Enfim o Dark Universe aconteceu. Ou quase isso, né. | Judão

Porque, vamos combinar, uma foto (seja ela montagem ou não), uma vinheta e um anúncio bacanudo não formam um universo compartilhado. É preciso um pouco mais do que isso.

Essa semana a Universal enfim dá o pontapé inicial em seu tão desejado universo compartilhado dos monstrengos clássicos, cujos direitos estão no seu catálogo há décadas. Batizado oficialmente de Dark Universe, o universo interligado de filmes começa com A Múmia, aquele com o Tom Cruise, que estreia por aqui na quinta-feira, dia 8.

Com direito até a uma vinheta própria, com trilha sonora composta por Danny Elfman, o novo universo é cortesia de uma sala de roteiristas especialmente dedicada a fazer a parada acontecer, formada por caras como Alex Kurtzman (diretor de A Múmia, mas de quem você deve se lembrar, ou não, por causa dos roteiros de Transfomers), Chris Morgan (roteirista dos últimos seis filmes da franquia Velozes e Furiosos), Christopher McQuarrie (diretor do próximo Missão: Impossível) e David Koepp (responsável pelos roteiros do primeiro Homem-Aranha, aquele do Sam Raimi, e também do Jurassic Park original).

“Quando a Universal nos procurou com a ideia de recriar estes personagens clássicos, reconhecemos a responsabilidade de respeitar seu legado conforme os trazemos de volta em aventuras novas e modernas”, afirmam Kurtzman e Morgan, em comunicado oficial. “O estúdio e os nossos colegas de criação nos apoiaram e nos desafiaram, à medida em que começamos a interconectar o Dark Universe. Esperamos que estes filmes atraiam fãs antigos e despertem a imaginação de novos fãs”. Donna Langley, presidente da Universal Pictures, joga o confete de volta: “O projeto, desenvolvido com maestria por Chris e Alex, permitirá que cada capítulo subsequente tenha o prazo ideal para encontrar o elenco, cineastas e visão perfeitos para realizá-los”.

Oficialmente, já sabemos até qual é a próxima produção devidamente agendada: a nova versão para o clássico de 1935 A Noiva de Frankenstein, prevista para ser lançada em 14 de Fevereiro de 2019, com direção de Bill Condon, de A Bela e Fera. Embora a atriz que vai assumir o icônico papel de Valerie Hobson ainda não tenha sido escolhida (segundo o THR, o estúdio quer muito Angelina Jolie), já se sabe quem vai ser o monstro outrora vivido por Boris Karloff: ninguém menos do que Javier Bardem.

Aliás, além de Bardem, outros dois atores deste universo já estão escalados e devem, no melhor estilão Marvel de ser, dar as caras em outros dos filmes que forem devidamente saindo do papel: Johnny Depp como o Homem-Invisível (será que mesmo assim ele vai interpretar o seu tipo padrão de Jack Sparrow?) e Russell Crowe, que será o brilhante cientista Dr. Henry Jekyll, aquele mesmo que a gente sabe que pira e se transforma num tal Mr.Hyde. Por sinal, Crowe deve ser o Nick Fury deste Dark Universe: ele é o dono do tal Prodigium, uma organização científica secreta que tem filiais em todo o globo.

“A missão da Prodigium é rastrear, estudar e – se necessário – destruir o mal incorporado na forma de monstros em nosso mundo”, explica o anúncio oficial. “Trabalhando sem a supervisão de nenhum governo e através de práticas sigilosas, a Prodigium impede que o público saiba que o mal existe e está por perto... e fará qualquer coisa para contê-lo”. Em resumo, Hellboy mandou um beijo.

Se você ficou aí imaginando um monte de monstros juntinhos tentando exorcizar os demônios de seu passado enquanto fazem “o bem”, numa mistura de Supernatural com Esquadrão Suicida, talvez esteja no caminho certo. “Às vezes é preciso usar o mal para combater o mal”, era uma frase recorrente entre os executivos da Universal para descrever o desejo de fazer esta bagaça toda acontecer. Ou seja... ;)

Lá atrás, lembremos, tinha sido anunciado que um filme do Homem-Invisível teria roteiro de Ed Solomon (MIB: Homens de Preto), enquanto Aaron Guzikowski (Os Suspeitos) ficaria responsável por escrever o novo Lobisomem; Jon Spaihts (Prometheus) e Eric Heisserer (A Chegada) cuidariam de roteirizar as novas aventuras do caçador de vampiros Van Helsing (de alguma forma inspirado no recente Mad Max de George Miller) e Jeff Pinkner (O Espetacular Homem-Aranha 2) teria a tarefa de escrever a versão atual do Monstro da Lagoa Negra. Nenhum destes nomes foi, no entanto, mencionado no anúncio oficial do Dark Universe.

Portanto, ainda não se sabe o que vem depois da Noiva do Frankenstein, mas a Universal deixou claro que, para o Dark Universe, pode muito bem trabalhar tanto superproduções quanto filmes de orçamento mais modesto, umas paradas mais intimistas, com o produtor Jason Blum inclusive interessado em colocar as mãos em alguns capítulos desta jornada.

