American Gods manda Orlando Jones embora e, com ele, se vai o mais importante discurso da série | JUDAO.com.br

A produtora Fremantle se defende, insistindo que isso aconteceu porque este pedaço da trama do livro, que será abordado na série, não teria mesmo a participação do Anansi. Mas… Hmmmmm…

Eu gostei BEM da primeira temporada de American Gods, embora o ritmo seja realmente um tanto lento DEMAIS. Penso que o tom da segunda temporada, mesmo com a permanência turbulenta do showrunner Jesse Alexander, que se manteve no cargo no lugar da dupla Bryan Fuller & Michael Green pelo menos no começo dos trabalhos, foi um tanto melhor. Tudo bem que, quando a guerra foi finalmente declarada entre Novos e Velhos Deuses, se passaram alguns poucos episódios e, poin, toma outra embarrigada. Ah, não.

O visual tava lindo, é preciso admitir, um DESBUNDE, mas acho que só a partir do episódio 6 é que o negócio engrenou MESMO, numa pegada quase de ANTOLOGIA. Histórias de fato conectadas por uma trama maior, mas que funcionariam sozinhas, tipo a do Donar/Thor ou mesmo o flashback de Mad Sweeney. Seria um bom caminho.

Agora, DE VERDADE, o melhor caminho seria ampliar ainda mais os papéis de dois dos personagens que roubaram a cena neste ano 2: Bilquis (Yetide Badaki), a Rainha de Sabá, senhora do amor e reverenciada com o sexo, e Mr. Nancy/Anansi, deus-aranha trapaceiro, exímio contador de histórias, numa performance brilhante de Orlando Jones.

Esta sequência acima, aliás, seria justamente o tipo de modernização que a trama precisaria para engrenar de vez. “Escravidão é um culto”, diz ele, num monólogo magnífico diante de Bilquis e de outro deus de pele negra, Mr.Ibis (Demore Barnes). Se ESTE fosse o real caminho, tudo ali, soco na cara, talvez ESTA série, talvez ESTA temporada, tivesse tido pelo menos um pouco do impacto que Watchmen está tendo neste exato momento. Mas... adivinha só. Não, não vai rolar isso com American Gods. Porque na próxima temporada, não vai ter Anansi. Nem Mr. Nancy. E nem Orlando Jones.

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Neste sábado (14), num tom absolutamente putaço da vida, Jones fez uso de seu Twitter para publicar um vídeo no qual deixa claro que foi demitido da série no dia 10 de setembro de 2019 (ele falou 2018, mas depois se corrigiu aqui). “Não deixe estes desgraçados dizerem que amam o Mr. Nancy: eles não amam”, afirma.

Evitando citar nomes, ele afirma com ironia que o novo showrunner da série é nascido em Connecticut e estudou em Yale, o que significa que ele é muito esperto. “Ele acha que a atitude furiosa ‘chega desta merda’ do Mr. Nancy passa a mensagem errada para os negros da América. Este cara branco se senta em sua cadeira, tomando decisões, e tenho certeza que ele tem muitos melhores amigos negros ao seu lado, servindo de conselheiros, todos deixando claro que se ele não se livrar deste deus furioso, Mr. Nancy vai causar um levante do tipo Denmark Vesey [carpinteiro acusado de fomentar uma revolta entre escravos em Charleston, Carolina do Sul, no ano de 1822] no país”.

Na sequência, ele agradece Neil Gaiman, autor do livro original, por ter escrito a obra, ter permitido que ele interpretasse o personagem e por ter aberto a porta para que Jones se tornasse roteirista/produtor nesta segunda temporada. E também estende seu muito obrigado a Fuller/Green e, obviamente, aos fãs. “Isso sempre foi pra vocês, espero que tenham gostado tanto quanto eu gostei de fazer. Nos vemos em breve”.

Bom, por mais que Orlando Jones não tenha dado nomes aos bois, a gente dá: ele está se referindo a Charles “Chic” Eglee, que assume o cargo de showrunner na terceira temporada, depois de passar pelo papel de produtor executivo em séries como The Walking Dead, Hemlock Grove e Dexter. Fontes ouvidas pelo Deadline dão conta de que o clima entre Eglee e Jones, antes da produção de fato começar, não era dos melhores. O motivo? Justamente a definição de qual seria o papel do ator POR TRÁS das câmeras.

