth Ennis/Steve Dillon pelo gibi de Castle, que se definem quem é quem nessa história, tanto pra nós que estamos assistindo, quanto pros próprios personagens — especialmente Murdock.

Na mira do Justiceiro não estão apenas o cartel latino, mas também a máfia irlandesa (elemento bastante presente nas primeiras HQs do herói e que o diretor David Slade pretendia usar no finado reboot da Fox) e uma gangue de motoqueiros. Mas como você deve imaginar, ele não é o grande vilão ou antagonista da temporada, sendo só a primeira parte de um arco maior, de algo podre que está rolando dentro da justiça de Nova York. E é a partir dele que a parte advogado de Murdock ganha ainda mais espaço nos episódios, incluindo uma Karen Page mais curiosa, corajosa e investigativa, dividindo seu tempo entre casas invadidas e o início de um romance com seu chefe, que finalmente começa a engatar...

Demolidor

E é no meio dessa história que surge Elektra, dez anos depois, pra, assim como o Justiceiro, fazer Matt Murdock se questionar e entrar em contato com seu lado mais sombrio, ainda que só por memórias... Ou traumas, como queira.

Assim como o Justiceiro que a gente vê aqui ainda está em início de carreira, processando a perda da família, procurando culpados, que ainda não é o poço de cinismo e frases de efeito dos gibis, numa interpretação sensacional de Jon Bernthal, esta também não é a Elektra que você conhece e poderia estar esperando. Esta AINDA não é a ninja fria, calculista, sem sentimentos, dos gibis. Ela ainda não é uma assassina. Ela é Elektra Natchios, filha do diplomata, uma garota rica que já recebeu algum treinamento e andou lidando com forças que mal compreende.

Mas ainda é uma mulher sorridente e apaixonada, alguém que curte o risco, o inesperado, que provoca Matt, que o quer ao seu lado pra desvendar as atividades criminosas nas quais a Roxxon (aquela mesma que está no centro das atenções em Agent Carter, vejam vocês), que administra parte de seu legado financeiro, está envolvida. É uma Elektra num momento anterior. Mas que já é perigosa — ela consegue passar despercebida pelo Murdock! — e não admite ser comandada, que digam o que ela deve ou não fazer, só que ainda sem o treinamento do Tentáculo – que é, de fato, o momento da virada da personagem.

Uma personagem INTERESSANTÍSSIMA, muito, MUITO bem interpretada por Elodie Yung que, naquelas comparações que jamais deveriam ser feitas, consegue rivalizar em relevância e profundidade com Jessica Jones.

Demolidor

Por falar no Tentáculo... bom, esta segunda temporada retoma, de maneira inteligente, uma subtrama deixada de lado na temporada anterior, bem no estilo Marvel / Netflix de contar histórias, abandonando completamente alguns elementos e os retomando depois do nada: o prédio residencial derrubado e cujo terreno é entregue pelo Rei do Crime à máfia japonesa para que eles conduzam um plano ainda não revelado. Só que, aos poucos, fica claro que esta máfia não é a Yakuza e sim algo mais, algo diferente e muito mais perigoso, com um plano em mente que pode ameaçar toda a cidade (parece ser algo bem grande, embora ainda não tenhamos, nestes sete episódios que assistimos, entendido rigorosamente do que se trata). Que tal uma certa ordem dos ninjas do mal, cheios de magia?

Isso ajudaria a ANTEVER um futuro bastante sombrio para a futura ninja letal – e a transformação dela talvez pudesse ser tema abordado em uma terceira temporada? E, enfim, tudo isso uma ameaça grande o suficiente pra reunir até mesmo os tais Defensores lá na frente, não?

Esse Demolidor da segunda temporada é mais super-herói do que aquele que a gente conhecia. Ainda que seja um super-herói diferente, que continua apanhando pra caralho, que sai cheio de hematomas e cicatrizes, um super-herói cheio de dúvidas e incertezas... mas um super-herói. E para quem viu Jessica Jones e descobriu que a Marvel conseguia contar uma história na qual os superpoderes estivessem em segundo plano, ou se lembra que as lutas não pareciam coreografias, talvez possa ser frustrante voltar ao modus operandi mais comum dessas histórias.

Mas, seguindo a FÓRMULA NETFLIX*, sete episódios depois, é como se toda uma nova história fosse acontecer. É impossível não continuar assistindo... A não ser que não tenhamos acesso. Aí a gente fica AINDA MAIS ansioso pro dia 18 de Março. Até lá, fique com o nosso podcast sobre Jessica Jones! :D

PoOOoOooODCAST!

Jessica Jones

OUÇA!

Sylvia Ferrari e Natália Engler conversam com o JUDÃO sobre a importância da série, que tá longe de ser sobre super-heroi, divertida, leve... Com Borbs, Thiago Cardim, Renan Martins Frade e Leandro Iamin na mesa de som. :)

LINKS!
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