GibiCon: quando os quadrinhos e o amor pela nona arte se juntam | JUDAO.com.br

Tudo começou com o San Merg, que definitivamente merece a alcunha de “superfã” no meio dos quadrinhos nacionais, com mais de SETECENTOS projetos apoiados em crowdfunding. Nesse domingo, ele realiza a primeira edição de um dos eventos de cultura pop mais legais desse país. :)

Quem poderia imaginar que, faltando exatamente uma semana da agora gigantesca e megalomaníaca Comic Con de São Paulo, a comunidade brasileira de quadrinistas brasileiros estivesse engajada em levar seus lançamentos não apenas para o cobiçado Artist’s Alley também para um OUTRO Beco dos Artistas, que acontece neste domingo agora, dia 1o de dezembro. Trata-se de uma CON diferente, do tipo que não é COMIC, mas sim GIBICON. O motivo do nome distinto? “Quero fomentar leitores DE GIBI. Brasileiros”, explica Sandro Merg Vaz, conhecido no meio como San Merg, idealizador e organizador da 1a Butantã Gibicon, numa entrevista pro JUDAO.com.br. “Eu fico muito triste das pessoas não saberem quem é Marcelo D’Salete, quem é João Pinheiro, Wagner Willian, Laudo Ferreira, Daniel Esteves”, explica ele. “Entre tantos artistas incríveis dos mais de 250 que vão estar no nosso Beco. Bicho, o quadrinho nacional é bom pra caramba”.

Tá bom, o AA da CCXP terá lá seus mais de 500 nomes. Mas enquanto de um lado a gente tem um megaevento com um zilhão de patrocinadores e ingressos a preços bem salgados, do lado de cá tamos falando de um projeto que vai rolar na Casa de Cultura do Butantã, entrada gratuita e sem cobrança de nenhum valor para as mesas dos artistas. E digamos que a Gibicon ainda vai abrigar alguns bons nomes que, por um motivo ou outro, sem discussão aqui sobre critérios, acabaram ficando de fora da Comic Con.

Mas, de verdade, o Sandro, doravante chamado San mesmo, não tem nenhum receio de que a Comic Con vá de alguma forma atrapalhar a Gibicon. E fala com total modéstia. “Sabe aquele lance que chama comensalismo, que tem umas rêmoras vivendo em torno dos tubarões? Eu sou um peixinho. Eu vou é pegar uma onda na vinda dos artistas pra cá. Ser canibalizado? Seria muita pretensão dizer que eles me atrapalharam e também seria dizer que eu atrapalhei eles. Os ingressos de lá já tavam todos vendidos”. Mesmo assim, ele revela que tem uma porrada de histórias bonitas de artistas que entraram tão de cabeça na ideia dele e que, tendo passagem marcada pra chegar só no dia 3, adiantaram pra chegar no dia 30 e participar da Gibicon. “Acho que vai ser um impulso”.

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Mas quem é o San, afinal? Bom, seu alter-ego empresarial, o Sandro, trabalha com TI, no departamento de tecnologia do mundinho corporativo, há mais de 30 anos. Mas aí que, desde 2013, o cara começou a retomar a paixão pelos quadrinhos, abandonada havia alguns anos. O resultado? Em seis anos ele apoiou mais de 700 projetos de quadrinhos brasileiros no Catarse. A gente faz a matemática por você: em média, são quase 10 projetos apoiados por mês. Não é pouca coisa, meu velho. “Sou um cara muito intenso, muito apaixonado nas coisas que eu curto”. Percebe-se. :)

Tamanha frequência fez seu nome começar a circular entre os quadrinistas. Começou a ir em eventos, ficar amigo dos artistas, a frequentar e fazer churrascos. “Isso se tornou um doce vício. É um prazer estar com esta galera, um conteúdo humano incrível, são pessoas maravilhosas”. Foi da turma do gibi que nasceu a alcunha de San. E foi junto com este pessoal todo que ele começou a gestação desta ideia de fazer evento.

