Um filme noir e uma trama bem intricada no segundo trabalho de Edward Norton como diretor | JUDAO.com.br

Com um enredo com tantos elementos narrativos de diversos tamanhos e importâncias, a história intrincada está longe de ser sutil quando critica a gentrificação

Filmes do gênero noir tendem a ter tramas incomuns e reconhecidamente complicadas, com narrações em primeira pessoa nas quais o protagonista conta sua história enquanto vaga por uma cidade que é apresentada como um labirinto de ruas escuras, bares perigosos e boates esfumaçadas. Todas essas marcas do gênero estão presentes em Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe, produção que explora cada uma delas sem necessariamente entregar algo inovador, mas que ainda prende nossa atenção ao entregar uma história intrigante.

Em seu segundo trabalho como diretor, Edward Norton escolheu a adaptação cinematográfica do romance homônimo escrito por Jonathan Lethem para estrear também como roteirista. O resultado é um daqueles filmes nos quais caminhos narrativos são muito mais interessantes do que o desfecho da trama em si.

Publicado em 1999, o livro originalmente se passa no Brooklyn e segue a história de Lionel Essrog (vivido no filme pelo próprio diretor/roteirista), um detetive com Síndrome de Tourette que trabalha para Frank Minna (Bruce Willis), proprietário de uma pequena agência de detetives que tirou ele e outros meninos de um orfanato católico e os ensinou o ofício da investigação. Mas quando Minna é baleado por sua própria arma, Lionel e seus parceiros de trabalho – Tony (Bobby Cannavale), Danny (Dallas Roberts) e Gilbert (Ethan Suplee) – entram em uma jornada para resolver o caso, só que acabam descobrindo uma conspiração muito maior.

Enquanto o livro se passa na década de 1980, Norton transpôs a história para 1959 e transformou essa história policial em um noir com elementos muito clássicos: a própria mudança de década é uma clara homenagem ao gênero, estabelecendo a trama no período mais frutífero deste tipo de história nos EUA. Mas um arquétipo noir muito frequente e que não marca presença na história de Norton é justamente a figura da femme fatale, substituída aqui por uma mulher idealista (Gugu Mbatha-Raw) e presa em uma maquinação que não conhece completamente.

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Com um enredo com tantos elementos narrativos de diversos tamanhos e importâncias, a história intrincada está longe de ser sutil ao abordar, de maneira crítica, a chamada gentrificação, a transformação de bairros através da mudança dos grupos sociais, retirando a comunidade de baixa renda e colocando moradores ricos no lugar.

Esse processo acaba colocando os políticos responsáveis pelo planejamento urbano como os verdadeiros vilões de Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe. Obviamente inspirado em Robert Moses, o controverso engenheiro por trás da infraestrutura e obras públicas de Nova York, Moses Randolph (Alec Baldwin) é a imagem do poder sendo usado contra os menos favorecidos, principalmente famílias hispânicas e afro-americanas.

Deliberadamente, o filme leva seu tempo para resolver o mistério por trás da morte de Frank e desvendar toda a trama misteriosa que construiu. De fato, Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe poderia ser menor que seus 144 minutos, mas a trama tem momentos deliciosamente divertidos que ajudam e muito a manter nossa atenção e não sentir que a história não está de fato andando.

Nesse sentido, Norton foi muito inteligente tanto como diretor quanto como ator ao mostrar Lionel reagindo a diferentes estímulos causados pela Síndrome de Tourette e sempre adicionando pequenas mudanças – a cena do jazz no bar é divertidíssima. Em nenhum momento o distúrbio é usado de forma sensacionalista e apenas faz parte da natureza do personagem.

Com uma busca que se torna um quebra-cabeças complicado, Lionel usa seus talentos para encontrar respostas que vão além das perguntas que ele tinha inicialmente. Se você quer se divertir com uma trama intrincada mas não do tipo insondável, Brooklyn – Sem Pai Nem Pai tem tudo para ser um bom programa para você.