E não há nada que possamos fazer | Judão

A morte de David Bowie foi o ato final de uma carreira impecável, sempre marcada pela inquietude e pelo desejo de mudar: Ziggy enfim volta para as estrelas ao final de sua odisseia espacial

No dia 3 de Julho de 1973, David Bowie e sua banda de turnê na época, os Spiders From Mars, subiram ao palco do London’s Hammersmith Odeon e, depois de um show apoteótico, o vocalista anunciou que aquele seria o último show que faria. A plateia ficou, obviamente, histérica – e a notícia foi parar na capa dos jornais ingleses do dia seguinte. Mas não era Bowie falando. Era Ziggy Stardust, a persona que ele criou para protagonizar o disco conceitual de mesmo nome e Bowie interpretava quase que o tempo todo naquele período, o músico glam egocêntrico que conversava com uma raça de alienígenas. David Bowie estaria acostumado a este tipo de excentricidade e extremismo em nome de sua arte. Mas, infelizmente, parece que este não é o caso.

O que causa espanto em sua morte e leva a este tipo de pensamento é justamente a surpresa, na verdade. A mesma surpresa que tomou o mundo de assalto quanto, depois de um desaparecimento de 10 anos, Bowie ressurgiu das cinzas e lançou um disco, The Next Day. E quando todos achavam que aquele belo álbum de 2013 seria a sua contribuição final para o mundo da música, eis que chega o espetacular Blackstar e vira todo mundo do avesso, desconstruindo o rock que o tornou lendário e flertando com um experimentalismo jazzístico que muitos roqueiros com um terço de sua idade não teriam coragem para empreender nem em uma vida inteira.

Afastado dos holofotes, da imprensa, dos fotógrafos, da máquina de marketing das grandes gravadoras, Bowie não dava entrevistas, não dava pinta nos bares da moda e em tapetes vermelhos e muito menos expunha sua vida pessoal pra ninguém. Sua luta contra o câncer ficou restrita aos seus círculos mais íntimos e todos ouvimos Blackstar sem sentir um pingo de pena ou condescendência. Era apenas um disco genial entregue por um artista genial, sem o peso de uma doença arrasadora. Até o fim, Bowie fez o que quis e como quis. Não teve vontade alguma de explicar o que queria dizer com as letras destas últimas músicas – e colocar para rodar Blackstar hoje, depois de sua partida, sabendo a respeito do câncer, parece ter um gosto diferente, mais amargo, com um tom de despedida que nós não tivemos a sensibilidade de entender nas primeiras audições. A verdade, no entanto, apenas o próprio Bowie poderia explicar.

David Robert Jones, natural de Brixton, começou a carreira cedo – sua primeira banda foi aos quinze anos. Misturando nos vocais e nos quadris um pouco de rock, blues, soul e folk, sonhava em ser um tanto como Mick Jagger. Passou pela psicodelia, estudou artes dramáticas e logo começou a explorar muito mais a teatralidade, a criação de personagens e conceitos para tornar suas canções mais ricas e cheias de personalidade. O caos urbano de Diamond Dogs (1974) flertou com o peso e a temática chegou a antecipar a cena do punk inglês que surgiria poucos anos depois. Conforme os anos e os discos passaram, Bowie foi eletrônico, foi hard rock, foi glam rock, foi dançante. Foi Ziggy, foi Alladin Sane, foi Tin White Duke. Dá para entender o quanto é tentador continuar chamando o sujeito pela alcunha clichê de “Camaleão do Rock”.

Teve muitos tipos de penteados, maquiagens e figurinos ao longo de sua trajetória. Foi não apenas músico, mas também ator (e um ótimo ator, aliás, Fome de Viver que o diga). Ousado, criativo, transgressor, inquieto, era conhecido também pela intelectualidade que injetava em suas obras, com dezenas de referências históricas, artísticas, filosóficas – e muitas delas bem longe da obviedade, do tipo que dá pra sacar assim tão de imediato. Andrógino, era muito bem resolvido com a própria sexualidade e rapidamente se tornou um ícone também para o movimento gay.

Influenciou não apenas roqueiros, mas artistas pop, pintores, escultores, dançarinos, designers, ícones fashion. Lady Gaga não existiria sem Bowie; Marilyn Manson tampouco. “Não estou exagerando ao dizer que o que o Elvis significou para a América, David Bowie significou para a Inglaterra e para a Irlanda. Foi uma mudança radical de consciência”, afirmou Bono Vox, líder do U2, em entrevista à revista Rolling Stone. “A primeira vez que o vi, ele estava cantando Starman na TV e parecia uma criatura que caiu do céu. Os americanos colocaram um homem na lua. Nós tínhamos nosso próprio britânico vindo do espaço”.

Pois hoje o homem das estrelas retorna ao espaço, 69 anos depois. Pra se despedir, ele deixou em nossas mãos e corações uma estrela negra. Um lindíssimo canto do cisne costurado por um homem que, agora sabemos, estava debilitado mas que, em nenhum momento, optou pela saída fácil. David Bowie deixa o palco mais uma vez de cabeça erguida – e, imortal como todo artista icônico será para sempre, deixa para trás a lição de que todos nós podemos ser heróis, nem que seja apenas por um dia.

E o disco voador partiu sem destino certo. Como ele gostava.