“Foi um processo. Foi no FIQ, em várias CCXPs, o Grafest, eventos maiores, eventos menores...”. Em papos com o veteraníssimo Marcatti (que, por sinal, será o grande homenageado desta edição inaugural do evento), ele se focou num objetivo claro: abrir espaço para fomentar novos leitores de quadrinhos. “Porque normalmente os eventos são feitos pra quem já curte quadrinhos. O Marcatti dizia: Sandro, a gente vende quadrinho pra quadrinista, pra fã, mas a gente não forma novo público. Os quadrinhos são caros, vamos fazer quadrinho barato”.

Vamo, então.

O estalo veio quando o San tava dando um rolê pelo Butantã, conhecendo os arredores do lugar que se tornou sua casa há meros quatro meses. Aí, passando pela Casa de Cultura do bairro, ouviu um baita show de rock, não tinha certeza se era ao vivo ou gravado. “Entrei, tava rolando lá dentro e tinha só cinco pessoas vendo. Pensei ‘putz, este baita somzaço, este espaço, vazio assim, numa sexta, 19h. Que desperdício’. Aí falei com o Danilo Leite [coordenador da CCB]: e aí, vamos fazer um evento de quadrinhos aqui? E ele me disse: escolhe um domingo”.

Por que domingo? Pra testar. Pra ver se funcionava. A seleção da data, pensada para coisa de uns 50 artistas lá dentro, no máximo, foi sim por causa da CCXP. “É justamente porque muitos quadrinistas que vêm de fora começam a chegar — Rapha Pinheiro, Denis Mello, são do Rio, são meus amigos e ficam aqui em casa. Quis aproveitar a onda”.

Mas então ele deixa claro que o evento saiu do controle. “Docemente”, ressalta. “É tipo aqueles filmes em que o vírus cresce e mata todo mundo — mas aqui é o vírus do amor”. Saiu do controle, vamos ser honestos, muito pela figura do próprio San, querido pelos quadrinistas, que se empolgou tanto que acabou botando pilha em todo mundo. Ele não admite, diz que não faz tudo sozinho, reforça que um monte de gente começou a se agregar em torno do projeto. “São tantas as pessoas pra agradecer, inclusive, que eu vou esquecer de uma e vai ficar feio”, diz. Ele lembra, por exemplo, da história dos cartazes comemorativos, que hoje já são 90 diferentes. Exato: noventa artistas resolveram fazer suas versões nos últimos três meses, o que dá um desenho POR DIA. “Começou com o Kiko Garcia, a galera foi se empolgando, daí rolou Marcel Bartholo, e vambora...”. NOVENTA.

Claro que ele tem um monte de nomes pra citar (“Filipe Werner e Guilherme Wank, os pais fundadores do evento, na prática; Will Sideralman, meu braço direito; e aí Rubens Menezes, Regis Coimbra, Cecília Marins, Oskar Dimitry, a Natália Sierpinski; o próprio Marcatti, que imprimiu os cartazes na lendária Multilith [máquina offset] dele”) e o faz com muito carinho. Mas vamos lá: depois que o Marcatão também fez brotarem 5.000 panfletos/filipetas, sabe quem saiu distribuindo por aí? O próprio San. “Distribuí no bairro, no metrô, na lojinha do palmito. Chamando o meu entorno, da Casa de Cultura até o metrô São Paulo – Morumbi. Vai vir de tudo, caixa do Dia, motorista do Uber, eu tenho certeza que vamos trazer gente nova”.

E ele ainda tem a coragem de não aceitar a alcunha de “exército de um homem só”? Mesmo nunca tendo um evento na vida e mesmo assim se metendo em todas as etapas do processo? :P

Um dos 90 pôsteres, feito pela nossa amiga Germana Viana

San diz que, desde o dia inicial, o evento nasceu pra ser grátis pros artistas e pro público. “Apesar da crise que se abateu no Brasil e até atingiu minha área de TI, eu consigo pagar meus boletos. Tenho uma vida confortável. Detesto que me chamem de ‘mecenas dos quadrinhos’, porque não tenho a fortuna dos Médici. Se eu tivesse, aí o evento ia ser no Morumbi ou no Allianz Parque”, diz ele, aos risos. Mas aí confessa: “Eu já investi mais ou menos uns 3.000 reais do meu bolso. Antes do Benfeitoria, inclusive. Depois, com as camisetas, chega em uns 7.000″.

