Critics Company: ficção científica made in Nigéria | JUDAO.com.br

Jovens estudantes da cidade de Kaduna mostram seu amor pelo cinema gravando curtas feitos em casa, totalmente na raça, graças à tutoriais de efeitos especiais que viram no YouTube

Quando a gente fala em “filmes de ficção científica”, temos que confessar que o que vem à cabeça de imediato são produções com aqueles efeitos especiais de encher os olhos. Mas tamos falando, essencialmente, de cinema, a arte da magia, do sonho, aquela que torna tudo possível sem ser necessariamente com uma fortuna em mãos. E você deve se lembrar da lição que um certo cineasta baiano deixou, aquela de que basta “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” pra fazer o que se quiser.

Pois tem um grupo de estudantes nigerianos que tão seguindo à risca esta frase icônica de Glauber Rocha mas, ao invés de uma câmera, eles usam um celular com uma tela trincada e, pra ajudar a segurar, um pedestal de microfone meio capenga. Só que estes malucos naturais de Kaduna, cidade de 760.000 habitantes no noroeste da Nigéria, não se deixam abater pelas dificuldades e, atendendo pelo pomposo nome de Critics Company, começaram a produzir seus próprios curtas sim, de ficção científica mesmo, e postar estes diversos vídeos experimentais num canal do YouTube que você deveria visitar, tipo, o quanto antes.

Juntando o pouco de grana que cada um tem, eles foram lá e compraram tecidos verdes pra fazer o tal do chroma key — técnica que aprenderam vendo uma porrada de tutoriais no YouTube — e aí baixaram programas gratuitos e de código aberto como o Blender, desenvolvido para modelagem, animação, texturização, composição, renderização e edição de vídeo. A “estrutura” tava completa. Ainda assim, claro, eles sofrem com equipamentos velhos, quedas de energia constantes na região onde moram e uma conexão de internet bem precária.

“O sistema é muito lento. Demora um tempão pra renderizar. Nosso curta de cinco minutos chamado Chase demorou quase dois dias pra renderizar”, explicou Godwin Josiah, 18 anos, um dos integrantes do time que pode chegar até OITO integrantes, em entrevista pra Al Jazeera. Isso faz com que eles não consigam produzir filmes mais longos do que 10 minutos justamente porque demora muito tempo pra fazer o upload.

Claro que as atuações não são das melhores, porque afinal os moleques não são atores profissionais. E nem é a intenção deles, aliás. Eles se dividem, um escreve, outro dirige, tem quem assuma a edição, iluminação, cuide dos figurinos e das locações — sem se preocupar muito com a galera passando no fundo sem entender muita coisa do que tá rolando, né? E beleza. Ainda assim, os efeitos caseiros parecem bem interessantes e, veja, as cenas de luta até que estão bem ensaiadinhas e convincentes, dando a entender que devem fatalmente ter rolado umas trocas acidentais de socos. O voice-over reforçando os diálogos em inglês tem um objetivo maior: colocar tudo no YT serve não só pros amigos verem, mas pro MUNDO assistir.

“Nós começamos a fazer filmes porque nos inspiramos pelos filmes que assistíamos”, explicou Godwin, em entrevista ao Konbini. “Nós víamos a mágica acontecer na tela diante dos nossos olhos e pensamos: e se pudéssemos fazer os nossos próprios bem aqui? Então começamos com uns esquetes de comédia e aí partimos para os curtas”. A intenção de fazer ficção científica é justamente porque é onde “as coisas legais” acontecem, segundo ele. “Podemos explorar várias coisas: alienígenas, naves espaciais, prédios futuristas. É um gênero pouco explorado no nosso cinema, então planejamos mudar isso”.

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O ponto de virada pros garotos foi mesmo Z: The Beginning, curta de 10 minutos que o coletivo levou 7 meses pra filmar e editar. A ideia é contar o primeiro capítulo de uma história pós-apocalítica ambientada numa Nigéria por volta de 2050 — e Z é um programa científico secreto criado por uma companhia chamada The Triangle.

Foi este trabalho que chamou a atenção da também nigeriana Kemi Adetiba, cineasta especializada em clipes musicais que recentemente dirigiu o elogiado thriller político King of Boys. Ela foi marcada num vídeo deles, amou, postou a respeito dos garotos e até fez uma campanha informal de arrecadação de fundos para eles, gerando uma graninha de US$ 6.000 para que eles pudessem investir em novos equipamentos.

Mas a atenção gerada foi além. O vídeo da Al Jazeera e um similar, cortesia da agência de notícias Reuters, se espalhou rapidamente pelo Twitter e foi parar em nomes como Ava DuVernay, Franklin Leonard (que cuida da tradicional Black List) e J.J. Abrams, que afirmou que “mal posso esperar para encontrar estes jovens contadores de histórias extraordinariamente inventivos e inovadores”.

