Crise nas Infinitas Terras: até aqui, um crossover bastante equilibrado | JUDAO.com.br

As participações especiais e referências estão todas lá, deliciosas. Mas em nenhum momento a história rocambolesca do CW perde o seu foco nos protagonistas usuais de suas séries — para o bem e para o mal, né

SPOILER! Mais do que aconteceu em qualquer um dos crossovers anteriores, a versão do Arrowverse para a icônica série Crise nas Infinitas Terras, um clássico dos gibis, ganhou um baita espaço FORA da bolha de espectadores usuais do canal CW. Todos os anúncios (e boatos) envolvendo participações especiais de atores de filmes e séries anteriores inspirados nos personagens DC causaram um alvoroço não apenas na imprensa especializada em cultura pop mas também fora dela — cheguei a ver colegas dizendo, inclusive, que fariam questão de assistir mesmo não acompanhando nenhuma das séries, justamente por se tratar de uma parada histórica, coisa e tal.

Então... depois de assistir aos três primeiros episódios do crossover (que só chega à sua conclusão oficial no dia 14 de janeiro, com uma edição dupla, duas horas de duração), preciso dizer pra vocês que, sim, as referências estão todas lá, são divertidas, algumas inclusive dão um quentinho no coração. Mas em NENHUM momento a Crise nas Infinitas Terras tira o foco da jornada de seus protagonistas. O que isso significa? Que esta AINDA é uma produção do CW. Que este enorme episódio conjunto AINDA tem a narrativa típica dos programas originais do canal e que ele, acima de qualquer coisa, serve como complemento do que vem sendo contado em cada temporada.

Se você é da tropa que ODEIA essas séries, definitivamente não é com este crossover que você vai mudar de opinião, porque qualidades e defeitos estão todinhos ali. Dá pra dizer até que esta é uma verdadeira celebração da construção de universo compartilhado que a emissora fez até agora e, mais do que isso, um momento de plantar as sementes do que vem por aí, já que a série que iniciou tudo, Arrow, chega ao fim no comecinho de 2020.

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

É muito legal ver diversas gerações sendo homenageadas, na real — embora esteja vestindo as cores do Robin, o icônico Burt Ward acaba aparecendo, em teoria, apenas como um senhor de idade bastante feliz levando seu cachorro pra passear, até que percebe o céu ficando vermelho e a onda de antimatéria se espalhando para destruir mais uma Terra do multiverso. O mesmo vale para a aparição de Ashley Scott como a Caçadora, da tenebrosa série Birds of Prey (2002); do Rapina e do segundo Robin, Jason Todd, saídos direto da recente série dos Titãs lá do DC Universe/Netflix; e de Robert Wuhl voltando ao papel de Alexander Knox, o repórter que apareceu no primeiríssimo filme do Batman, do Tim Burton, lá de 1989. Tudo isso com as músicas originais rolando de fundo, os temas de John Williams e Danny Elfman (incluindo aí também a composição dele pro desenho do Morcegão nos anos 1990).

Lindo. Mas tudo isso é BEM breve, de verdade.

Porque, apesar da rocambolesca trama com aquela clássica pseudociência dos gibis sobre uma criatura ancestral que quer destruir as muitas Terras e realidades paralelas do multiverso e substituí-las por algo novo, uma criação vinda do zero, o Flash de Grant Gustin continua sendo o mesmo, discutindo o seu trágico destino anunciado desde a primeiríssima temporada de sua própria série, num tom de absoluto novelão ao lado da amada Iris (vale lembrar, aliás, esta é de longe a mais chata das produções CW atualmente — como diabos conseguiriam esta proeza, meu?). Assim como a relação de Oliver Queen com Mia, a filha vinda do futuro, está lá, como parte de uma construção que vem sendo feita desde o começo da temporada para que ele saia de cena após o series finale e possa entregar o manto de Arqueiro Verde a ela, em sua nova série.

Como costuma ser comum nas séries de super-heróis do CW, aliás, a grande graça desta Crise não são as cenas de ação/pancadaria, superpoderes, efeitos especiais, mas sim o relacionamento entre os personagens. Mais conversa e menos soco.

E aqui, por exemplo, ganha destaque algo que o crossover anterior só começou a pincelar: o aprofundamento da amizade entre a Supergirl e a Batwoman, que acaba de estrear sua própria série (bem boa, aliás, vocês deveriam ver). Esqueça esta merda toda de Batman vs Superman, porque esta Super e esta Bats têm suas desavenças, mas mesmo uma pedra de kryptonita acaba se tornando uma espécie de elo entre as duas, um sinal de um respeito crescente e que, por favor, o CW deveria usar cada vez mais daqui pra frente (reza a lenda de que vai rolar, em algum momento do ano que vem, um encontro apenas entre as duas).

