Amigão da Vizinhança ganha uma história de vida como a minha e a sua | JUDAO.com.br

A dupla Chip Zdarsky & Mark Bagley resolve uma questão que incomoda parte dos fãs há muitos anos em uma trama simples e emocionante, que pode não ser genial mas entende cirurgicamente o que faz o Homem-Aranha DE VERDADE

Se tem uma coisa que causa discussões HOMÉRICAS nas mesas de boteco entre leitores de quadrinhos de super-heróis é a tal da cronologia. Em alguns casos, o “quando” algo aconteceu se torna ainda mais importante do que o “como” ou o “porquê”. Quem lê o JUDÃO.com.br há algum tempo já tá ligado que, seja em gibis, filmes (ainda mais agora, com os tais “universos compartilhados”) ou séries, tanto faz, a gente tá mesmo é CAGANDO pra este papo de cronologia – porque o que importa mesmo é uma boa história, vai.

Maaaaaaaaaaaaas uma parte das discussões sem fim sobre cronologia é até justa e, bom, bastante sintomática sobre o perfil de quem consome especialmente as HQs mensais da Marvel e da DC. Vamos usar o próprio Homem-Aranha como exemplo.

Ele foi criado em 1962, certo? Pois estamos em 2020, o que significaria que aquele moleque que tinha entre 14 e 15 anos quando foi picado pela aranha radioativa teria agora cerca de 70 anos de idade. Obviamente, não é esta a realidade. Se a gente for ver um dos muitos relançamentos de Amazing Spider-Man a partir do número 1, especificamente aquele de 2014 pós-fase Superior, uma recapitulação da história diz que Peter ganhou os poderes dele meros 13 anos atrás.

Fazendo as contas (a gente te ajuda) isso quer dizer que em 2014 ele tinha 28 aninhos de idade. Nem um trintão o sujeito era. Só isso pra justificar que a Tia May, por exemplo, ainda esteja viva e saudável, né?

Tá bom, OK, a gente sabe que o tempo nos gibis (e demais produtos de cultura pop) não se passa EXATAMENTE na mesma velocidade que o tempo da vida real, que alias esta meio merda com presidentes aspirantes a fascistas e pandemia. Só que, por exemplo, estou claramente na diminuta lista de leitores que não têm mais paciência para o clima infinito de Malhação e querem MUITO ler histórias de um Peter Parker enfim mais velho, enfim adulto, tendo que assumir as tais “responsabilidades” do seu eterno mantra sob camadas diferentes.

(Sabe quem também criticava esta falta de um “ciclo de vida natural” para os super-heróis? Um tal de Alan Moore...)

Sempre quis ver um Homem-Aranha quarentão. Adorei quando arriscaram colocá-lo como professor de ciências na escola em que se formou, por exemplo. Sempre quis ver como seriam meus heróis envelhecendo e não ficar eternamente lendo releituras de suas origens recomeçando do zero sem parar. Quer ler histórias de um Aranha adolescente? O Miles tá aí pra isso, inclusive oferecendo uma NOVA perspectiva também, para um mundo que, AINDA BEM, que tá mudando.

Pois eis que deram, enfim, liberdade suficiente pra um cara como o Chip Zdarsky abordar como seria se o Peter tivesse envelhecido em tempo real, desde 1962. E o resultado, a minissérie História de Vida, é uma delícia de conferir.

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Antes de mais nada, é preciso dizer que História de Vida, lançada aqui no Brasil recentemente em um único encadernado pela Panini, tá longe de ser genial – e vamos ser honestos, chega desta cobrança MERDA para que tudo precise necessariamente ser uma obra-prima, um ponto fora da curva, o grande exemplar da bibliografia de fulano de tal. Não, não é, e tá tudo bem. Porque o que o Zdarsky entrega é apenas uma boa história e eu tô bem contente com isso. Uma jornada bonitinha, que aquece o coração, acompanhando a história de um Peter adolescente até a sua versão idoso, casado, com filhos.

Porque, sem precisar se preocupar com qualquer merda relacionada à cronologia (e a do Aranha, olha só, é um belo exemplar de complicação, perdendo talvez apenas para a dos X-Men), o roteirista manda uma história com começo, meio e fim. Uma trama com coração, com ótimas intenções, e que entende que se trata de uma história de super-herói, então evita lá muuuuuuuitas afetações ou pretensões. Mas entende igualmente que o que faz uma boa história do Homem-Aranha é, antes de qualquer coisa, o Peter Parker. E é neste ponto que História de Vida me ganhou.


Temos aqui todos os principais momentos da história do Cabeça de Teia? Temos sim. Mas reinterpretados. Porque ao mesmo tempo em que Peter passa pelas manifestações contra a Guerra do Vietnã, temos Flash Thompson se alistando e embarcando para o conflito, com direito a um dos diálogos mais interessantes e profundos entre os dois a respeito de sua relação de bullying na escola e também da devoção do ex-valentão pela figura do Teioso. Aí temos o sobrinho do Tio Ben se questionando se deve ou não ir para a guerra e usar seus poderes para defender seus colegas... e o Capitão América embarcando e assumindo um papel absolutamente inesperado – enquanto o Homem de Ferro já está lá, pagando de garoto-propaganda do governo dos EUA. Spoiler? Talvez o Tony seja o vilão mais escroto desta história...

Temos Guerra Civil, temos Guerras Secretas, temos simbiontes, temos clones, temos a Última Caçada de Kraven, temos até a porra do Morlun. Temos dezenas de pequenas e grandes referências, mas aqui apresentadas a favor da história e não como meros acessórios. O que vale MESMO é ver como Peter envelhece, como isso impacta as decisões que ele é obrigado a tomar versus o pacto do” com grandes poderes...” (que ele até parece esquecer em certo momento...). Tanto é que nenhuma cena de ação consegue causar tanta tensão quanto o primeiro encontro entre Peter e Mary Jane, num diálogo que te faz até sentir um bom tanto de raiva do quão CUZÃO o Pete foi naquele momento (ele mesmo percebe isso páginas à frente, todavia).

Tudo com o traço do meu desenhista favorito do Homem-Aranha, Mr. Mark Bagley.

Tá bom, tá bom, sei que vocês, queridos leitores de longa data do Escalador de Paredes, devem estar aí com os nomes do próprio Ditko, do Romita pai ou mesmo do Romita filho na ponta da língua (aposto até num séquito de seguidores de São Ross Andru). Mas nenhum deles supera o Bagley pra mim, ao desenhar um Aranha esguio, entre o atlético e o magrelo, o que o coloca inclusive VISUALMENTE como o sujeitinho simples e comum, ordinário até, diante dos outros heróis que são verdadeiras montanhas olímpicas de músculos.

Além disso, uma coisa que curto MUITO no traço do Bagley, e que aqui funciona como uma luva, são as expressões faciais. Numa história em que o aspecto HUMANO fala mais alto, grita até, as caras e bocas que ele desenha são absolutamente essenciais.

Eu, do alto dos meus quarenta anos de idade, até que demorei para pensar SERIAMENTE em abandonar os gibis mensais. Ando pensando MESMO, inclusive os do Homem-Aranha, que é meu herói favorito e leio sem parar há décadas, gastando o suado dinheirinho nas bancas inclusive nas mais tenebrosas fases de sua existência.

Pois se eu tivesse a chance de ler mais tramas fechadas como esta de História de Vida, sem cronologias intrincadas e “cenas dos próximos capítulos”, olha, provavelmente eu tinha parado até antes.