Para a Variety, Jones conta que o próprio Gaiman pediu que ele escrevesse uma “bíblia” para o personagem, uma espécie de guia do que fazer do ponto de vista de roteiro — o que o fez não apenas que ele ganhasse o cargo de “produtor consultor” na temporada 2 como também alguém que cuidava dos diálogos de Nancy e de outros personagens, especialmente os não-brancos, tais quais Bilquis, Salim (Omid Abtahi), Jinn (Mousa Kraish) e Sam Black Crow (Devery Jacobs).

“Quando apareci pra gravar a temporada 2, não tinham escrito nada pro Mr. Nancy ainda. Então, sentei na cadeira de roteirista e escrevi”, conta ele. Portanto, era de esperar que ele voltasse pra temporada 3 e, segundo o ator, tanto a Fremantle quanto a Starz, emissora que exibe a série lá fora, estavam em contato com seu agente para renegociar seu acordo como ator e produtor. “Em agosto do ano passado, eles ficaram em silêncio por três ou quatro semanas. Mas eu estava fazendo trabalhos de divulgação pra American Gods em nome do Starz. Não tinha razão para acreditar que eu não faria o que eles tinham dito que eu faria, que era escrever, produzir e atuar no programa”. Mas no tal dia 10 de setembro, veio a ligação. E detalhe: Orlando estava escalado para dividir um painel com Ricky Whittle (Shadow Moon) naquele mesmo mês em plena Salt Lake City Comic-Con.

Obviamente que a produtora, a Fremantle, não ia deixar a coisa evoluir deste jeito e rapidamente soltou no próprio sábado um comunicado oficial pro Deadline, dizendo que a trama de American Gods mudou e evoluiu de maneira contínua para refletir a mitologia complexa do material original. “Optamos por não manter o Sr.Jones porque Mr. Nancy, da mesma forma que outros personagens, não aparece na parte do livro na qual nos focaremos ao longo da terceira temporada. Mas diversos novos personagens, muitos dos quais já foram até anunciados, serão introduzidos ao mundo de Shadow Moon e vão continuar a contribuir para o legado da série como uma das mais diversas da televisão”.

Quando alguém bate no peito pra dizer que sua série é “uma das mais diversas da televisão”, digamos que coisa boa não vem por aí, né...?

Tudo indica que esta temporada vai se focar na parte do livro referente à Lakeside, a cidade fria na qual Shadow Moon resolve se esconder dos Novos Deuses — mas este pequeno pedaço do Wisconsin também tem lá suas forças místicas rodando pra lá e pra cá e, segundo consta, a contagem de corpos vem crescendo gradativamente. Mas vamos lá: livro é livro, série é série, né? Quantas e quantas vezes já falamos sobre isso aqui mesmo? Pois se eles fizeram uma série de outras alterações para que a narrativa seriada funcionasse melhor, caralhos, qual seria o problema de pegar algo que tava funcionando um BOCADO e trazer praquele lugar?

Jones também questiona esta justificativa. “Eu sei que não estarei em American Gods e vocês tentam fazer como se fosse uma ‘opção’, mas eu fui demitido, eu entendi”, diz ele. “Mas eu também fui tirado das minhas outras funções, que podia continuar desenvolvendo. Se era este o caso, por que não me falaram isso meses atrás? Por que me tiraram todo o trabalho? Por que nunca tiveram uma conversa comigo sobre isso? (...) Não entendo. Não fiz nada. Fiz meu trabalho, nada além disso. E não invadi forçadamente a sala de roteiristas. Me pediram para fazer parte dela”.

Ele reforça que não chegou pra trabalhar na 2a temporada com nada disso em mente. “Não cheguei com a expectativa de que a tarefa de escrever meu próprio personagem ficaria em minhas mãos, nem esperaria que Neil me pedisse isso, nem que alguém fosse ficar bravo com isso”. E completa: “Agora fingir que isso é sobre algum tipo de cenário criativo é realmente um insulto. Minha esperança é que ninguém se encontre nesta situação, de ficar no hiato de 19 meses sem trabalho, e aí ser demitido no último minuto”. Apesar de repetir que gostaria de ter sido tratado com mais respeito, ele sabe que é um privilegiado e que seus filhos não estão em jaulas como as crianças de refugiados nos EUA. “Mas seria bom receber um ‘obrigado’ e seria ótimo ter sido pago. Ninguém precisa passar por isso. Por fazer seu trabalho”.

