Queria ter gostado tanto do filme do Queen quanto eu gosto da banda... | JUDAO.com.br

Quando você vai ver a cinebiografia de uma banda e fica pensando que a melhor coisa ali são mesmo as músicas, talvez fosse o caso de ter ficado com a playlist da trilha sonora mesmo.

Em certo momento de Bohemian Rhapsody, filme que pretende contar nos cinemas a EPOPEIA da maior e melhor banda de rock do universo (e quem não concorda é clubista), temos ninguém menos do que Mike Myers disfarçado — CLARAMENTE disfarçado, aliás — sob a barba e os óculos escuros de Ray Foster, o executivo da EMI que não queria ver aquela faixa que dá nome ao filme, uma loucura operística de 6 minutos de duração, virar o principal single do álbum. A frase que ele diz, uma referência clara ao fato de que a insistência do próprio Myers para ter a canção na comédia Quanto Mais Idiota Melhor ajudou a dar uma segunda chance pra banda nos EUA, é um momento bem divertido da trama.

Mas, para quem sabe ler nas entrelinhas, aquela cena é também um ótimo resumo do filme. Porque não apenas Foster mas também as resenhas iniciais da época que pipocam na tela para fazer o ponto ficar mais claro classificaram Bohemian Rhapsody, a música, tanto quanto seu disco de origem, A Night at The Opera, como sendo algo pomposo, grandioso, épico, porém vazio. Obviamente a história provaria justamente o contrário. Mas que isso é exatamente o que se pode dizer de Bohemian Rhapsody, ah, isso é.

Uma história RASA, sobre uma banda gigantesca, em que um Mike Meyers usando barba falsa e óculos escuro faz referência à Quanto Mais Idiota Melhor. Sacou?

Beleza, ok, o visual é lindo e, claaaaro, as músicas são sensacionais. Só que isso é o óbvio — e precisava ser MAIS conteúdo e menos forma. Mais história. Mais cinema. Esta é uma cinebiografia e, portanto, se esperava ver um pouco mais do homem por trás do mito, o que infelizmente acaba não acontecendo. É tudo tão rápido, acelerado, entrecortado, que mal dá tempo de se aprofundar e se afeiçoar por aquele cara, Farrokh Bulsara, de ascendência parsi, vindo de Zanzibar. Ele é contra as tradições de sua família, sai à noite, conhece a banda Smile, eles perdem o vocalista, Freddie se mete a cantar pros caras, ganha a vaga, eles fazem o primeiro show, resolvem gravar, são descobertos, saem em turnê. E tudo isso em menos de 30 minutos de filme. Calma aí, fera!

Não era preciso mostrar tudo (e, bom, se embolar todo na linha do tempo, o que aliás acontece, caso você saiba as datas em que, por exemplo, o Queen se apresentou no Brasil, além das roupas e cabelos usados por Freddie Mercury). Isso não é uma obrigação. Para dar mais espaço ao lado humano de Freddie, bastava fazer escolhas. Se focar neste ou naquele detalhe, período, passagem. Tudo acaba sendo mostrado de maneira bem superficial, tentando justificar uma ação com uma única cena, indo do relacionamento com Mary Austin e sua inspiração para Love of My Life até a EPIFANIA que o sujeito teve para escrever esta loucura chamada Bohemian Rhapsody. Só aí já tinha tanta história pra contar, tantos pequenos e saborosos detalhes, mas era preciso correr porque ainda tinha muita coisa pra retratar, tinha que construir tudo até chegar no Live Aid. Vai, vai, vai, que temos pouco tempo.

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Nesta loucura, Freddie Mercury acaba sendo bem mais um personagem, o icônico e excêntrico vocalista do Queen, o performer, alguém que entra e sai como um furacão de qualquer cômodo da casa, sempre com uma frase de efeito para finalizar qualquer cena, um bigode com roupas extravagantes, do que uma PESSOA. Uma espécie de cosplay. E isso é um pecado mortal para a história. E olha só, isso tá longe de ser culpa do Rami Malek, que se entrega DE VERDADE ao papel. Ok, no começo do filme, dá um pouco de nervoso ao ver que a boca dele simplesmente não se acostuma com a prótese dentária. Mas o jeito que ele se move e injeta o olhar, principalmente quando está no palco, são Mercury puro.

O problema tá no roteiro.

E aí, senhoras e senhores, dá pra entender porque Sacha Baron Cohen saiu do projeto, que teve por definição uma trajetória BEM tumultuada. Cohen, que seria o próprio frontman do Queen, não concordava com o papo de fazer um filme “para a família”, que pudesse “proteger o legado do Queen”. Ele tava bem do certo, porque Bohemian Rhapsody e seu Freddie Mercury de plástico acabam sendo a visão de Brian May e Roger Taylor, os integrantes remanescentes da banda que cuidam dos negócios agora (já que o baixista John Deacon vive basicamente recluso), para a história de seu vocalista.

