As séries da Marvel no Disney+ vão se passar dentro do MCU. Mas será que isso é realmente bom? | JUDAO.com.br

O tal do “está tudo conectado” vai mesmo ser levado a sério — só que isso pode ser, criativamente, uma muleta. Ou uma algema.

Quando a gente descobriu que o tal vindouro serviço de streaming do Pluto, que atende pelo criativíssimo nome de Disney+, usaria, além de produções inéditas dentro do mundinho de Star Wars, todas as armas mais poderosas da Marvel que carrega no bolso pra fazer as pessoas pensarem “Netflix quem?”, digamos que MEIO QUE já se imaginava um pouco das notícias que o Kevin Feige ENFIM confirmou essa semana.

Como o poderoso chefão dos Marvel Studios tem total autonomia e responde diretamente ao chairman da Walt Disney Studios, Alan Horn, e não mais ao pitoresco (pra dizer o mínimo) Ike Perlmutter, o manda-chuva da Marvel Entertainment, assim que o Feige começou a falar sobre as tais séries do Disneyflix, já rolou um “eita”. Até o momento, tudo que tinha a ver com séries de TV da Casa das Ideias passava por Jeph Loeb, chefe da Marvel Television, que continua reportando diretamente ao Perlmutter. E, sendo Ike um cara fácil de lidar e, esta nova divisão também criou um abismo maior do que se esperava entre os universos do cinema e da TV, tornando momentos como as aparições de Lady Sif e Nick Fury em Agents of SHIELD ou algo além de menções à Batalha de Nova York nas séries do Netflix algo bem mais distante de se esperar.

O ponto aí é que Agents of SHIELD é produzida pela ABC Studios e pela Marvel Television. O mesmo vale pra Agent Carter, The Runaways, Cloak & Dagger e aquele troço chamado Inhumans. E, por mais que você possa não imaginar, também é o caso da galera do Netflix. A grande diferença é que as três séries até o momento confirmadas para o Disney+ serão produzidas diretamente pelos Marvel Studios. E com supervisão direta de Kevin Feige. O que isso quer dizer? Você já imagina? Além de um orçamento maior, é claro?

It’s All Connected a total e pleno vapor. “Estas serão produções Marvel Studios”, afirmou Feige com todas as letras ao Comicbook.com. “Elas serão totalmente interconectadas com o atual MCU, com o passado do MCU e com o futuro do MCU”.

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Isso significa mais do que apenas pequenas menções divertidas, “o grandão verde”, “o cara do martelo”, “a batalha de Nova York” e afins, mas sim uma integração completa. Num papo mais longo com o /Film, o executivo de boné deu um pouco mais de informações: “em algumas ocasiões, a trama se dará como no caso de Capitã Marvel, antes dos eventos atuais. Em alguns casos, vai ser durante. O que eu posso dizer é que, o que acontecer nas séries, com personagens que estão nos filmes, eles vão passar por transformações que serão refletidas nas próximas aparições deles nos filmes, porque estamos desenvolvendo narrativas longas para o Disney+ ao mesmo tempo em que estamos desenvolvendo o MCU depois de Vingadores: Ultimato. Mas tendo a oportunidade de fazer algo que nunca fizemos antes, que é fazer estas conexões desde o começo”.

E da mesma forma, aliás, que acontece com o MCU nas telonas, Feige promete que eles lidarão com diversos gêneros nas séries. “É empolgante ter mais de 10 anos no MCU e agora ganhar uma nova plataforma para contar histórias com novos e antigos personagens. Você vai nos ouvir falando isso sempre, do jeito que fazemos filmes de ação dos anos 90, thrillers políticos, filmes de assalto, agora temos uma mídia na qual dá pra trabalhar ainda mais com arcos de múltiplos episódios. Estamos empolgados”.

O que a sabemos até o momento? Bom, que Michael Waldron, roteirista e produtor da nova temporada Rick & Morty, não só vai escrever o piloto, mas também sentar na cadeira de produtor executivo da série do Loki — que deve trazer o Tom Hiddleston de volta ao papel do trapaceiro meio-irmão de Thor. “Ah, mas como, depois do que rolou com ele em Guerra Infinita?”, os maníacos da cronologia coesa devem estar se perguntando. Tudo indica, de acordo com o THR, que a ideia da série seria mostrá-lo ao longo de diversos eventos-chave da história, influenciando de alguma forma fatos que tenham acontecido, já que estamos falando de uma entidade que, além de gostar de pregar peças, também tem a habilidade de mudar de forma.

