Um novo mundo pede um novo Kick-Ass | Judão

Ou, no caso, UMA NOVA Kick-Ass: uma menina negra que assume o manto e vira personagem de um título mensal, ao lado de um gibi regular que também marca a volta da Hit-Girl

Depois de três minisséries (e dois filmes, ambos bastante questionáveis), em Janeiro de 2017 Kick-Ass vai enfim ganhar um título mensal. Não com o roteirista Mark Millar e o desenhista John Romita Jr. dando um jeito de trazer Dave Lizewski de volta da aposentadoria, nem com aquele garoto zoado pelos amigos da escola do final de Kick-Ass 3, cujos quadrinhos finais davam a entender que receberia não apenas o uniforme das mãos da Hit-Girl, mas também o treinamento por parte dela.

Teremos um novo protagonista usando o uniforme verde e amarelo de vigilante urbano. Só que este protagonista é uma menina. E negra.

Millar se recusa a dar detalhes sobre a história neste momento e tampouco revela quem é a garota e como a roupa e o legado chegaram até ela, mas deixa claro que tudo vai rolar em uma outra cidade e com um novo elenco de coadjuvantes. “Kick-Ass vai ser tipo James Bond ou Doctor Who, com um novo rosto e uma nova situação a cada período de tempo, que simplesmente tornam tudo muito empolgante”, revela o criador ao THR.

“Acho que a cada quatro volumes [aka encadernados] ou algo assim vou querer uma pessoa nova debaixo da máscara. Algumas vezes pode durar apenas um volume ou, quem sabe, apenas um único número”.

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É claro que você deve ter reparado que a opção de Millar para esta segunda Kick-Ass foi bastante diferente daquela que ele explorou da primeira vez, quando a primeira série saiu, em 2008 – ele mesmo já admitiu que Dave era uma versão autobiográfica e exagerada de si mesmo, numa espécie de “o que aconteceria se Millar e seus amigos nerds leitores de quadrinhos tivessem realmente vestido roupas de super-heróis e saído para bancar os vigilantes depois de se empolgarem lendo O Cavaleiro das Trevas”. Com esta nova Kick-Ass, o autor pretende explorar um mundo fora de sua caixinha.

“Quadrinhos têm uma porrada de homens brancos por volta dos 30 anos. Este perfil demográfico PARECE estar bem representado na nossa cultura pop”, afirma. “Eu não acho que trintões loiros e brancos se sintam pouco representados quando pegam um gibi pra ler ou escolhem um filme para ver nos cinemas. Ser alguém mais velho, mais novo, uma mulher ou um negro me parece mais empolgante, enquanto escritor, porque abre possibilidades narrativas que vêm sendo pouquíssimo exploradas ao longo de 80 anos de ficção com super-heróis. Esta mulher é uma pegada completamente diferente para o Kick-Ass”.

Não é a primeira vez que Millar explora temas mais diversos nestes últimos anos, depois de levar bastante porrada por momentos especialmente sexistas em sua obra. Em Starlight, com ares de Flash Gordon, grande parte da crítica especializada (como a Paste Magazine, por exemplo) concorda que o autor faz um retrato bem menos estereotipado dos negros, por exemplo. E ainda tem Jupiter’s Circle, por exemplo, sobre um super-herói forçado a viver escondido sob duas identidades secretas: a do uniforme e a de sua própria sexualidade.

Millar diz que, depois de passar os últimos anos trabalhando em HQs de ficção científica como Empress, sentiu falta do Kick-Ass. “É um gibi divertido porque é sobre uma pessoa sem poderes, sem traquitanas, que não é muito boa no que faz. Já fazia três anos e Johnny e eu sentimos muita falta do conceito”.

Além de Kick-Ass (com o qual, segundo Millar, o parceiro JRJr está comprometido pelos próximos três anos), janeiro também marca a estreia de outra personagem do Millarverse em uma revista regular e mensal: Hit-Girl. Além de suas aparições, sempre roubando a cena, nas três séries do primeiro Kick-Ass, Mindy McCready ganhou a sua própria mini em 2012, que serviria como uma espécie de prólogo para Kick-Ass 2 (e que, inclusive, teve trechos de sua narrativa utilizados no segundo filme).

O primeiro arco da revista da Hit-Girl será escrito pessoalmente por Millar, que depois passará o bastão para Daniel Way, conhecido por seu trabalho à frente de personagens com altas doses de adrenalina e violência, como Wolverine e Deadpool.

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A arte será de ninguém menos do que Rafael Albuquerque, brasileiro com quem Mark Millar vem trabalhando no título Huck, da Image Comics. “Sim, isso está acontecendo!”, revelou no Facebook um empolgadíssimo Rafael, junto com uma primeira imagem da jovem psicótica no seu traço.

Parece que o Millar optou mesmo por um parceiro de confiança depois que o desenhista original, não revelado, deu pra trás. O autor chegou até a dizer pela imprensa que estava procurando um artista para receber US$ 10.000 por número da Hit-Girl... Será que o Rafael vai aproveitar esta bocada aí? ;)

De qualquer forma, Albuquerque informa que isso não significa a sua saída do novo título da Batgirl, lá na DC, pelo menos até o final do ano.

O anúncio de Kick-Ass e Hit-Girl não especifica sob qual editora os gibis serão lançados. As séries originais saíram pelo selo autoral Icon, da Marvel, mas recentemente o sujeito se tornou parceiro frequente da Image Comics, licenciando por lá os gibis de seu próprio selo Millaworld. No entanto, o Comicsalliance carimba que as duas séries mensais sairão pela própria Millaworld, que aproveitaria o lançamento para tornar-se uma editora independente de fato. Seria o mesmo formato de Reborn, parceria de Millar com Greg Capullo que foi anunciada como sendo “100% financiada e lançada pela Millarworld”.

A pergunta que não quer calar é: será que esta nova Kick-Ass já tem contrato assinado para ganhar sua versão em Hollywood, como tem sido frequente em praticamente tudo que o Mark Millar escreve? A chance é grande. :D