Eu, você, Jay e Silent Bob: estamos envelhecendo | Judão

Acompanhamos a gravação AO VIVO de Jay & Silent Bob Get Old e o que era pra ser um show de comédia virou uma lição de vida :)

Uma dupla de vagabundos e traficantes. O primeiro, um cabeludo magrelo, hiperativo e boca suja. O segundo, um gordo largadão e de pouquíssimas palavras. O que parecia uma ideia de merda para dois personagens do cinema acabou se tornando ícone da cultura pop. Se você tem mais ou menos 30 anos de idade e é fã de quadrinhos e de filmes independentes, provavelmente se lembra de Jay e Silent Bob.

Kevin Smith, o gênio por trás de filmes como O Balconista (1994) e O Balconista (2006), Barrados no Shopping (1995), Procura-se Amy (1997), Dogma (1999) e Red State (2011), entre outros, é ator, produtor, editor, roteirista, diretor, empresário e podcaster.

Jason Mewes teve uma infância complicada, foi criado por parentes, não conhece o pai, perdeu a mãe vítima de AIDS, abusou de drogas pesadas, foi preso, internado várias vezes e até dado como morto, mas tem carisma e ainda um GRANDE amigo.

E ambos são as estrelas de Jay and Silent Bob Get Old. Não é apenas um show de comédia que rola no Hollywood Improv, mas um podcast semanal, feito ao vivo, diante de uma plateia que também participa do espetáculo.

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Desde sua inauguração em 1974, The Hollywood Improv, na Melrose Ave, em Los Angeles, já foi palco de shows de grandes artistas. Na verdade, o Improv (vem de improvisation) é uma franquia de clubes de comédia espalhados por todo o país, sendo o primeiro deles inaugurado em Nova York em 1963. E o que era para ser apenas um ponto de encontro e entretenimento dos artistas após os shows da Broadway acabou ganhando mais e mais atenção, atraindo grandes talentos e se tornando por um tempo um dos únicos lugares para se fazer comédia ao vivo na terra do cinema.

Da icônica parede de tijolos – sua marca registrada – para a história, o mundo conheceu talentos como Andy Kaufman, Jerry Seinfeld, Bette Midler, Jim Carrey, Judd Apatow, Jamie Foxx, Sarah Silverman e mais uma porrada de gente boa.

Kevin Smith foi quem teve a ideia de fazer esse podcast como uma última tentativa de ajudar o amigo Jason Mewes a se manter sóbrio, comprar uma casa e pagar suas contas depois de várias tentativas. Kevin o internou algumas vezes, vetou sua participação em um projeto no qual ele estava trabalhando por conta do estado em que ele se encontrava, e até o levou para morar em sua própria casa. Mas tudo parecia em vão.

Após receber uma ligação da revista People pedindo um depoimento sobre a morte do seu então ex-parceiro que já estava desaparecido há mais de 48 horas, um Kevin Smith em choque decidiu que alguma coisa urgente e efetiva precisava ser feita para salvar Jason.

(É claro que ele não estava morto, “apenas” passando uns dias no Texas sem que ninguém soubesse)

O plano de salvação deu certo. Desde sua criação em 2010, já se foram 172 programas, dentro e fora dos Estados Unidos. Jay and Silent Bob Get Old foi considerado pelo iTunes um dos melhores podcasts no ano de sua estreia e claro, o mais importante, tem mantido Jason Mewes sóbrio desde o dia 28 de junho de 2010, contagem que sempre é lembrada em cada um dos programas.

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Numa noite de sexta-feira, um lotado The Hollywood Improv recebeu mais uma vez o show Jay and Silent Bob Get Old. Por volta das 22h30, a dupla passou correndo pelo meio do público e subiu no palco ao som da vinheta característica do podcast. Muitos aplausos para um Kevin Smith visivelmente mais magro, mas que não abre mão de sua marca registrada, as imensas camisetas de hockey; e para um Jason Mewes que, apesar das marcas que os tempos difíceis deixaram em seu rosto, parecia feliz e realizado.

O show acontece num clima total de informalidade – e não teria como ser diferente, já que são essencialmente velhos amigos batendo um papo, acompanhados por algumas dezenas de pessoas. Jason, sempre carregando o seu diário (que na verdade serve como um guia para o espetáculo), é o grande protagonista, contando histórias de sua vida pessoal e aventuras sexuais obscenamente detalhadas. Kevin atua apenas como um mero entrevistador.

O show dura pouco mais de 1h, mas parece que tudo acontece em uns 15 minutos

A estrutura do show é bastante simples: em um primeiro momento, a dupla fala sobre os projetos que já fizeram juntos e relembram algumas curiosidades de bastidores. Depois eles conversam sobre como está a vida de Jason e sobre a história do podcast. Em seguida, o eterno Jay conta uma de suas aventuras sexuais, e Kevin também conta como anda sua vida e narra uma bela história sobre como ele conseguiu presentear sua mãe com o carro que ela tanto sonhava.

Jason ainda nos brindou com um ‘belíssimo’ rap, composto por ele mesmo e cheio de referências de quadrinhos e cultura pop (claro!). O ápice acontece durante o clássico quadro LET US FUCK, no qual três espectadores são escolhidos por Mewes para encenarem algumas das posições sexuais que ele mesmo criou, batizou com nomes absurdos e que estão anotadas em seu diário. Chega ao fim o show de pouco mais de 1 hora de duração, que rola de forma tão natural e espontânea que parecia que tinham se passado apenas 15 minutos.

Nas palavras do próprio Kevin Smith, Jason sempre foi a criança estranha e marginalizada da vizinhança, o lugar no qual tudo o que acontecia de errado era culpa “daquele garoto Mewes”. Na verdade, aquele garoto só precisava de uma família que o acolhesse. E ele conseguiu. Construiu uma família, tem uma vida saudável e, como sempre, um grande amigo. Amigo esse que faz questão de dizer que, se coisas boas aconteceram na vida de Jason, ele deve isso à plateia, ao público que lhe dá suporte desde o início do projeto.

Nessa noite tão especial, entramos para ver um show de comédia, mas saímos com uma grande lição de vida e um exemplo de verdadeira amizade entre dois caras que são só coração. E piadas de cunho sexual, claro. ;)