Thundercats e a nostalgia que cega a visão além do alcance

Com o anúncio da nova série animada dos Gatos do Trovão, focada no humor e com um visual fofinho tipo Steven Universe, logo ressurgiram os fãs da série clássica, que não assistem a um episódio há décadas mas obviamente querem reclamar. OUTRA VEZ.

Thundercats Roar. Este é o nome da mais nova série animada inspirada nos clássicos personagens dos anos 80 e que, com estreia prevista pra 2019, pode até ter ação mas claramente vai ser numa pegada muito mais humor/non-sense e com este visual fofinho, que respira um bocado de produções como Steven Universe.

E Thundercats Roar é também o nome do EPICENTRO da mais nova polêmica da semana na cultura pop. Porque, com o anúncio do desenho, das primeiras imagens e a liberação do vídeo abaixo, no qual a produção é brevemente apresentada pelo produtor Victor Courtright, ELES também ressurgiram. E tal qual Mumm-Ra, os antigos espíritos dos “fãs” resolveram transformar suas formas decadentes em seres eternos com respostas absolutas para tudo.

“Eu acho que o mundo que criaram pros Thundercats lá atrás se encaixa muito bem no âmbito da comédia por conta de quão loucas eram as ideias e algumas ambientações”, afirma Courtright. “Mas, ao mesmo tempo, não seria Thundercats se não tivesse aqueles elementos de ação superlegais. (...) Então, não estamos nos afastando disso. A cada passo que damos em direção à comédia, damos dois em direção à cenas de ação, explosões, lasers e efeitos”.

Pois é, conforme nossos amigos Luiza McAllister e Thiago Lehmann, criadores da Plumba, não apenas demonstraram na HQ mas também já explicaram quando passaram pelo ASTERISCO, dá tranquilamente para equilibrar as duas coisas, né. MAS ENFIM.

Aí, vejam vocês, como parte de um exercício prático de estudo de campo, larguei o escudo virtual de lado e passei boa parte do final de semana ENGAJADO em discussões nas redes sociais a respeito do PALPITANTE assunto, de peito aberto e coração cheio de luz (mentira, eu tava até meio puto da vida mesmo). Desta forma, capturei aqueles que foram os comentários mais recorrentes e me dediquei a responder cada um deles aqui. Entra com a gente nesta viagem ao fantástico mundo de uma galera que é fã dedicada de algo que nem sequer consome HÁ DECADAS.

“Eles não tinham direito de fazer isso!”

Então... tinham sim. A série original, apesar de animada no Japão, era uma produção da empresa americana Rankin-Bass Productions — cujos direitos depois foram adquiridos pela Telepictures Corporation e que, em 1986, se juntaria com a Lorimar Productions. Aí, adivinha quem comprou, em janeiro de 1989, a Lorimar-Telepictures? Bingo: a Warner. Que agora é dona dos direitos dos Thundercats. E que também é dona da Turner, subsidiária do grupo Time Warner e da qual faz parte o Cartoon Network. Junte 2 + 2 e perceba que, sim, eles têm total direito de fazer o que bem entenderem com os personagens. ;)

“Ao invés de ir mexer com os Thundercats, eles podiam fazer algo novo, diferente”

O ponto aqui é que eles FAZEM SIM. Falando no caso específico do Cartoon Network, o investimento em séries originais é constante — e a mais nova safra é simplesmente espetacular. Tem Hora de Aventura, Steven Universe, Apenas um Show, Titio Avô, Ursos Sem Curso, OK KO! e até o maravilhoso brasileiro O Irmão do Jorel. Tem pra todos os gostos, em todas as formas e tamanhos. E com doses consideráveis de ousadia e porralouquice — basta assistir à mistura de referências e escolas de animação que é o brilhante O Incrível Mundo de Gumball.

Só que agora eles resolveram fazer algo com os Thundercats. São os criadores, produtores, animadores querendo mexer na caixinha de algo que fez parte da infância deles, que é tão parte da memória afetiva dos caras quanto DA SUA.

“Os caras tão mesmo empenhados em destruir a nossa infância”

Esta talvez seja a frase mais escrota da cultura pop nos últimos anos, SERIÃO. Porque se a sua infância foi tão ruim ao ponto de um novo desenho acabar com todas as boas memórias que a versão original te deixou, talvez o problema não esteja na nova animação e sim... em VOCÊ.

Além disso, tal qual já dissemos, por exemplo, quando fizeram a nova versão dos Caça-Fantasmas, agora com quatro minas: sabia que o original continua lá? Que, quando alguém faz um remake/reboot/nova interpretação, os filmes, séries, desenhos, gibis anteriores continuam existindo? Que basta você ir lá pegar pra curtir de novo aquela versão da qual você gosta tanto? Que uma versão modernizada não significa “vamos queimar todos os DVDs antigos dos Thundercats e tá todo mundo proibido de assistir?”. ENTÃO. Só queria saber se isso tava claro pra todo mundo, sabe?