American Gods

Orlando Jones & Neil Gaiman

Até o momento, se sabe que alguns dos novos rostos que darão as caras na série serão Iwan Rheon (o Ramsay Bolton de Game of Thrones), como um novo leprechaun chamado Liam Doyle; Marilyn Manson (o próprio) como Johan Wengren, um guerreiro nórdico a serviço de Odin; Blythe Danner (Will & Grace) como Deméter, a deusa da agricultura na mitologia grega; Lela Loren (Power) como Marguerite Olsen, vizinha de Shadow Moon; Ashley Reyes (Kid Fitness) como a braço direito tecnológica de Odin, Cordelia; Julia Sweeney (Work in Progress) como a autoproclamada prefeita não oficial de Lakeside, Ann-Marie Hinzelmann; Eric Johnson (Vikings) como o chefe de polícia local; Herizen Guardiola (The Get Down) como a deusa iorubá do amor e da fertilidade Oshun (que a gente por aqui conhece como Oxum); o rapper Wale como o orixá Chango (aka Xangô); e Danny Trejo (o Machete) e Dominique Jackson (Pose) como duas novas faces do Mr.World.

Sobre este último, aliás: não se sabe se Crispin Glover continua no papel e/ou na série, o que o faria ser substituído da mesma forma que rolou com a Media vivida por Gillian Anderson na temporada 1. Este “não saber”, por sinal, foi JUSTAMENTE a coisa que mais incomodou Orlando Jones, que ficou aguardando a informação oficial durante meses. “Eu acreditava que, em algum momento, alguém diria que eu não estaria na temporada 3. E imaginei que alguém me procuraria pra alinhar ou haveria algum tipo de comunicado pra imprensa ou algo assim”.

Quando AQUELE vídeo que a gente colocou ali em cima começou novamente a viralizar nas redes sociais, por conta de novas e contínuas cagadas raciais envolvendo o governante laranja do lado de lá, Jones começou a receber centenas de mensagens em suas redes sociais, de gente dizendo que o ama, que usou aquele trecho em suas aulas na escola. “Para ser honesto, eu chorei. Sentei e chorei porque eu sabia que não estaria lá. Isso é loucura, porque a pessoa que eles odiariam seria eu. Eu não queria estar num cenário em que alguém paga seus suados dólares pela terceira temporada de American Gods e aí descobre que não estou lá. Isso é simplesmente errado”.

O ator disse que sentiu que, em algum momento, teria que dizer algo. E então, repetiu aquilo que lhe foi dito nas negociações. “Tudo que posso dizer é o que me disseram. E o que me disseram é que aquela era a mensagem errada para os negros da América, que o novo showrunner sabe escrever sobre a perspectiva de um homem negro”. Vale repetir, caso não tenha ficado claro: Chic Eglee é branco. “Ele disse isso com todas as palavras, para todo mundo”.

Gabrielle Union

Jones conta ainda que, no sábado mesmo, trocou uma ideia com a atriz Gabrielle Union, que coincidentemente também está enfrentando uma batalha com a Fremantle, que é uma das empresas que produzem o America’s Got Talent — o show de talentos no qual Gabrielle era jurada. Ela levantou acusações de que o ambiente era tóxico e “racialmente insensível”, o que envolveu uma piada racista do convidado especial Jay Leno (que acabou não indo ao ar), um participante que quase teve um black face exibido (e a própria Gabrielle foi lá falar com os produtores sobre como aquilo era errado) e comentários sobre como seus penteados eram “muito negros” para o público do programa. Resultado? A jovem passou a carregar a pecha de “difícil”. Simon Cowell, inclusive, teria dito que se ela tinha algum problema sobre o AGT, deveria procurar a ele diretamente, e não à Fremantle ou à NBC.

“Isso é exatamente o que a Gabrielle está descrevendo”, afirmou Orlando Jones. “Estou literalmente tentando salvar os caras deles mesmos, porque eles têm estes personagens em mãos e não querem fazer nada com eles. Mas aí quer me dizer que se preocupa com a comunidade LGBTQI+, por exemplo... Então me ajude a entender como. Como eu sou seu inimigo? E foi desta forma que ela se sentiu. Ambos dissemos que isso não tinha relação com dinheiro. É sobre as pessoas que virão depois de nós, como elas vão se encontrar na mesma posição”.

A situação envolvendo Orlando Jones é só mais uma numa produção com situações bastante controversas, dadas as múltiplas trocas de showrunners: Fuller & Green saíram, no meio de uma bagunça que, segundo consta, envolveu diferenças criativas com o próprio Gaiman e uma briga por aumento de orçamento com a Fremantle. Quando Jesse Alexander foi escalado, muita gente esperava que o cara fosse colocar ordem na casa, mas sua participação durou pouco e ele foi sendo colocado de lado, sem que ninguém soubesse ao certo muito bem QUEM estava no comando das rédeas. A chegada de Eglee poderia ter trazido a tão sonhada estabilidade... mas tá na cara que não foi o que rolou.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.