Brilho Eterno de uma Cidade de Estrelas | JUDAO.com.br

Todo bom filme tem diversos pontos de vida, e um deles é, por pelo menos aqueles momentos, única e exclusivamente seu

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças estreou num momento da minha vida em que eu estava completamente perdido. Havia terminado o meu maior relacionamento até então alguns meses antes e, errando aqui e ali, eu tentava entender o que fazer depois. Como seguir sabendo que eu não era necessário na vida daquela garota? Ela queria seguir a própria vida, queria fazer o que nunca tinha tido a chance de fazer. E eu, ficava como?

Não lembro exatamente se tava calor, se tava chovendo, se tava nublado no dia em que assisti ao filme, na exibição para a imprensa, numa manhã do início de Março de 2004. Todo aquele frio de Nova York me fazia sentir que estava congelando, mas podia ser o ar condicionado. O que eu lembro, porém, é que eu me senti bem depois de assistir. Me senti leve. Me senti pronto.

São muitos os pontos de vista pra assistir a Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e, como todo bom filme, um deles é pelo menos por aqueles momentos única e exclusivamente seu. Naquele dia, o meu era sobre como muitas vezes a gente se machuca por conta de relacionamentos tentanto encontrar motivações e motivos pra que as coisas tenham acontecido ou não, lutando pra esquecer e esquecer, ao invés de lembrar do que de melhor aconteceu.

A gente fica triste, a gente fica com raiva... Mas caralho, será que tudo o que fez a gente ficar junto pelo tempo que for deve ser destruído só porque a outra pessoa queria algo diferente, ou porque, no fim das contas, surgiram coisas que também fizeram ficar longe?

Eu era o Tom de 500 Dias com Ela. Ela era a Summer. Ela não era uma vadia, uma filhadaputa. Eu é que era imaturo. Ela também era Clementine, eu Joel Barish. Eu me apaixonava por quem me desse atenção... Ela era uma garota vivendo a vida dela. “Too many guys think I’m a concept, or I complete them, or I’m gonna make them alive. But I’m just a fucked-up girl who’s lookin’ for my own peace of mind; don’t assign me yours”. I did.

Foi Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, um filme que tanta gente considera pesado, triste, as vezes até por também sentir vontade de esquecer tudo, que me fez me sentir bem comigo mesmo pela primeira vez em alguns meses. Foi esse filme que levantou minha cabeça, deu um tapa na minha bunda e me mandou seguir em frente. :)

La La Land foi o contrário. Surge num momento da minha vida em que as coisas parecem completamente fora do lugar, estranhas, em que os sonhos começam ficar mais parecidos com a vida real e tanta cor, tanta música e tanta gente dizendo que saía do cinema de coração recheado de amor me fizeram querer assistir ao filme como eu nunca quis assistir a nenhum musical. Parecia o filme perfeito pra me deixar um pouco mais leve, pra me fazer encarar a vida real de uma maneira um pouco mais colorida e leve. “Para os sonhadores que acreditam no amor, para os apaixonados que acreditam em sonhos” diz a tagline do pôster nacional. Por mim, tudo ótimo.

Trata-se de um filme REALMENTE muito bom. Tecnicamente perfeito, uma homenagem ao cinema, até mesmo uma aula de como se fazer tantas coisas e é por isso que ganhou os Globos de Ouro e vai ganhar todos aqueles Oscars. É lindo de ver, uma experiência cinematográfica única. De encher os olhos. Mas só os olhos. O coração esvazia um pouco.

La La Land é um filme sobre sonhos e amor, sim, mas conta uma história sobre o quanto as pessoas se anulam na tentativa de realizar tanto um como o outro; o quanto essas mesmas pessoas machucam quem as cercam, já que é descaralhantemente difícil integrar as duas coisas. O sonho e o amor meio que não se bicam, são parecidos demais pra funcionarem juntos. “Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço”, esse tipo de coisa.

Chaplin nunca precisou falar nada pra dizer tantas coisas

Do ponto de vista e de vida em que eu estou, La La Land RESSOOU com muito mais tristeza pra mim. Tem muito de vida real nele: a busca eterna pela vida leve e colorida enquanto a gente luta, com uma boa dose de violência, contra nós mesmos e acaba sobrando pra quem a gente ama, resultando, muitas vezes, em perdas.

Mostra também, é verdade, que as coisas melhoram, se você segue em frente: a aspirante a atriz vira celebridade em Hollywood e tem uma família feliz, enquanto o músico abre a casa de shows que tanto queria abrir.

Mas a história não é sobre o resultado, é sobre o processo até chegar ali — um processo doloroso pra caralho. E os sonhos dos sonhadores e aquele amor dos apaixonados do pôster? Esses acabaram completamente destruídos pela vida. Acontece. E nem por isso a gente deve deixar de viver.