“Bem que podiam ter feito um desenho novo dos Thundercats, só que mais adulto, né?”

Ah, mas fizeram. Ô se fizeram. E foi o mesmo Cartoon Network, aliás. Só que não foi agora. Foi lá em 2011. Mas durou apenas uma temporada de 26 episódios. O visual era lindo, com um traço japonês e uma animação ágil, moderna, dinâmica. Os episódios tinham uma temática mais sombria, adulta, com heróis e vilões multifacetados e lidando com temas como a morte. Mas sabe o que aconteceu? Teve pouca audiência. Quase nenhuma. Ainda ganhou uma sobrevida no Adult Swim mas, no fim das contas, acabou sendo oficialmente cancelado.

Sabe aí os “fãs” dos Thundercats? Aqueles que há anos não assistem a um episódio sequer da série original e ficam agarrados na lembrança de como era divertido brincar com os bonequinhos do Tygra e do Panthro no chão da sala? Pois é, estes mesmos fãs não viram. Ou melhor, estes mesmos fãs, na época, reclamaram. “Ai, tá muito modernoso, tá muito anime, pipipopo”. Ou seja: talvez os tais “fãs” não queiram, afinal, NENHUM novo projeto com os Thundercats. Mas sim apenas e tão somente aquele desenho antigo. Ou então que alguém faça algo IDÊNTICO ao felinos trovejantes de 1985. Isso meio que não se encaixa na minha definição de “novo”, pelo menos.

Troque “Thundercats” por qualquer grande franquia televisiva, cinematográfica ou, sei lá, pelo nome da sua banda clássica favorita, e você vai ter um bom resumo das caixas de comentários de qualquer grande portal de cultura pop (menos a gente, por motivos de “não temos caixas de comentários, ainda bem”).

“Isso aí vai ficar igual ao Jovens Titãs em Ação”

Olha, talvez a comparação até faça sentido. Mas, vou te contar, isso é uma ótima notícia. Porque, veja só, eis a primeira de muitas grandes revelações que faremos ao longo deste texto: nem tudo na vida é feito PRA VOCÊ, querido homem branco hetero e de meia-idade. O foco deste desenho novo dos Thundercats, assim como os Jovens Titãs em Ação, não é o sujeito que viu os Thundercats quando era moleque ou então lia os Novos Titãs do Marv Wolfman e do George Pérez. O foco aqui são as crianças, é em construir novas gerações de leitores/espectadores/consumidores. A mesma ideia, por sinal, dos filmes da Marvel nos cinemas. Que quer ampliar a base, atrair mais público pros personagens e nunca menos.

Eu teria total direito de cagar uma regra aqui e dizer que, tem uns bons anos já, não apenas o Cartoon Network tá no topo dos canais de TV paga mais assistidos no Brasil como a atração líder de audiência por lá é, que rufem os tambores, Os Jovens Titãs em Ação.

Só que tem mais: Os Jovens Titãs em Ação é muito, mas MUITO melhor do que muito fã de quadrinhos dazantiga por aí arrota contra. É um humor rápido, inteligente e repleto de referências para todos os lados. Referências, aliás, que eu vou explicando pro meu filho conforme a gente assiste junto, sabe? Vilões, coadjuvantes, sagas clássicas. E ele vai se interessando cada vez mais pelos meus gibis, DVDs, o pacotão completo. Dia destes, por exemplo, ele viu um episódio que era todo com o traço do antigo desenho dos Superamigos, me viu morrendo de rir e não entendeu nada. Aí, fomos assistir aos Superamigos clássicos juntinhos. ENTENDEU QUALÉ?

Será que isso, por exemplo, não aconteceria com os Thundercats? Será que a construção deste tipo de nova base de fãs não é justamente o que a Warner quer para revitalizar uma franquia que talvez tenha potencial cinematográfico? Aposto que você já tem a resposta na ponta da língua.

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“Agora só pensam nas crianças, por que não fazem umas coisas pra gente, só pra variar?”

Mas me diz, quem foi que falou que não fazem? Você já viu a quantidade de novas animações/séries de TV incrivelmente do caralho que tão sendo lançadas fora do grande circuito? Eu nem vou entrar no mérito de um Rick & Morty da vida, que já virou mainstream pra caralho. Mas tu tá de olho nos caras que lançam coisas independentes, na raça, nos YouTubes da vida, tipo o Super Science Friends?