Perceba que existem dois lados muito claros aqui. O Queen surge, que maravilha, vira uma família, muitos discos vendidos, muitos hits tocando nas rádios. Aparece então Paul Prenter, que se tornou assistente pessoal de Mercury e seu amante, o homem que DE FATO foi bastante manipulador ao longo do relacionamento de ambos e principal responsável pelo afastamento dos outros integrantes do grupo, além de ter vazado para a imprensa informações sobre o intenso comportamento sexual de Freddie. Era natural que, de alguma forma, ele fosse retratado como VILÃO no filme. Mas o grande problema aqui é que o próprio Mercury acaba sendo igualmente “vilanizado”, numa visão absolutamente simplista das coisas. E um tanto preconceituosa, até.

“Estar no Queen é legal, somos família, somos a luz”, é meio que o grande recado aqui. Além de sabermos que nenhum lado desta história é assim tão inocente (May e Taylor estão bem longe de serem santos porque, apesar de reservados, sabe-se bem de suas personalidades igualmente fortes dentro de uma banda que notadamente brigava pra caralho), a narrativa joga o fato do cantor ter assumido para si mesmo a sua sexualidade numa levada meio do pecado, uma cagada imensa. May, Taylor e Deacon são roqueiros cabeludos mas são homens sérios, casados, de família. E o Mercury? Ah, é este gay exagerado, estereotipado, que sai com um monte de machos, promíscuo, que absurdo, uma lástima.

Bohemian Rhapsody joga o fato do cantor ter assumido para si mesmo a sua sexualidade numa levada meio do pecado, uma cagada imensa.

A homossexualidade de Freddie — ou, no caso, a sua bissexualidade, o que ainda é motivo de discórdia entre seus biógrafos do cantor mas que o filme crava de maneira definitiva, sem espaço para sutilezas, em mais um daqueles diálogos excessivamente didáticos, que querem explicar a história pro público médio — não está, como alguns temiam, apagada no filme. Mas digamos que eles evitam colocar muita luz nela também.

Uma certa sequência, na qual Mercury vai a uma boate gay justamente no período em que a banda lançaria Hot Space (1982), sua bolacha mais dançante, tem uma iluminação tão sombria e uma edição tão sufocante e caótica que dá a impressão, sem exagero, que a cada escada que Freddie desce ele está indo rumo a mais um dos níveis do inferno de Dante.

Curiosamente, o cantor só passa a ser “aceito” pela banda novamente na época do Live Aid quando começa a namorar um único homem, Jim Hutton, com quem ficou até até o final da vida, e “aquieta o facho”, deixa os exageros de lado fora do palco, para de dar pinta. Pode parecer bizarro dizer isso sobre um filme que retrata a vida e a obra de uma banda como o Queen, mas em certo momento de Bohemian Rhapsody, a história se torna tão carola e conservadora que parece até piada. O filme parece ter MEDO de mostrar o relacionamento de Freddie com outros homens, algo que vai sendo meramente sugerido aqui e ali, geralmente fazendo uso dos maiores chavões possíveis — o que diabos é a cena na qual ele fica olhando, lânguido, para um caminhoneiro entrando no banheiro masculino????

Quando escrevemos sobre o primeiro trailer de Bohemian Rhapsody, a gente falou algo que se mantém firme e forte aqui: é tudo uma questão de entender a narrativa, né, minha gente. Não é O QUE é contado mas sim O JEITO que é contado. Isso vale para QUALQUER história, sendo contada em QUALQUER plataforma.

Freddie Mercury foi único, um artista completo, multifacetado — não só em cima do palco, mas também fora dele. Faltou um olhar sobre Farrokh e, de preferência, por alguém que não fosse Roger ou Brian. Aliás, cá entre nós, faria um bem danado que a gente TAMBÉM pudesse ver outras facetas deles e do John, né? Porque quem eles eram também ajuda a construir, pra caramba, um pouco de quem o Freddie foi.

Uma pena. Mas tudo bem, pelo menos tem a playlist do Spotify com a trilha sonora do filme, né?

PS: Na sequência final, quando a banda toca no Live Aid, no estádio de Wembley, é realmente tudo muito bonito, emocionante. Mas digamos que a sua visão acaba se distraindo um pouco porque a plateia é CLARAMENTE ampliada e replicada pelo computador. Em certo ponto, dá até pra ver onde está o CTRL + V, CTRL + V de pessoas, a repetição de pares de mãos. É tipo um efeito de plateia de jogo de videogame, tipo um FIFA da vida. Dava pra ter investido um pouco mais aí ou, quem sabe, ter usado umas imagens de arquivo, né? ENFIM. ¯\_(ツ)_/¯