A Tomorrowland por trás de Tomorrowland | JUDAO.com.br

Tudo começou com uma visão de Walt Disney e um certo parque…

Algumas frases se tornaram clichês nos últimos anos, como chamar um cara do naipe de Steve Jobs de “visionário à frente do seu tempo”. Walt Disney é um desses casos. A oração, originalmente um elogio, foi tão, tão repetida pela mídia que acabou esvaziada de sentido, que acabou perdendo seu sentido original.

Talvez você até se lembre do que Walt fez para merecer a honraria. Por exemplo, desafiou os padrões da época e decidiu fazer um longa inteiro de animação em plena década de 30 (Branca de Neve e os Sete Anões). Ou que ele combinou, com sucesso, a tal animação com atores em carne e osso repetidas vezes (Mary Poppins e Canção do Sul são os exemplares de que mais gosto). Mas Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível, novo filme do estúdio que ele criou, está aí para nos relembrar de outras importantíssimas criações de Walt em vida.

Antes de tudo, vamos deixar algo claro. Tomorrowland não é um parque temático ou mesmo uma atração, como algumas publicações por aí têm afirmado erroneamente nas últimas semanas na pressa de escrever algo próximo à estreia do filme. É uma área presente em diversos parques Disney no mundo: na Califórnia, Flórida, Tóquio, Hong Kong e, futuramente, Xangai. Também chamadas de “terras” e “ilhas”, essas áreas ajudaram a moldar os parques temáticos como os conhecemos hoje. Sim, porque na realidade há uma distinção entre eles e os “parque de diversões” (apesar de quase não ser mais usada atualmente), e ela começou a existir no período da Grande Depressão norte-americana, em meados dos anos 30. Até então, os parques eram um coletivo de atrações e atividades, reunidas em torno de um ponto em comum, sem nenhum conceito, decoração ou diferenciação. Se você já ouviu por aí que Walt Disney inventou os parques de diversão, saiba que ele foi inovador em muitos pontos, mas não aqui. O primeiro parque de que se tem notícia é de 1583, o Dyrehavsbakken na Dinamarca, e que – pasmem! – está em operação até hoje.

Os séculos passaram, estes parques se proliferaram por toda a Europa e chegaram até os Estados Unidos, dando origem ao Coney Island, por exemplo, um conglomerado de parques e resorts, e passeio recomendadíssimo para quem estiver à toa pelo Brooklyn (NY) – lembra aquela filmagem no fim de Cloverfield com o casal indo para um parque? Pois é, é lá. Mas a Depressão e as Grandes Guerras chegaram, e o cenário mudou, levando as famílias para os subúrbios e ao conforto de casas com televisores, sem necessidade de passeios externos aos finais de semana.

Foi nesse período que Walt visitou vários desses locais ao lado de suas filhas, e, numa história já batida, diz-se que teve a ideia de criar um novo conceito de parque enquanto elas brincavam em um carrossel, um lugar em que pais e filhos pudessem se divertir juntos. Sabe-se que a influência das filhas era grande em sua vida, mas é claro que um homem no auge dos negócios teria outras motivações para seu empreendimento. George Lucas e seu Star Wars podem ter tornado o merchandising o combustível da indústria cinematográfica atual, mas foi Walt um dos primeiros a perceber que o público poderia se envolver ainda mais com o universo de seus filmes, além da tela.

Walt agrupou os diferentes conceitos que queria em diferentes espaços em seu novo projeto, intitulado Disneyland. Cada área seria totalmente separada uma das outras, para não se quebrar a ilusão nos visitantes de que estavam realmente num lugar além da realidade. Uma destas seria a Fantasyland, lar de atrações inspiradas pelos já clássicos Dumbo e Peter Pan. A Frontierland homenageava os índios e o universo do velho-oeste que Walt tanto gostava. E depois havia a tal Tomorrowland, onde tecnologia e ciência apontariam o caminho para um futuro brilhante e feliz, recheado de invenções e viagens espaciais.

Tomorrowland

Walt acreditava sinceramente nesse futuro que ele expunha na área, tentando a todo custo manter-se à frente do seu tempo, colocando tecnologias de ponta ao alcance dos visitantes. Em 1959, quatro anos depois da abertura da Disneyland, inaugurou o primeiro Monorail nos Estados Unidos; em outra reformulação da Tomorrowland, de 67, apresentou o PeopleMover, um minisistema de trem elétrico que poderia ser uma solução para o transporte de massa urbano (o original da Califórnia fechou, mas na Flórida ainda é possível andar nele).

O que poderia ser genuinamente um laboratório de modernidades a um preço modesto tornou-se impraticável com as chegadas cada vez mais frequentes de novas tecnologias aos consumidores. Demora-se meses para trazer uma atração, por mais simples que seja, a um parque, e a Disney não pode proporcionar essa constante interrupção para seus visitantes cada vez mais fiéis. E um projeto visualizado por Walt perdeu sua essência hoje, virando um coletivo de atrações bacanas inspiradas por franquias como Toy Story, Star Wars e Monstros S.A., mas sem nada que remeta à tal “Terra do Amanhã” que o título da área sugere.

Tomorrowland, o filme, propõe-se a resgatar essa proposta de Walt; de um futuro imaculado e perfeito. Assim como Piratas do Caribe, inverte o jogo e leva um pedacinho do parque, mesmo que pequeno, para as telas. Para os não-iniciados, trata-se de uma ficção científica futurista estrelada por George Clooney e Brit Robertson. Para os fãs dos parques, é um belo tributo àquilo que, sabemos, Walt tinha em mente quando reservou um espacinho em seu parque para o amanhã. E sorriremos ao ver, num rápido relance, a tal “montanha espacial” fazendo sua participação especial no filme...