A nova interpretação do Hulk é algo que você tem que ler | JUDAO.com.br

Uma das HQs mais surpreendentes da Marvel nos últimos anos, obra do roteirista Al Ewing e do brasileiro Joe Bennett é um premiado fenômeno de crítica e público e, finalmente publicada no Brasil, dá pra entender EXATAMENTE o motivo

Quando a gente fala no Hulk, vamos lá, o que vem imediatamente à sua cabeça? A força bruta dos Vingadores, aquele cara que se torna uma gigantesca e descerebrada massa esmeralda de pancadaria quando fica irritado. “Hulk Esmaga” de um lado, “Humano Fracote” do outro, enfim. Uma visão, não apenas fortalecida pelos filmes dos Vingadores, mas também pelas últimas décadas de aparições do personagem nos quadrinhos. E nem estou querendo dizer que esta é uma visão ERRADA. É apenas e tão somente UMA visão.

Quando o personagem surgiu, ainda cinza, lá em 1962, pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby, o foco era diferente. Estamos falando de uma trama numa pegada mais estranha, quase um filme de terror: de dia ele era o brilhante cientista Bruce Banner, à noite se tornava a poderosa e selvagem criatura, quase um lobisomem, inspiração total em O Médico e o Monstro e um tanto em Frankenstein. Caos e ordem, mal e bem, instintivo e racional. Esta dualidade assustadora era o que fazia a diferença nas primeiras histórias da criatura. Era menos sobre socões em combates inesquecíveis e mais sobre o que se esconde do outro lado do espelho. O Hulk como uma criatura que dá medo, de quem a população desconfia como uma força da natureza sem controle.

Foi a partir deste conceito todo que o roteirista Al Ewing aceitou o desafio de trazer de volta o personagem em um novo título solo, levando em consideração que Bruce Banner tinha levado uma flechada mortal bem no meio da fuça graças a um pedido do próprio cientista ao amigo Clint Barton, aka Gavião Arqueiro, na saga Guerra Civil II. Como diabos o Banner voltou? A resposta se tornou bem simples: conforme o título da nova HQ mensal entrega, o cientista é mortal... mas quando o Gigante Esmeralda se manifesta, descobrimos que ele é IMORTAL.

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Com uma narrativa sombria, profunda, questionadora, menos super-herói e mais thriller de horror, numa pitadinha esquisita de simbolismos religiosos e terror cósmico a la Lovecraft, Ewing e seu parceiro, o desenhista brasileiro Joe Bennett, preferiram se enveredar por um caminho muito diferente do que se vinha lendo nas HQs do Hulk em muitos anos. E conseguiram entregar um resultado, com seu O Imortal Hulk, que se destaca totalmente de qualquer coisa que a Marvel venha fazendo recentemente. Sabe com o que dá pra comparar? Com o Visão de Tom King e com o Gavião Arqueiro de Matt Fraction. Dá pra sacar do que tamos falando aqui? Algo que vai MUITO além da obviedade dos gibis de linha, dos grandes eventos, das tiradas de marketing?

O Imortal Hulk foi indicado ao prêmio Eisner, principal premiação do mercado americano de HQs, conquistou a crítica e também o público – superando em alguns meses as vendas não apenas o queridinho Homem-Aranha mas também, no geral, o Batman, que se mantém lá no topo quase sempre apenas e tão somente por ser, você sabe, o Batman.

Agora, a Panini tá finalmente publicando esta fase por aqui, no primeiro volume de um daqueles pequenos encadernados com os cinco primeiros números da série. E se você simplesmente abandonou os gibis Marvel/DC nos últimos anos porque não tinha mais paciência pra ler sempre aquelas mesmas histórias e/ou acompanhar anos e mais anos de cronologia confusa e intrincada, te digo: eis aqui uma grata exceção pra você repensar sua decisão.

Antes mesmo de ter a chance de ler O Imortal Hulk, lembro de ter visto alguém, acho que no Twitter, dizendo que se parecia como se Stephen King estivesse escrevendo o Golias Esmeralda. Quando terminei este volume inicial, tive certeza de que a afirmação fazia um sentido danado. Estamos diante de um gigantesco pesadelo sobrenatural.

Banner ressuscitou graças aos poderes de sua contraparte mas, tal qual acontecia tanto na série de TV dos anos 1970 quanto na fase escrita por Bruce Jones no começo dos anos 2000, ele agora é um fugitivo, indo de cidade em cidade com pouco ou quase nenhum dinheiro, dependendo da bondade alheia pra comer e ter um teto para se abrigar. Não pode recorrer aos colegas dos Vingadores porque eles têm medo dele — e, na real, o próprio sujeito tem medo de si mesmo, de quem ele enxerga no espelho. Um monstro muito diferente daquele que estamos acostumados. Um monstro que parece misturar um pouco das muitas versões que se viu ao longo dos últimos anos, do Professor Hulk ao Sr. Tira Teima.

O caso é que, da mesma forma que rolava na fase Lee/Kirby, o Hulk inevitavelmente aparece durante à noite e não em episódios de fúria. E este Hulk é um monstro mas não pelo tamanho ou pela força descomunal. Na real, ele assusta muito mais pelo olhar do que pela forma física, cortesia do traço preciso de Bennett. Ele não apenas balbucia palavras quase sem sentido — na verdade, ele é inteligente e fala verdades que ninguém quer ouvir. O Hulk é cínico, cruel, de língua afiada, com uma estranha capacidade de sentir o medo e de cheirar a mentira. Ele é tudo que a gente quer evitar. Ele é o mais puro horror vivo, do tipo que tem uma nova e assustadora capacidade: consegue absorver radiação gama de outras criaturas.

O Imortal Hulk é mais até do que um monstro: ele é um demônio. Do tipo que nos assusta (e que é capaz de ser júri, juiz e carrasco, inclusive ENTERRANDO um homem vivo como punição por seus pecados) mas com o qual podemos ousar flertar algumas vezes — com no caso da repórter investigativa que vai juntando os pedaços das aparições do Hulk em diversas pequenas cidades e começa a montar sua história.

Podemos tranquilamente comparar O Imortal Hulk de Al Ewing com o Visão de Tom King e o Gavião Arqueiro de Matt Fraction

Buscando também um quê da fase de Peter David, que abordou mais a fundo a questão do transtorno dissociativo de identidade de Bruce Banner, o roteirista mergulha na verdadeira luta psicológica que é travada dentro da mente do cientista, seus traumas, suas dores, suas angústias, as conversas com a versão monstruosa de si mesmo que o convence de que, de alguma forma bastante distorcida, estaria fazendo “o bem” para quem não tem como se defender.

Ewing sabe brincar com os muitos anos de cronologia da Marvel, conecta o passado de Banner com o Sasquatch da Tropa Alfa, retoma o relacionamento abusivo do cientista com seu pai e ainda encontra espaço para fazer piada com as calças roxas de outrora. Mas, ainda assim, sabe contar sua história sem precisar recorrer a qualquer um destes expedientes como muleta. Dá pra ler isso aqui tranquilamente sem precisar ter lido qualquer gibi do Hulk NA VIDA e também sem precisar acompanhar qualquer uma das revistas atualmente publicadas pela editora.

Este não é um gibi sobre ser grande, sobre ser o mais forte de todos, sobre esmagar o que se vê pela frente. Este não é um gibi sobre a pseudociência dos gibis, Banner usando seu cérebro privilegiado para estudar a radiação gama. Este nem sequer é um gibi de super-heróis salvando o dia. É uma história sobre o bem e o mal, sobre anjos e demônios – mas daquele tipo que existe dentro de cada um de nós.