The Life of Pablo: um puta disco de um puta babaca

The Life of Pablo: um puta disco de um puta babaca

Thiago Cardim

16 de Fevereiro de 2016

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Não dá pra negar que Kanye West seja um imbecil. Mas também não dá pra negar as muitas qualidades de seu novo álbum de inéditas, The Life of Pablo.


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Na última quinta-feira (11), o marido da Kim Kardashian, Kanye West, fez um puta evento em pleno Madison Square Garden para o lançamento de seu The Life of Pablo, sétimo disco solo de estúdio. Quer dizer... para lançar o disco e também a sua nova coleção de calçados e vestuário, Yeezy Season 3. E, vamos ser francos, a moda deu uma bela eclipsada no lado musical da coisa. Tava mais pra Fashion Week do que pra show de rap.

Na verdade, chega até a ser frustrante ver o espaço que o álbum teve na estratégia de um dos cantores mais midiáticos dos dias de hoje. Foram muitos “falsos lançamentos”, mudanças de títulos, singles disponibilizados para começar a fazer barulho e, na hora do vamos ver, foram os tênis cheios de firula e os agasalhos estilosos que ficaram com a maior parte dos holofotes. Mas, enquanto Kanye fica na sua tempestade de tweets, pedindo esmola para Mark Zuckerberg, a gente foi atrás do que realmente valia a pena: a música.

E sim, ela vale muito, mas MUITO a pena. Aquela legião que simplesmente não suporta Kanye West vai ser obrigada a dormir com este barulho, infelizmente. Este que vos escreve, inclusive. Porque seria muito mais fácil simplesmente dizer que o disco “daquele mala” é uma bosta, né? Mas o pior é que não é. Nem de longe.

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pablo

Pra começar, se o som de Kanye West que você tinha na cabeça era aquele que pôde ser ouvido em Yeezus (2013), é melhor esquecer. Este The Life of Pablo é bem menos experimental. Em termos estruturais, de métrica e melodia, é um disco de hip hop bem mais “tradicional”, menos audacioso e mais “comercial”, com diversas canções com muito mais chances de irem parar nas paradas de sucesso. É mais pop, por assim dizer.

Mas, mesmo em seus momentos mais “tradicionais”, Kanye está longe de ser óbvio. E lá foi ele chamar uma porrada de colegas famosos para participações especiais: Chance the Rapper, Kid Cudi, Rihanna, Chris Brown, Ty Dolla $ign, The Weeknd, André 3000, Frank Ocean, Kendrick Lamar... A lista é uma verdadeira calçada da fama da atual música dos EUA. E gera momentos incríveis – da linda e emocionante pegada gospel de Ultralight Beam, que abre o disco, passando pelo refrão irresistível de 30 Hours, pela piração hipnótica e quase eletrônica de Waves e pelas rimas sufocantes e mal-educadas na batida de inspiração setentista de No More Parties in LA.

The Life of Pablo é hip hop, na essência. Tradicional, sim. Mas é hip hop bastante diverso também.

É possível sentir, em todo o disco, um tema bastante comum: a paternidade. Seja o próprio Kanye tendo que lidar com a fama para cuidar e curtir seus filhos, seja deixando seu passado de DEVASSIDÃO pra trás para ser um exemplo melhor ou ainda exorcizando seus demônios na relação com o pai, Ray West, ex-membro dos Panteras Negras que se tornou um talentoso e pioneiro fotojornalista. “Up in the morning, miss you bad / Sorry I ain’t called you back / The same problem that my father had”, diz ele na autobiográfica e contundente letra de Father Stretch My Hands, dividida em duas partes.

Mas existe um outro tema bastante comum ao longo de toda a obra: a porra da misoginia. Em um disco no qual ele questiona a fama e todo o interesse que os “sanguessugas” da imprensa de celebridades têm sua vida, lá está Kanye querendo cria factóides com os versos “For all my Southside niggas that know me best / I feel like me and Taylor might still have sex / Why? I made that bitch famous” de Famous.

Kanye West e Taylor Swift

Quer criticar a Taylor Swift? Seu direito. Mas faça isso com inteligência — já tirando do caminho essa pretensão de achar que ela é a queridinha da América só porque você acha que Single Ladies é um dos melhores clipes de todos os tempos (TODOS. OS. TEMPOS). Isso você tem de sobra.

Porra, escuta só a letra curtinha e, ainda assim, genial, de I Love Kanye, um verdadeiro ode à todas as críticas que ele escuta a seu respeito. Fantástico. Por que não zoar a Taylor, então, com a mesma classe? Não, precisa usar a porra da referência sexual DE NOVO.

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The Life of Pablo é um puta disco. Mas podia tranquilamente passar não apenas sem esta referência a Taylor, pelo menos do jeito que foi apresentada, mas também sem o trecho “Whip that, bitch out / Tits out, oh shit / My dick out, can she suck it right now?” de Freestyle 4. Ou mesmo a referência a sua própria esposa como “bitch” em Highlights, na qual se compara de maneira infantil ao ex-namorado da moça, Ray J, que teria “comido” ela antes. “Mas acontece que eu sou mais rico”. E estes são apenas ALGUNS dos exemplos.

De novo: Kanye é muito mais inteligente do que isso. E um cara que desafiou as convenções musicais de seu próprio gênero como fez em Yeezus poderia ter culhões o suficiente para fugir DESTA obviedade em particular, não é mesmo? Mas aí ele fica puto com as críticas, diz que tem direito de fazer o que quiser, que é único e inimitável, que espera nada menos do que o Grammy de “melhor álbum do ano” em 2017...

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No final das contas, The Life of Pablo só confirma uma coisa que todo mundo meio que já sabia: Kanye West é um excelente músico, talvez um dos melhores e mais inventivos do hip hop contemporâneo. Mas é um babaca. Um idiota. Alguém que não apenas é um maldito egocêntrico, o que seria natural no caso de um músico, mas que se convenceu de que é um GÊNIO. Para alguns, até que isso faz bem. No caso de Kanye, tá fazendo um mal danado.

Kanye é alguém que não apenas criou um personagem midiático, mas se convenceu de que ele é real e vive interpretando o dito cujo insuportavelmente a cada minuto de sua vida. No começo é engraçado. Mas depois cansa. Ele pode ser a sua própria musa inspiradora e achar que é Deus. Tá beleza. Mas que seja um Deus um pouco menos pentelho, né? Um que não fique, de preferência, querendo dizer que é bom ao dizer que os outros são uns merdas.

Talvez fosse o caso de se focar apenas na música, pra variar um pouco.

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