Sobre como remakes e continuações não estão preparados pra diversidade | Judão

Todos os amigos negros de Friends entram num bar, seguidos pelos personagens gays de Full House. Bar vazio.

É compreensível que os produtos pop de décadas atrás não fossem exatamente poços de representatividade — que o digam TODOS os atores negros sem falas em séries de TV ou os personagens LGBT que já morreram na ficção, seja por rejeição de público ou falta de coragem de seus autores. Mas, numa TV cada dia mais diversificada e que tem em sua grade novos produtos que conversam com os mais variados nichos de público, parece imperativo que o espectador se veja traduzido em tela.

Sejam eles tramas em que arquétipos historicamente invisíveis tomam posições de protagonismo — vide a Miss Marvel paquistanesa Kamala Khan nos gibis da Marvel — ou ainda produções que exploram um novo tipo de humor, que sai da posição de atirar nos mesmos objetos de chacota costumeiros e passa a rir de seus opressores – como acontece em Masters of None, por exemplo – o ponto é que as produções mais recentes têm maior chance de absorver mudanças, ao passo em que assumem posicionamentos políticos como pedras fundamentais sobre as quais constroem suas narrativas.

Revisitar antigos hits do passado por vezes é mergulhar em piadas e situações que deixam o campo do politicamente incorreto e adentram fundo no ofensivo. Pra ilustrar essa questão é só relembrar o quanto você (provavelmente) se divertia vendo Os Trapalhões e o quanto hoje os personagens de Mussum e Zacarias parecem estereótipos empobrecidos de minorias. Esse movimento de rever alguns de seus programas / livros / músicas preferidos com um olhar mais crítico é positivo, apesar de um pouco doloroso, e ajuda a exercitar sua dose diária de empatia.

Assegurada a diversidade em novas produções, proporcionada principalmente pelas novas posições de poder de quem faz TV, resta a adequação deste novo modelo a produtos que voltaram graças ao apelo dos fãs e se desenvolveram originalmente em épocas em que a multiplicidade não era pra ser vista no cotidiano. Dentre eles, dá pra destacar os recentes retornos de Gilmore Girls e Fuller House, a sequência com as crianças de Full House agora na vida adulta que já está indo para sua terceira temporada, como dois exemplos de séries que ainda não se habituaram aos novos desafios de um entretenimento plural.

Assegurada a diversidade em novas produções, proporcionada principalmente pelas novas posições de poder de quem faz TV, resta a adequação deste novo modelo a produtos que voltaram graças ao apelo dos fãs e se desenvolveram originalmente em épocas em que a multiplicidade não era pra ser vista no cotidiano

Fuller House representa o que de velho a TV tem a oferecer. Produto de um esquema de sitcom que vai aos poucos morrendo (as velhas câmeras paradas, a claque e problemas que se resolvem com abraços em um único episódio), o esforço dos roteiristas do programa em mostrar uma América mais diversa é sofrível. Do núcleo principal formado somente por atores caucasianos, passando pelos desafios que se colocam à frente deles e chegando aos modelos que retratam a quem assiste.

Nos primeiros episódios, chega a ser feita uma piada por uma personagem de filiação latina sobre quão branco é o núcleo central da série. Morre aí a crítica ao apagamento racial, entretanto. A única negra a aparecer ao longo de mais de VINTE EPISÓDIOS é uma recepcionista sem nenhuma história ou falas. A origem latina de Ramona Gibbler, filha da vizinha Kimmy, serve apenas como alívio cômico e se apresenta por meio de seu pai, um argentino de sotaque carregado e que gosta de dançar tango. A ausência de perfis raciais complexos, que se limitam à reprodução de estereótipos, é tão prejudicial quanto o apagamento completo de personagens que representam um grupo.

Gilmore Girls, em seus idos tempos, sofria com a síndrome de uma TV ligeiramente democrata – portanto pró-LGBT e diversidade racial — mas que era barrada pela aplicação DE FATO de seu discurso liberal. O resultado é que ela possuía UM ÚNICO personagem negro recorrente e dois de sexualidade inexpressiva.

Frequentemente em séries de TV e Livros – abraço, Dumbledore – a sexualidade de um personagem é apresentada como nula. Não lhe eram apresentados interesses amorosos, anseios sexuais ou qualquer outro traço que pudesse confirmar nem negar sua heterossexualidade. No especial encomendado como retorno para o Netflix ocorre uma cena em que se reconhece o apagamento LGBT na série. Um dos personagens assexuais — não por recognição, mas por falta por preguiça dos roteiristas — faz uma piada sobre não ser possível organizar uma parada do orgulho gay em Stars Hollow, por existirem pouquíssimos gays na cidade. Brincar com o fato de produtos mais antigos, especialmente os apresentados na TV aberta, lotarem UMA CIDADE INTEIRA apenas com personagens heterossexuais não é um problema, mas deixar passar a chance de corrigir o erro sim.

Michel posando ao lado de seu marido em Gilmore Girls

Nesses novos episódios, o francês Michel Gerard (Yanic Truesdale) finalmente aparece reconhecido como um homem gay, inclusive casado e em processo de adotar um filho. O marido, entretanto, jamais aparece, nem de longe, nem dando tchau do outro lado da rua; caso clássico do gay ou lésbica que “você já ouviu falar”. Ele/ela rodeia de algum modo sua vida, pode até fazer parte de sua convivência em qualquer nível, mas a apresentação de um casal formado por pessoas do mesmo sexo em demonstrações de carinho ou afeto não faz parte do seu mundo. O que não é, de modo algum, inclusão.

E já que citamos acima, por que não cobrar o muito prometido? Entre os passatempos favoritos da autora JK Rowling estão as longas séries de tweets nos quais fala sobre aspectos do mundo de Harry Potter que não couberam em seus livros. Entre os mais conhecidos, estaria a sexualidade de Dumbledore, que apesar de nunca ter sido claramente apresentado como gay nos livros da saga, ganhou um apêndice de história em perguntas e respostas da britânica. Apesar de não explorados seus interesses amorosos ao longo de SETE livros, JK garantiu que essa faceta seria melhor aprofundada na nova leva de filmes roteirizados por ela. Mas eis que no primeiro deles, Animais Fantásticos e Onde Habitam, a contagem total de personagens claramente LGBTs é zero e a de pessoas negras é um.

Entende-se que falar sobre diversidade é plataforma básica hoje no entretenimento. Advogar contra ela é quase que um tiro no pé em tempos de tantas séries de TV, livros e filmes que abarcam as mais diversas etnias, gêneros e orientações sexuais. Treinar o olho para diferenciar os produtos dentre os disponíveis que realmente promovem conversas sobre o futuro das mídias de massa dos que apenas pegam carona numa questão atual é o básico para não se ver enganado por produções que muito prometem, mas pouco cumprem.