Reza a Lenda não é Mad Max no Sertão. Mas tudo bem, também. | Judão

O filme, dirigido por Homero Olivetto, fica mais interessante justamente ao percebermos o fato de que o trailer talvez tenha vendido uma ou outra ideia errada.

Esquece todo esse negócio de Mad Max que você pensou, ouviu o leu (inclusive aqui no JUDÃO) quando assistiu aos trailers de Reza a Lenda. A criação de George Miller tem óbvia (e assumida) influência, mas Ara não é o Max, Severina não é a Furiosa e a Laura não chega nem perto de ser uma “donzela em perigo”.

Enquanto podemos discutir, mais uma vez, o papel dos trailers no marketing de um filme, pelo menos nos sobrou a surpresa ao perceber que o Reza a Lenda é muito mais Brasileiro que a gente imaginava, mais baseado em fé e religião do que qualquer outra coisa — ainda assim, fugindo de muito o que estamos acostumados em cinema pop no Brasil, começando pelo fato de que não é ruim. :)

“A ideia desse filme surgiu do Mangue Beat, música eletrônica com cultura regional” conta Homero Olivetto, em entrevista ao JUDÃO. “Hoje o filme é resultado de muitas referências, e eu queria fazer um filme assim. Claro que Mad Max, de 79, é uma delas, principalmente num olhar punk, estético. Mas tem de tudo ali: Conan, Taxi Driver, Sergio Leone, Sam Peckinpah”, explica. “Mas o fato de você juntar na mesma frase ‘Mad Max’ e ‘Sertão’ eu acho legal pra caramba, você despertar isso no imaginário das pessoas”.

“Nosso filme tem uma relação com Mad Max, mas da mesma forma que tem com Easy Rider, que tem com Deus e o Diabo na Terra do Sol”, diz Cauã Reymond, que além de interpretar o protagonista Ara, é também produtor de Reza a Lenda. E lindo. Tipo muito. PRA CARALHO. “A gente até gostaria de ter o orçamento de um Mad Max”, disse, rindo. AQUELE SORRISO... :D

Reza a Lenda

Outra impressão clara que o trailer passava era a de que Severina e Laura, as personagens de Sophie Charlotte e Luisa Arraes iriam brigar por homem, sendo uma delas a entidade conhecida como “personagem feminina forte” e a outra “donzela em perigo”. Por sorte, não é isso o que se vê.

“Patricia Andrade, uma das roteiristas do filme, me ajudou muito a entender um pouco esse universo”, conta Homero. “Mas a Severina veio da Maria Bonita e das mulheres do cangaço. A linguagem deles, como eles se relacionam, vem muito disso — de bando, de sobrevivência. Não tem muito espaço pra gênero, é do bando ou não é do bando”, explica. “Só pensei nisso como função dramática. Severina é a parceira do Ara, comanda a tropa com ele. A Laura é o elemento perturbador, mais uma fissura no ego do protagonista...”, conta. “E a Laura graças à história ela foi se moldando e acabou se tornando um personagem que a princípio parece mais frágil, mas vai ganhando uma força por outro lado...”

Tanto Severina quanto Laura são personagens que não só fazem o protagonista existir, como também dá voz a ele — de uma maneira, aí sim, bem parecida com a relação entre a Furiosa e Max, ainda que Reza a Lenda já estivesse pronto bem antes de A Estrada da Fúria chegar aos cinemas. “Eu faço um personagem silencioso, eu preciso que as outras pessoas falem o que esteja acontecendo, o que foi um grande desafio, um grande desejo” diz Cauã Reymond. “Não acredito que só elas contem a minha história, mas o Pai Nosso, o próprio personagem do Humberto Martins... Acredito que não seja uma questão de diferença de gêneros, mas de personagens”.

Mas não existe nada mais homem do que homem falando sobre mulher — é o chamado mansplanning. É uma coisa que na maioria das vezes você só percebe depois de mudar um segundo o ângulo de visão sobre um assunto... Ou vai dizer que não se ligou que, até agora, eu trouxe a voz de dois caras apenas e tão somente? :D

Essas entrevistas foram no finzinho de 2015 e, como o nosso Judão Tchananã Awards mostra, “as minas assumindo seu lugar de direito” foi um dos principais fatos do ano. Um caminho sem volta, que torna certas coisas normais no nosso dia-a-dia (e aqui falo não só da sociedade, como também da indústria do entretenimento e cultura pop) mais chamativas do que elas deveriam ser. Foi a partir disso que comecei minha conversa com Sophie Charlotte e Luisa Arraes, que você assiste na íntegra aí embaixo. Só apertar o play. :)

Sei lá se, de fato, como disse a Sophie, Severina e Laura vão se apaixonar numa sequência de Reza a Lenda, mas uma continuação é sim uma possibilidade. Homero Olivetto afirmou que pretende seguir a vida e, apesar da cena final, não a fez pensando numa sequência. Cauã, o produtor e lindo, disse que dependeria da bilheteria e aquela coisa toda, mas “não vejo porque não”.

Reza a Lenda é, enfim, um filme ok. Talvez a profundidade dele esteja mais em assuntos extra-campo do que nos 90mins de projeção e aquele trailer tenha tocado numa ou outra tecla de empolgação da galera. Mas, pelo menos da minha parte, vou sempre achar bom ver esse tipo de coisa acontecendo no Brasil. Há muito o que se desenvolver e, tal qual Condado Macabro, talvez seja o caso de afinar um pouco mais o uso das referências pra poder construir algo próprio.

Mas, de resto, por mim tudo bem. :)