Sabe o que isso parece? Aquele leitor de quadrinhos que reclama que a Marvel e a DC fazem sempre as mesmas coisas, que gibi agora é sempre a mesma coisa, mas não se dá ao trabalho de tentar descobrir tudo de muito do caralho que Image e Dark Horse, por exemplo, tão lançando. Isso se a gente não mencionar aqui os independentes de lá e ainda um muito de gente FODA fazendo trabalhos sensacionais por aqui. Ou então aquele ouvinte de rock que só escuta a Kiss FM e reclama que não tem mais nada de novo no cenário roqueiro, que tudo atual é uma bosta, mas que não se dá ao trabalho de sequer escutar as sugestões de novas bandas de um Spotify ou Deezer da vida, já que o que não falta é um bando de caras e minas em garagens do mundo todo abusando de distorções fodas...

“Ah pronto, agora tudo tem que ser com este traço, no meu tempo não era assim”

Se você comparar todos aqueles desenhos que a gente citou acima, falando especificamente das animações do Cartoon Network, duvido que vá encontrar estas tais similaridades todas de traço entre eles. Mas vou me focar em outro ponto, que é “no meu tempo não era assim”. Não mesmo? Assim, sei lá, talvez você se recorde de uma tal Hanna-Barbera, certo?

A gente queria te sugerir um exercício interessante aqui. Coloque Fred Flintstone, George Jetson, o Guarda Belo do Manda-Chuva e o Guarda Florestal Smith/Chico do Zé Colmeia, assim, enfileirados, um do lado do outro. O que te parece? Exatamente, que eles são todos da mesma família. Talvez primos. O que tem em comum entre eles. O TRAÇO. Mas estes, sabe, são parte da sua infância, do seu tempo, então tudo bem, não pode falar mal. SEI.

“Pelo que eu vi, tenho certeza que vai ser uma droga”

Aqui no JUDAO.com.br, a gente se amarra nestes exercícios de futurologia. Porque, claro, dá tranquilamente pra saber, com base em 3 minutos de sneak peek, como vai ser um desenho que estreia só no ano que vem e que nem teve um trailer DE FATO divulgado. Walter Mercado mandou um abraço.

“Isso aí jamais vai se comparar ao original, que era foda demais”

Olha... não queria ser eu a te dar esta notícia mas... tá bom, vamos lá. Quanto tempo faz que você viu um episódio dos Thundercats? Digo assim, pra valer, do início ao fim. Vou te contar que, nos últimos anos, eu fui lá e revi não só os Thundercats, mas também He-Man, a G1 dos Transformers e os Silverhawks que, se pá, eu gostava ainda mais do que os felinos de Thundera. Vi diversos episódios de cada um deles. E sinto informar que TODOS, sem exceção, envelheceram mal PRA CARAMBA.

A abertura dos Thundercats continua linda, maravilhosa, de cair o queixo. Mas o conteúdo dos episódios tá bem longe de entregar o que aquele vídeo inicial promete. Não tô nem falando só em termos de animação, já que a dita cuja deixa bastante a desejar. O resto também é de lascar. As histórias são rasas até dizer chega e com um desenvolvimento de personagem que beira o sonolento. Memória afetiva, gente, é UMA MERDA.

Preferi não fazer o mesmo exercício com Caverna do Dragão, que eu AMAVA. Porque tenho praticamente 99% de certeza que o resultado vai ser o mesmo. Vou guardar estas lembranças junto do meu eu de 10, 12 anos de idade.

“Mas agora eu não tenho mais o direito de reclamar?”

Opa, claro que tem. É isso que você tá fazendo agora, né? Então. Fique à vontade, há quem diga que este é o principal motivo da existência das redes sociais, aliás. Mas o que a gente acha é que reclamar apenas por reclamar, com base nos argumentos que a gente refuta acima, é uma verdadeira perda de tempo, que vem num combo com as portas se mantendo fechadas para algo que pode ser muito legal.

Veja só o caso do próprio Steven Universe, por exemplo, que foi usado até como base de comparação pro visual deste novo Thundercats. É uma série animada focada primordialmente no público infantil, certo? Mas que tem tantas camadas, tantos desdobramentos, uma história maior que vai sendo revelada a cada episódio, que também criou uma imensa base de fãs junto ao público adulto. Imagina só se esta mesma galera de mais de 20 anos de idade olhasse pras Crystal Gems e pensasse “ah, mas isso é coisa de criança, nem vou perder tempo assistindo”. Sabe o que aconteceria? Elas não teriam deixado as portas abertas para um dos desenhos animados mais elogiados dos últimos anos.

Vai que é o caso aqui também, né? Não dá pra saber. Mas, enfim, se você tá querendo perder esta chance reclamando, segue em frente. Mas depois NÃO RECLAMA, hein? <3