A participação de Kevin Conroy (o dublador clássico do Batman nos desenhos animados) como um Bruce Wayne de corpo debilitado, com um exoesqueleto tipo Reino do Amanhã, está lá principalmente para ajudar na evolução da personagem de Kate Kane, que vive em eterna dúvida e comparação com a trajetória do primo famoso. Ela sai da sequência, no fim, absolutamente fortalecida dentro de todo o contexto do Arrowverse. Tão fortalecida quanto o próprio Raio Negro, que vem de uma temporada própria bastante interessante (ENFIM) e que, jogado no meio desta bagunça toda, se encaixa como uma luva na relação com o Flash — por mais que, até o momento, ele não tivesse sequer chegado perto de qualquer um de seus coleguinhas de emissora. A porta está aberta e o clima do que acontece em Freeland, mais humano e profundo, poderia muito bem contaminar o dramalhão da Central City de Barry Allen, né?

Como complemento a este crossover, aliás, sugiro fortemente ver o bom episódio The Book of Resistance: Chapter Four – Earth Crisis, da série do Raio Negro, uma inesperada conexão da atual temporada do herói com a Crise.

Falamos lá atrás em Reino do Amanhã, aliás, portanto é impossível deixar de mencionar o ótimo destaque pro Brandon Routh. Se ele já vinha brilhando na hilariante Legends of Tomorrow como Ray Palmer, se reinventando totalmente numa pegada humorística, o CW dá ao cara uma chance de fazer a amarração correta para o Homem de Aço que viveu em Superman: O Retorno, lá em 2006. Foda-se, no fim, se você gostou do filme: aqui, em papel duplo, Routh volta a se destacar lindamente. Não só o visual está foda, mas a postura trágica do sujeito chega a surpreender, adicionando uma dose extra de coração à trama toda (repare quando ele explica o motivo do outline do S no seu peito ser preto, e não amarelo, como no caso do símbolo do Superman clássico).

Coração também é a palavra-chave, e fica devidamente aquecido, quando Tom Welling e Erica Durance, respectivamente o Clark Kent e a Lois Lane de Smallville, aparecem e descobrimos que o kryptoniano abriu mão de seus poderes para ser apenas Clark e apenas pai de família, num desdobramento fofo que chega inclusive a dar um outro final pra série (mais adequado, eu até arrisco dizer). E o coração que se enche de amor quando John Wesley Shipp retoma a alcunha de Barry Allen, da série de TV dos anos 1990, e se torna o obrigatório velocista a se sacrificar em plena Crise (porque, afinal, uma Crise da DC nunca é uma Crise de verdade se um Flash não morre). E em seu momento final, vemos uma cena original da antiga série do homem mais rápido do mundo, com Shipp ao lado de Amanda Pays, a cientista Christina McGee, seu grande amor na trama. Chorei.

Outro momento bastante interessante é a sequência em que John Constantine (Matt Ryan) precisa viajar para outra Terra em busca de alguém que possa lhe ajudar a encontrar a alma perdida de Oliver Queen e acaba batendo na porta de um clube em Los Angeles, no qual encontra ninguém menos do que Lucifer (Tom Ellis). É, ele mesmo, da série que o Netflix resgatou da morte e tudo. A interação entre os dois é uma delícia, a química casa perfeitamente e, de verdade, fica aí outra ótima ideia pro futuro.

Por fim, bom, o futuro de Oliver Queen. Um sobre o qual muita gente especulou assim que Stephen Lobo foi anunciado como o policial Jim Corrigan, aka o Espectro. E estavam certos: o Arqueiro Verde vivia dizendo que precisaria se tornar “something else”. E agora ELE é o Espectro. A mudança, certeira, não só ajuda a colocar de fato a série do Arqueiro em sua reta final, dando a Stephen Amell um papel no Arrowverse que pode lhe permitir uma eventual participação especial em qualquer momento da vida daqui pra frente, como também é a melhor homenagem que o Kevin Smith podia receber — porque, apesar de nunca ter conseguido dirigir um episódio da série, o cineasta escreveu uma elogiada fase do Arqueiro Verde nos gibis que fala justamente sobre ressurreição, vida e morte, e o coloca diante do Espectro, na época seu grande amigo Hal Jordan. Só falta agora alguém dar ao amigão John Diggle o tal anel energético mencionado casualmente no último crossover...

Estes três episódios deixam a gente esperando ansiosamente pela resolução da Crise e, mais do que isso, do que vai acontecer a este universo para os próximos anos. Sem precisar de lutas épicas ou qualquer coisa assim. Porque, cá entre nós, a participação de Ryan Choi, um humano comum (que, nos gibis, se torna o segundo Átomo/Eléktron), é a chave para se entender porque o Arrowverse como um todo é tão legal, no fim: porque entende o HUMANO por baixo da máscara e se foca nisso. Menos nos heróis e mais nos conflitos entre gente normal.

Se você gosta desta pegada, a Crise é mesmo um prato cheio pra você. Caso não tenha paciência, talvez fosse o caso de procurar outras séries pra ver, né? ¯\_(ツ)_/¯