Uma quinta-feira que prometia ser como qualquer outra acabou se tornando uma das mais incríveis que eu já vivi com uma apresentação intimista e exclusiva!
Los Angeles, 03 de Setembro de 2015. Uma quinta-feira. Acordei, fiz meu café, abri o meu twitter e estava lá, dando uma olhada nas notícias de sempre. Eis que me deparo com um tweet do Billy Gould, baixista do Faith No More, anunciando um show surpresa para aquela mesma noite, no histórico Troubadour, depois de se apresentarem no Jimmy Kimmel Live.
Era bom demais pra ser verdade.
Fazia apenas quatro meses desde que eles se apresentaram na cidade, numa série de três shows para divulgar seu novo disco, Sol Invictus, todos sold out! Será que eu assistiria à banda mais uma vez num espaço tão curto de tempo? *.*
Pois bem, entrei no link pra comprar os ingressos e ainda havia alguns disponíveis. É bem comum que esse tipo de show surpresa, num lugar pequeno, esgote rápido. Foi o que obviamente aconteceu, mas eu estava com sorte e consegui comprar sem nenhum problema. 35 dólares a menos na carteira, mas com um sorriso no rosto, já esperava ansiosa pelo horário do show: meia-noite.
Alguma coisa me dizia que aquela noite seria especial, que seria diferente. Talvez pelo fato de eu estar a caminho de uma apresentação relâmpago, dessas que normalmente a gente fica sabendo só depois que rolou – ou que você até fica sabendo que vai acontecer, mas alguma distância geográfica te impede de ir.
Só pra situar um pouco vocês no espaço-tempo, o Troubadour é um daqueles locais que exalam história. E história boa. Abriu as portas em 1957, já foi palco de shows de grandes nomes como Neil Young, James Taylor, Elton John, Neil Diamond, Bruce Springsteen, Miles Davis, Willie Nelson, Metallica, Guns N’ Roses, No Doubt, System of a Down, Radiohead, Joe Strummer, Franz Ferdinand, Coldplay, The White Stripes, Red Hot Chili Peppers, The Killers, Lily Allen, The Cure, Manu Chao, Prince, Lana Del Rey, Gary Clark Jr., Rod Stewart, Depeche Mode e Nine Inch Nails.
Também já sediou acontecimentos históricos como as jam sessions do Bob Dylan, a última aparição de Janis Joplin, a descoberta de Tom Waits, Charles Bukowski conhecendo sua futura esposa, Pearl Jam tocando pela primeira vez com seu novo nome (antes a banda era chamada de Mookie Blaylock), Johnny Cash fazendo uma de suas últimas apresentações ao lado de sua esposa June Carter Cash, a primeira apresentação ao vivo de Dave Grohl na bateria do Queens of the Stone Age. Até a banda Eagles, aquela do Hotel California, fez uma música em homenagem ao Troubadour, Sad Cafe...
A casa tem capacidade pra 400 pessoas, ou seja, qualquer show pode ganhar um ar intimista, querendo o artista ou não. Apenas para vocês entenderem a comparação: estamos falando de um lugar MENOR do que o Carioca Club, em São Paulo, que comporta cerca de 1.000 pessoas e tem sido QG de uma enorme quantidade de apresentações de metal/hard rock internacional na capital paulista. E essa pra mim é a mágica desse tipo de lugar, principalmente nessa época em que vivemos, na qual a qualidade de um artista muitas vezes não é proporcional à sua capacidade de lotar estádios.
Cheguei por volta das dez e meia da noite e, a essa hora, já estava formada uma fila de pessoas aguardando para entrar, a maioria homens e acima dos 25 anos de idade. Esqueçam o ingresso com código de barras, QR Code ou qualquer coisa assim. Uma hostess checava o nome de cada um numa lista impressa, old school. Pulseira no braço, que comece o espetáculo.
Nada de banda de abertura. Quem ficou responsável por entreter a galera foi Neil Hamburger, comediante e músico, com suas piadas de gosto duvidoso sobre celebridades e músicos famosos. Uma delas: “Por que o Eric Clapton trocou seu PC por um Mac? Porque ele não se deu bem com Windows”
(Nessas horas é uma merda ser um entendedor e entender)
00h. Faith no More sobe ao palco. Sem firulas, sem trajes sociais, sem decoração de palco, uma volta aos anos 1980/90. Bermudas, tênis de cano alto, camisetas e um Mike Patton vestindo uma jaqueta com um emblema da polícia. Como disse o tecladista Roddy Bottum, era uma “casual Thursday”. Foi ele mesmo quem também avisou a plateia para se preparar para um show diferente do que eles estão fazendo desde o retorno da banda.
Não foi preciso esperar mais do que três músicas para que Mike Patton desse o seu primeiro stage diving. Ao todo foram três. Em um deles o vocalista foi parar dentro do bar e cantou boa parte de Ashes to Ashes de lá mesmo. A promessa de um show diferente e surpreendente era cumprida a cada minuto. O público cantava e acompanhava cada momento com um sorriso no rosto (a minha mandíbula ainda está doendo, dias depois). Foi quase uma viagem no tempo, exceto por boa parte das músicas tocadas serem do novo disco e por Mike Patton ter feito até uma ‘selfie’ com a galera, um sinal dos novos tempos. Mas quem se importa? ;)
A qualidade estava lá, a atitude estava lá, a vontade estava lá, a presença de palco, o baixo, a bateria, a guitarra, o teclado, a voz absurda, toda a loucura... Tudo lá, como sempre foi e como parece que nunca vai deixar de ser. Das 20 músicas escolhidas, 18 foram tocadas. Talvez por conta do horário (quase duas horas da manhã), Chinese Arithmetic e uma potencial mistura (?) de Epic com From Out of Nowhere ficaram de fora, uma pena. O show acabou, mas não a noite.
Com uma banda tão receptiva e à vontade no meio do público, por que não tentar encontrar com Mike Patton e trocar algumas palavras? Era uma oportunidade única. Aos poucos equipe técnica e instrumentos deixavam o local, seguidos pelos integrantes da banda. Menos Mike Patton, que só deixou o Troubadour uma hora depois do final do show. Ao ser chamado pela ‘multidão’ de seis pessoas que o aguardavam, foi bastante simpático e atencioso, mesmo visivelmente cansado. Trocou algumas palavras com um amigo dos tempos de escola, tirou fotos e recebeu cumprimentos pelo excelente show. Quando soube que eu era brasileira, fez logo questão de falar sobre os shows que eles vão fazer no Brasil (24 de Setembro em São Paulo e 25 de Setembro no Rock in Rio).
Talvez Mike nunca saiba o impacto que aqueles minutos tiveram e vão ter na minha vida; na vida de uma menina de 9 anos que não tinha idade suficiente para assistir ao Faith No More tocando em Santo André/SP em 1991, mas que pediu pro pai para segurá-la enquanto ela subia no portão do lado de fora e tentava ver pelo menos um pedacinho do show; que viu a pausa da banda e prometeu que, se um dia eles voltassem, iria a todos os shows possíveis. Londres 2009, São Paulo 2009, Paulínia 2011 e Los Angeles 2015, por duas vezes. Que não vê a hora de encontrá-los novamente para agradecer, mesmo de longe, no meio da multidão.
Parabéns Faith No More: as definições de epicidade foram atualizadas com sucesso!