Hey, Marvel: uma postura "apolítica" é absolutamente política | JUDAO.com.br

Art Spiegelman foi convidado para fazer o prefácio de uma compilação de quadrinhos clássicos da Marvel, mas bastou uma sutil referência ao atual presidente dos EUA para exibir um dos lados mais nojentos não só da editora, mas de toda a cultura pop

Era somente um texto — um BAITA texto, é preciso admitir — que tinha originalmente lá suas cerca de 2200 palavras. Um texto que seria somente um prefácio num livro de luxo para um bando de colecionadores endinheirados. Mas quando uma gigante do mundo do entretenimento se incomoda com DUAS palavras dentre estas duas mil, pede pra mudar, o autor não aceita e ainda expõe a situação (e a justificativa) pro mundo todo, rapaz, aí a parada toma uma proporção absurda. Ainda bem, aliás. Porque ajuda a colocar também uns pingos nos Is.

Tudo começou com o encadernado Marvel: The Golden Age 1939–1949, um elegante COMPÊNDIO de quadrinhos clássicos da Casa das Ideias na chamada Era de Ouro e que vem sendo produzido pela conceituada Folio Society, com lançamento previsto pra final de Setembro. A premiada editora londrina se foca em publicações especiais com design requintado, tipografia de luxo, ilustrações exclusivas, tudo isso gerando edições limitadas disputadíssimas por colecionadores. E eis que para escrever o prefácio, o texto introdutório deste livro, eles convidaram ninguém menos do que o lendário Art Spiegelman.

Caso não esteja ligando o nome à pessoa, estamos falando do quadrinista responsável por Maus, um dos gibis mais importantes da história, um conto emocionante sobre a Segunda Guerra Mundial no qual os judeus são retratados como ratos e os nazistas como gatos famintos e cruéis. Confesso que me foge um pouco o motivo do convite: Art é gênio, um estudioso da Nona Arte, mas tá bem longe de ser alguém, como ele mesmo já confessou em outras ocasiões, minimamente interessados na dinâmica dos super-heróis.

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De maneira bastante inteligente, Spiegelman contornou a situação e trouxe o texto pra perto de si mesmo e de sua área de expertise, relacionando toda uma geração de jovens artistas judeus (Jerry Siegel, Joe Shuster, Jack Kirby, Stan Lee, entre muitos outros) de origem humilde e que, nas HQs, encontraram não apenas uma profissão possível mas também um veículo para criar heróis mitológicos que combatiam inimigos muito reais, em plena ascensão do fascismo.

Aliás, eis aí justamente o título do ensaio do quadrinista: Golden age superheroes were shaped by the rise of fascism. Um texto de cunho histórico maravilhoso que agora você pode ler na íntegra, em inglês, no The Guardian e na revista literária Quatro Cinco Um, em português, cortesia do tradutor Érico Assis. Por quê? Bom, porque a Marvel recebeu a parada pra aprovar, encrencou, pediu alteração, mas Spiegelman não se dobrou e disse um sonoro “não”.

Tão sonoro que a gente tá ouvindo até agora. Deve ser porque encontrou um OUTRO não que eles ouviram e reverberou mais.

Qual foi o grande ponto aqui? Spiegelman prepara todo o contexto do que aconteceu no passado para, claro, chegar nos dias de hoje, quando o fascismo volta a dar as caras sem nenhuma vergonha. “Quão rápido nós humanos nos esquecemos das coisas — estudem bem estes gibis da Era de Ouro, meninos e meninas”, diz ele. “O fim dos tempos parece de alguma forma plausível e todos somos transformados em crianças indefesas com medo de forças maiores do que podemos imaginar, buscando por respostas em super-heróis voando pela tela em nossa capela de sonhos”. E aí é que vem o pulo do gato: “Neste mundo muito real dos dias de hoje, o mais nefasto inimigo do Capitão América, o Caveira Vermelha, está vivo nas telonas e um Caveira Laranja assombra a América”.

Não precisa nem dar nomes aos bois para entender que a cor laranja é referência clara ao tom de bronzeamento artificial cagado do atual presidente dos EUA. E digamos que estas duas palavrinhas, Orange Skull, o Caveira Laranja, que o colocam numa posição de tão assustadoramente fascista quanto o tradicional inimigo de Steve Rogers, mexeram com os brios de alguém dentro da Marvel.

Depois de enviar, em Junho, o texto para aprovação, a resposta que veio da Folio é que ele precisaria mudar aquele trecho, especificamente. “A Marvel está querendo permanecer apolítica e não está permitindo que nenhuma de suas publicações siga por este caminho”. Spiegelman, como era de se esperar, não se intimidou. Negou a modificação, chegou inclusive a ser pago pelo trabalho mas acabou cortado integralmente do prefácio — que acabou entregue, vejam vocês, nas mãos de Roy Thomas, ex editor-chefe da Marvel, o homem que substituiu Stan Lee quando o cara foi alçar voos muito maiores fora da redação da empresa.

“Eu não penso em mim mesmo como sendo alguém especialmente político, principalmente se comparado a alguns de meus contemporâneos”, afirma ele, num papo com o próprio Guardian. “Mas quando me pedem para matar uma referência relativamente ANÓDINA a uma Caveira Laranja, percebi que talvez tenha sido irresponsável brincar com a terrível ameaça à nossa existência com a qual convivemos hoje”.