Mas, a julgar pelo clima dos trailers/vídeos de A Múmia, o foco aqui será muito menos “terror” e muito mais “ação”. Assim sendo, espere por versões ligeiramente diferentes (para dizer o mínimo) de obras como Drácula, Monstro da Lagoa Negra e Lobisomem (que, vejam vocês, estaria sendo negociado como um veículo para Dwayne “The Rock” Johnson afiar os dentes e as garras).

É preciso reforçar ainda que este novo A Múmia é, de fato, o ponto inicial desta história toda. Esqueça os dois filmes meio Indiana Jones com o Brendan Fraser e até O Escorpião-Rei, deixe pra lá o remake do homem-lobo com Benicio Del Toro, o Van Helsing com o Hugh Jackman e, principalmente, Drácula: A História Nunca Contada, de 2014, no qual Luke Evans vive o conde Vlad Tepes.

Este é um caso particularmente curioso. O filme, com uma pegada super-herói numa ambientação épica tipo Senhor dos Anéis, deixa claro por todos os cantos que a ideia era iniciar o tal universo compartilhado ali mesmo – já que a trama se encerra mostrando o Drácula nos dias de hoje, seguido pelo mestre dos vampiros vivido por Charles Dance (o Tywin Lannister de Game of Thrones) e numa baita pinta de Nick Fury / Claire Temple da vez.

Nos últimos anos, no entanto, este novo Drácula tem sido sumariamente ignorado em qualquer discussão a respeito do Dark Universe. Talvez o motivo tenha sido a sua bilheteria: custando cerca de US$ 70 milhões, a reinvenção da origem do mestre dos vampirões faturou nos EUA apenas US$ 56 milhões. Ouvidos pelo THR, especialistas do mercado estimam que A Múmia não tenha uma performance melhor, arrecadando na estreia pouco mais de US$ 40 milhões na Terra do Tio Sam, o que é um primeiro passo bastante modesto para uma produção que custou algo em torno de US$ 125 milhões.

Justamente pensando nisso é que a Universal bancou a participação de Cruise, no papel do mocinho Nick Morton, que deve ser recorrente na franquia. Nos bastidores, fala-se que o ator faturou polpudos US$ 13 milhões + participação nos lucros, justamente porque ele ainda é um nome reconhecido internacionalmente, o que poderia ser uma garantia de sucesso na maior parte dos mais de 60 territórios fora dos EUA, incluindo a China, no qual o filme será lançado. “Se você prestar atenção na arrecadação de Velozes e Furioso 8, vai sacar que 80% da bilheteria total veio de fora dos Estados Unidos”, afirma o analista especializado Paul Dergarabedian. “Tom Cruise continua sendo um supertar internacional, então...”. Será o suficiente?

Logo, o tal do Dark Universe não estreia sem correr alguns riscos, passando pelo fato de que parte de seus personagens acabaram caindo em domínio público e, portanto, podem ter filmes rolando ao mesmo tempo em estúdios concorrentes, além de mergulhar de cabeça nos tribunais – rola um papo de que a Warner teria planos de acionar seus advogados para processar a Universal justamente porque “Dark Universe” era o título pretendido para o guarda-chuva sob o qual eles lançariam o filme da Liga da Justiça Sombria e outras adaptações da DC mais numa pegada “sobrenatural”.

Só que nenhuma destas ameaças é tão grande quanto se focar em bons filmes como parte de um universo compartilhado e não em bons filmes E PONTO. “Como reunir esta galera toda num futuro filme de grupo sem parecer uma pataquada como aquele filme da Liga Extraordinária?”, disse eu mesmo, certa vez, por aqui. Afinal, sim, o risco de ultrapassar a linha e se tornar uma filial live-action do Hotel Transilvânia ainda é BEM grande.

A gente já sabe que aquela linda foto em conjunto de todos os atores confirmados no Dark Universe era uma montagem e eles não estavam realmente todos juntos. Mas, ainda que estivessem, quem é que, como espectador, se importaria com eles enquanto personagens de um universo coeso e não apenas como estrelas de Hollywood posando juntas já que NENHUM dos filmes do universo sombrio foi sequer lançado? Percebam o ponto: a grande sacada da Marvel ao construir seu mundinho compartilhado foi fazer você se importar individualmente com cada um de seus personagens, devidamente apresentados aos poucos antes de tentar sair costurando a porra toda.

É muito diferente de sair fazendo barulho pela imprensa com um novo universo compartilhado antes mesmo do PRIMEIRO filme sair. Como diabos a gente pode ficar empolgado com um universo infestado de personagens que a gente nem conhece ainda? Porque saber quem é o Frankenstein de Boris Karloff é muito diferente de saber o que pode ser feito do Frankenstein de Javier Bardem ao lado do Homem-Invisível de Johnny Depp.

Por enquanto, eles são apenas conceitos. Conceitos podem ou não ser interessantes. Mas só vão passar a falar de fato aos nossos corações a partir do momento em que conhecemos suas histórias.

Até o momento, esta é apenas uma foto que os veículos especializados em celebridades amaram. E não um universo cinematográfico compartilhado. Que venha a tal da Múmia para fazer a gente começar a se empolgar. Ou não. ;)