Portanto, espero muito do humor que o personagem carrega tanto nos filmes quanto nas encarnações mais recentes dos gibis.

Já a série do Visão e da Feiticeira Escarlate terá como roteirista e showrunner Jac Schaeffer, que co-escreveu o filme da Capitã Marvel e cuidou de uma versão mais recente da tão aguardada aventura solo da Viúva Negra. Enquanto muito provavelmente devemos ter Paul Bettany e Elizabeth Olsen de volta aos seus papeis nos filmes dos Vingadores, aqui talvez exista espaço para contar histórias que misturam romance e aventura no período pré-Guerra Infinita, quando já se sabe que eles estavam em lados opostos (ela do lado de Steve Rogers, ele apoiando Tony Stark) mas vinham se encontrando secretamente...

Por último, teremos a reunião de Falcão e Soldado Invernal, os dois melhores amigos do Capitão América, no que tem a maior cara daquelas séries de humor e ação com dois policiais parças completamente diferentes entre si tipo Máquina Mortífera ou A Hora do Rush. Tudo leva a crer também que Anthony Mackie e Sebastian Stan retomam os personagens, sob a batuta do roteirista e produtor Malcolm Spellman, que ocupou exatamente os mesmos cargos na série Empire. Aqui, bom, apesar de terem quebrado o pau no segundo filme do Capitão América, eles efetivamente se conheceram e lutaram juntos em Guerra Civil e só voltaram a se encontrar em Guerra Infinita, quando ambos... bom... ah, você me entendeu, aquilo lá do fim do filme. A chance desta parada, em específico, se passar depois de Ultimato é grande.

A não ser, é claro, que alguém tenha encontrado uma saída de contar em vários episódios o que aconteceu quando Falcão encontrou o Soldado Invernal, levando àquela cena pós-créditos do filme do Homem-Formiga.

Mais detalhes que isso, no entanto, a gente ainda não sabe. Porque o arquiteto do universo cinematográfico da Marvel aproveitou pra tirar o cavalinho de todo mundo da chuva. “Como a gente vem fazendo por anos, não vamos anunciar nada que seja pós Vingadores: Ultimato ou Homem-Aranha: Longe de Casa, até depois destes filmes”.

A pergunta que fica, no entanto, é a seguinte: isso é uma boa notícia?

Claro que, muito provavelmente, neste momento você pode estar surtando e gritando com a tela do computador, dizendo coisas como “tá maluco, cara, claro que é uma boa notícia, é uma notícia ótima, a única possível”.

Porém, num mundo hiperconectado como o do MCU, em que tudo teria, em tese, relação com todo o resto, como diabos os acontecimentos da primeira temporada de Jessica Jones, com o Kilgrave apavorando meio mundo, se dariam? Era de se esperar que alguém aparecesse pra ajudá-la a salvar o dia? O mesmo valeria para toda a situação bastante pública envolvendo o julgamento do Justiceiro ou então a situação de um Wilson Fisk manipulando o FBI, respectivamente na 2a e na 3a temporadas do Demolidor. Não aconteceu porque não precisou. AINDA BEM. Porque uma série, no fim, precisa apenas e tão somente de uma BOA HISTÓRIA. Que precisa ter começo, meio e fim. Depender de si mesma.

A regra vale pros filmes? Porra, mas claro que sim. Os filmes dos Guardiões da Galáxia funcionam tão bem porque não sofrem desta brutal dependência do MCU, saca? Uma dependência que fez muito mal pra Agents of SHIELD durante um bom tempo, a coisa de ter que se ajoelhar e conversar, a cada temporada, com o grande evento Marvel dos cinemas da vez... mas quando eles se livraram disso, cara, a série voou sozinha e brilhou demais.

Aqui no JUDAO.com.br, somos defensores das boas histórias sempre. Se a porra da cronologia única tá te prendendo na hora de contar a sua história, dane-se, esquece, finge que não existe, que não aconteceu. Não pode apenas não se tornar muleta narrativa, pra tentar sustentar uma história merda, como não dá pra virar prisão e impedir uma história incrível de acontecer.