Uma coisa absolutamente BIZARRA é escutar da Marvel, justamente da Marvel, este papo de “apolítica”. Sério. Já falamos uma DEZENA de vezes aqui no JUDAO.com.br sobre como tudo é política, inclusive (e principalmente, eu diria) na cultura pop. Mas isso vindo de uma editora que tinha o Capitão América socando nazistas o tempo todo durante a Segunda Guerra e que gerou uma capa icônica na qual o Bandeiroso senta o braço na fuça do Adolf em pessoa? Nem precisa ir tão longe assim: a mesma Marvel que, em 2017, refletiu PRA CARALHO o mundo real com a saga Império Secreto, invertendo os papéis e criando uma versão fascista do Capitão que, comandando a Hydra, assumiu a Casa Branca e virou os EUA de pernas pro ar.

Se bem que, pra quem realmente tá disposto a prestar atenção nas coisas além dos vigilantes em uniformes coloridos, olha só, esta situação já não é de hoje. No final do ano passado, aliás, depois do cancelamento do gibi do Darth Vader que Chuck Wendig escreveria pra eles, com a justificativa de que seus posicionamentos políticos em redes sociais atraíam muita “negatividade”, escrevemos isso aqui juntando este acontecimento com uma série de outros envolvendo seus artistas. E pra arrematar, relembremos a “diminuição” de personagens-legado como a Thor, o Capitão América negro e afins, decisões tomadas para evitar enfrentamento com o Comic Book Guy padrão, o homem branco hétero conservador.

Quando você sai da sua posição de fanático por gibis, deixa de lado o argumento de “parem de misturar meus gibis com política” e junta todas estas coisas, percebe que o que aconteceu com Spiegelman tá longe de ser um caso isolado. Ainda mais porque o CEO da Marvel Entertainment é quem é — no caso, o milionário Isaac ‘Ike’ Perlmutter. O sujeito é amigo pessoal de Donald Trump, apoiador de sua campanha, seu assessor informal para assuntos relativos aos veteranos de guerra e integrante do exclusivo clube privado de amigos que se reúnem em Mar-a-Lago, seu resort e refúgio íntimo em Palm Beach, na Flórida.

Além disso, Ike e sua esposa recentemente doaram polpudos US$ 360.000, o máximo permitido pela lei americana, para o comitê de Trump que começa a preparar a sua campanha para tentar a reeleição em 2020.

Quem já tinha levantado esta bola também é o ator Armie Hammer. Ao sacar que diversas celebridades estavam anunciando publicamente o seu afastamento das redes gringas de academias SoulCycle e Equinox porque o seu chefão, Stephen Ross, estava ajudando a levantar fundos pra ajudar Trump no ano que vem, ele me saiu com este tweet.

Talvez seja mesmo a hora de lembrar que Ike, executivo das antigas bem low-profile, que não gosta de dar entrevistas ou tirar fotos, é um dos maiores financiadores de Trump, ainda que muita gente dentro da própria Marvel, sem se identificar, queira criar uma barreira aí, deixando claro que esta é uma decisão pessoal dele, não da empresa como um todo. Bom, OK, a gente não sabe, na real, exatamente a EXTENSÃO da influência de Ike no dia-a-dia editorial, mas ele é o CEO, então... Ainda que sua visão enquanto executivo seja mais MACRO, de negócios, e menos de quem encontra quem no grande crossover da vez, impossível não pensar que ele não coloque o dedo aqui ou ali.

Mas importante ressaltar uma coisa: a provocação do Hammer, que obviamente mexe com a galera do cinema, não deixa claro que Kevin Feige, o todo-poderoso da Marvel Studios, a divisão cinematográfica, NÃO RESPONDE mais pro Ike. E isso desde 2015, vamos lá. O Feige, que já vinha numa rixa com Ike, passou a responder DIRETAMENTE pra Walt Disney Studios, no caso pro chairman Alan Horn. Marvel Comics e Marvel Television continuam sob a gestão de Ike... mas este caminhão de dinheiro oriundo das telonas agora tem outro líder direto.

Além da relação direta de Ike com Trump, é preciso considerar um outro ponto: como esquecer do bom e velho capitalismo, né? Porque quando se trata das arraigadas paixões da cultura pop, até parece que as pessoas se esquecem que ele existe e tá por trás de praticamente todas as decisões, para o bem e para o mal. Ou vocês acham que Disney e Sony tão MESMO preocupadas com o Homem-Aranha estar ou não no MCU? A discussão ali é por grana, contratual, percentual meu, percentual seu.

Existem empresas por trás dos personagens. Que querem ganhar dinheiro — no caso, tirar o SEU e o MEU dinheiro. Empresas buscam lucro, não são um bando de beneméritos tentando fazer caridade. Claro que tem gente lá embaixo, no mundinho criativo destas empresas, querendo fazer coisas legais, preocupada com representatividade e diversidade. Mas os engravatados dos escritórios lá em cima, nos últimos andares, deixam isso correr solto porque sabem que faz bem pra imagem da empresa. E isso, vejam só, vende.

Mas se pinta alguma coisa que pode atrapalhar a entrada dos cifrões, aí, meu amigo, a tesoura come solta. Pode significar mandar uma galera embora e cancelar uns títulos pra evitar arrumar confusão com o lixo-humano que compra as revistas da editora há décadas e pode significar evitar arrumar treta com o atual governante e seu eleitorado — por mais que Trump já tenha sido lembrado de maneira pouco elogiosa nos gibis recentes da editora, com uma menção bizarra (e divertida) do cabeçudo vilão M.O.D.O.K. na realidade alternativa da Gwen-Aranha.

Que bom que, pelo menos, o episódio serviu para lembrar Spiegelman de que não dá pra ignorar a política, na vida e nos quadrinhos.