Aí é assim: o ilustrador Pedro Okuyama apresentou o San pra equipe da Prado Eventos, que fez um trabalho com a Perifacon. “E foi amor à primeira vista”. Mas então ficou um combinado: food trucks e bebida ficam com eles, que tão felizes pra caramba, e em troca os caras da empresa levantam a estrutura toda, que agora vai custar de 15 a 20 mil reais, sem que o San precise colocar mais a mão no bolso. “Se der MUITO certo, eles me dão 15% dos lucros deles. E der MUITO errado, eu vou pagar o que falta em suaves prestações”. Aí tu tá pensando: ah, agora é que este cara vai faturar, né? Então... não. “Se der prejuízo, eu vou dizer: ‘meus queridos, fudeu’. Sobrou, sei lá, 100 reais? Não vai dar pra dividir com este povo todo, aí vou doar pra Perifacon. Deu muito certo? Sobrou, sei lá, 10 mil reais? Aí vou colocar numa planilha, descontar o que gastei, e vou pagar o que der pra esta turma”. Entenda aí o Marcatti, o Sideralman, o cara que fez o site... “E sabe quanto sobra na minha conta no final? Zero. Sobra só alegria, emoção e todo o aprendizado”.

A empolgação dele, sério, é absolutamente contagiante. Dá vontade de dar um abraço no cara. “Vai ter cerveja, churros, churrasquinho. Vai ter oficina e palestra que as Minas Nerds organizaram. Porra, ficou nível FIQ, com todo o respeito. E tudo que eu pedi foi: faz um negócio diverso. E rolou. Tem muito mais coisa pra rolar, vou guardar umas surpresinhas”.

O bom humor do San não se dissipa nem quando ele comenta o momento “ah, tem muita mulher nos painéis”. Pois é, aconteceu isso aí. Foi assim: “imagina só uma onda de arte e amor chegando, aquela galera mandando coisa no celular, vamos fazer um negócio do caralho. Um falando ‘vamos ter nosso FIQ em São Paulo’. O outro mandando um ‘é o Woodstock dos quadrinhos’. Aí anunciamos a programação do evento”, explica. E com mesas como “quadrinhos periféricos”, “representatividade negra nas HQs” e “sexualidades e diversidade nos quadrinhos”, amigos e amigas, vocês já imaginam o que aconteceu.

Uma quadrinista marcou o San num post, que dizia que o evento era “doutrinador”, “marxista”, estas paradas. E os comentários... “Nem vou citar o nome destes putos, porque eles vão ser processados. E aí chegou um cara falando que não queria dedos apontados, porque andava com uma vontade muito grande de quebrar metacarpos ‘desta gente’. Meu sangue subiu”, diz. “Fiz uma live na qual tentei até ter bom humor. Fiquei putaço. E falei ‘se tem alguém que aprova esta postura fascista, que peça pra sair’. É falta de caráter, cara”.

Isso, no entanto, acabou sendo só um soluço. Porque ele diz que ainda tem muitas histórias pra contar. Pouquíssimas ruins, uma imensidão delas gratificantes. “Tenho guardadas no celular, emocionantes. Por isso quero escrever, no ano que vem, um livro a respeito”. Ele diz que o processo foi (ou melhor, AINDA ESTÁ SENDO) uma doideira, uma loucura. Mas teve um lado extremamente positivo. “Me ajudou a segurar sozinho várias barras pessoais. Depois da paternidade, foi a experiência mais incrível da minha vida”.

Domingão a gente tá lá pra acompanhar contigo. <3

Butantã Gibicon

Quando: Domingo, 01 de Dezembro
Horário: das 9h às 20h
Onde: Casa de Cultura do Butantã (Av. Junta Mizumoto, 13 – Jardim Peri Peri, São Paulo/SP)