Krypton pode ser o primeiro passo rumo ao Superman que precisamos | JUDAO.com.br

O primeiro episódio da nova série do canal SyFy é interessante principalmente por respeitar e plantar as sementes de um legado que a série da Supergirl também entendeu mas que os filmes recentes ainda patinam pra encontrar

SPOILER! Comparar Krypton, série que estreou esta semana na TV americana e mostra a jornada da Casa de El muitos anos antes de Kal nascer e o planeta explodir, com Gotham, é uma baita sacanagem. Tá bom, a tentação é fácil, eu entendo: vamos falar das respectivas terras natal dos dois super-heróis mais icônicos da história antes de eles existirem. Só que, conceitualmente, são coisas MUITO diferentes.

Porque Gotham é a história de como a cidade se tornou um antro criminoso e foi, direta e indiretamente, responsável por moldar o caráter do jovem Bruce Wayne e ajudar a transformá-lo no Batman. É a história de um garoto antes da máscara. Já Krypton é a história de um MITO, na acepção mais correta da palavra e não com o significado TORPE que andam dando por aí, pra qualquer um que queira usar. O protagonista é Seg-El, o avô de Kal, pai de Jor-El e, por mais que a trama se passe 200 anos antes do nascimento do bebê predestinado a ser o Superman, o Homem de Aço já é, aqui, um personagem da história, ainda que mais como uma espécie de “sombra” que paira sobre tudo que acontece.

E aqui vem a ótima sacada: a presença de Adam Strange. O clássico guerreiro cósmico dos gibis aqui é uma espécie de viajante do tempo que volta para avisar Seg de que o universo corre perigo. Que o conquistador e colecionador de mundos conhecido como Brainiac está a caminho para “apagar” a sua existência. O universo está em risco justamente pela ameaça ao passado de seu maior defensor.

Ou seja: em Krypton, o Superman já existe, de alguma forma. A sua capa é uma espécie de ampulheta, contando o tempo que falta pra dar uma grande merda espacial. E este legado, ainda que de trás pra frente, é o que dá peso à história. Mais do que um mero flashback, esta série pode ser a construção de uma outra linha temporal, de uma outra cronologia, que se encaixa com os filmes, com as séries do CW ou talvez com nenhum deles (o que também seria fantástico), mas na qual a importância do Superman e do símbolo que ele carrega no peito são fundamentais.

A gente já falou aqui muitas vezes do quanto este Superman, a chama de esperança que começou a ser minimamente desenhada só no final do filme da Liga da Justiça, é crucial para a cultura pop. E o legal é que, em Krypton, a gente descobre que aquele S que não significa apenas SUPER é um símbolo proibido. Krypton, o planeta, agora é dominado por uma oligarquia religiosa: uma figura sinistra e misteriosa, batizada apenas de A Voz de Rao (o deus dos kryptonianos), é quem dá as cartas, com o punho de aço do magistrado Daron-Vex, da cidade de Kandor, como a garantia de que todos vão segui-lo.

Quando Val-El, avô de Seg, se posiciona contra este regime ao mesmo tempo religioso e que tenta ao máximo apagar as identidades individuais em favor de um estado totalitário, Daron-Vex o condena à morte, jogando-o na Zona Fantasma, e toda a Casa de El passa a ser tratada como um bando de párias, cujo símbolo é banido.

É o símbolo de uma família considerada traidora, porque Val era um cientista, questionador das tais decisões de Rao e um defensor de que existiam outros planetas na galáxia — ciência versus religião, basicamente.

Se você tem um mínimo de noção do que está acontecendo AGORA no mundo ao seu redor, vai sacar não apenas o quanto o Superman é importante mas também o que significa, DE FATO, o símbolo que ele carrega no peito. É mais do que esperança, é resistência.

Claaaaaaaro, meu cinismo de quem cobre cultura pop há quase duas décadas não me faz acreditar muito que, ao longo de dez episódios, este tom aí vá ser mantido. Por algum motivo, eu fico aqui pensando que o amor proibido entre Seg (que é um personagem por enquanto bastante genérico, um rebelde típico que arruma confusão no bar pra compensar o distanciamento de sua família, uma espécie de Han Solo cientista) e Lyta-Zod, uma cadete bastante relutante e cujo sobrenome você já imagina bem de onde vem, deve ser o foco de boa parte da história, com sua mãe, a líder militar Jayna-Zod, querendo encontrar uma forma de culpar Seg a qualquer custo, o que seria uma pena.

A ideia central é boa, mas a execução não é das melhores. O visual é bonito, até que funciona, mas a maior parte das atuações são um tanto sofríveis e, principalmente, o jeito que a história caminha é bastante previsível. O roteiro falha miseravelmente em conseguir estabelecer o tal grupo terrorista Black Zero — que já teve algumas encarnações diferentes nos gibis, aliás — como uma “ameaça” ao status quo kryptoniano, de fato. É meramente um nome jogado no ar e que te faz pensar HÃ, até o corte pra próxima cena.

E, vamos lá, assim que um C E R T O cristal vai parar nas mãos de Seg, você imediatamente já percebe que ele é a chave para uma tal Fortaleza da Solidão, onde Val devia manter escondidos todos os seus experimentos científicos. Tudo acaba sendo um pouco jogado na sua cara demais, de um jeito irritantemente didático, sem te dar espaço pra imaginar um tantinho que seja. “É o episódio piloto, precisamos colocar logo todas as peças no tabuleiro, pegar o público pelas calcanhares e fazer eles ficarem tão malucos que vão acabar voltando na semana seguinte”, parece gritar a história. Um pouco menos de pressa faria bem.

Ainda assim, este primeiro episódio mostra muito POTENCIAL. O espaço pra se contar uma história essencial sobre a importância de um herói fundamental.

Tomara que os produtores saibam o que fazer com isso a partir de agora.