“Não planejamos inicialmente que isso tudo se tornasse viral. Queríamos apenas mostrar que tinha um grupo de moleques em Kaduna fazendo algo diferente. Mas tudo aconteceu repentinamente”, diz Josiah, que foi recebido junto dos amigos até pelo governador de Kaduna, Nasir Ahmad, com toda a pompa e circunstância.

“Apenas a expressão ‘sem palavras’ define como estamos nos sentindo”, disseram eles depois no Twitter, ao ver o naipe das @s hollywoodianas comentando sua história. “Estas são basicamente as pessoas nas quais nos inspiramos”. Mas agora, com um pouco mais de estrutura e, principalmente, contatos na nata de Hollywood, eles não deixam de pensar de maneira mais ambiciosa. “Queremos fazer algo grande, algo maluco, algo que nunca foi feito antes”.

Nollywood

Importante que se diga que estes moleques aparecerem justamente na Nigéria não é por acaso. Claro, o amor pela Sétima Arte não tem fronteiras, aquela coisa toda. Mas o fato é que o país africano abriga uma das maiores e mais tradicionais indústrias cinematográficas do planeta, que produz mais de 2.500 filmes ao ano e só é superada em volume pela Bollywood indiana. A coisa é tão efervescente por lá que tem até seu nome próprio: Nollywood.

Depois de uma era de ouro nos anos 1960 e 1970, pós independência do Reino Unido, o cinema local passaria por um verdadeiro boom por volta de 1990, alavancado pelo mercado de lançamentos direto para vídeo e cujo ponto de partida pode ser considerado Living in Bondage (1992), um thriller em duas partes com direito a culto satânico, ambição, traições e uma dose considerável de mortes. Foi a partir daí, quando o filme que o vendedor de eletrônicos Kenneth Nnebue rodou com um orçamento de US$ 12.000 vendeu mais de 1 milhão de cópias (em grande parte, graças à atuação dos vendedores de rua), que os cinéfilos nigerianos sacaram que poderiam tentar fazer muito com pouco.

Só que, como você bem pode imaginar, num mercado marcado pelos baixos orçamentos e por uma série de produções quase caseiras, a informalidade também chegava aos meios de distribuição. A pirataria comia solta e afastava qualquer vontade que algum investidor com mais grana, fosse nigeriano ou mesmo estrangeiro, tivesse de colocar seus cifrões nesta ou naquela produção. “A verdade é que os principais elementos do mundo do cinema global não fazem a menor ideia do que é Nollywood”, afirmou, em entrevista à Fortune, o produtor nigeriano Kunle Afolayan. “O volume de produções não vai importar até que consigamos conectar a arte com o dinheiro para termos melhores conteúdos e mais lucros”.

Mas sabemos bem que o mercado de lançamentos direto pra vídeo meio que acabou, né? Porque, afinal, este papo de VHS/DVD/Blu-ray já passou tem um bom tempo do seu ápice e vem minguando a cada dia, e não foi diferente na Nigéria. Agora, meio aí na metade dos anos 2000, Nollywood começou a se reestruturar e investir em qualidade e profissionalização, para enfim dar o salto que precisava para FORA da Nigéria (aqui, o suspense sobrenatural The Figurine é considerado o grande ponto de virada, graças ao apoio de empresas e boa recepção no mercado internacional).

The Figurine

Um número do National Bureau of Statistics, de 2005, trazia uma estatística assustadora: em um mercado avaliado em US$ 3 bilhões, apenas 1% deste valor vinha de vendas oficiais de ingressos e direitos autorais. Todo o restante do bolo vinha das cópias piratas ~distribuídas por vendedores não-autorizados ao valor médio de US$ 2. Se produtores e financiadores não enxergam a grana rodando, como diabos eles vão querer fazer mais grana girar?

Um evento realizado na maior cidade do país, Lagos, no começo de Julho, tentou trazer esta resposta, ao reunir potenciais investidores franceses com diretores regionais para tentar estabelecer parcerias. Afinal, as poderosas Canal+ e Canal Olympia, subsidiária da gigante Vivendi, por exemplo, estão loucas pra encontrar o próximo The Wedding Party, comédia romântica da diretora Adetiba sobre a qual falamos lá em cima e que, ao lado da sequência, rendeu bons US$ 2 milhões de bilheteria. Pouco pros padrões hollywoodianos? Sem dúvida. Mas bateu justamente os medalhões americanos pela primeira vez na história do país.

Claro que os nigerianos, que não são bobos nem nada, tão bem interessados no mercado que atende pelo nome de streaming, especialmente aquele que começa com N e termina com Etflix. Tanto é que a empresa de Los Gatos comprou um pacote de produções de Nollywood recentemente e, em Janeiro, estreou número 1 deles, Lionheart, drama familiar dirigido por Genevieve Nnaji — oficialmente, o primeiro original Netflix nigeriano. A porta se abriu oficialmente.

Quem sabe o Sr. Netflix, que gosta de umas modernices, não encontra um padrinho famoso, com grife, um J.J. Abrams da vida mesmo, pra bancar as loucuras dos garotos da Critics Company e então vermos uma pequena, porém honesta, antologia deles no serviço em breve? ;)