Clássica música tema de X-Men: The Animated Series pode ser plágio | JUDAO.com.br

Aparentemente rolou uma inspiração talvez grande demais na abertura da série Linda, da Hungria…

Goste você ou não dos primeiros filmes dos X-Men, aqueles dirigidos por Bryan Singer, uma coisa é fato: eles levaram aos cinemas não somente os leitores frequentes dos gibis dos mutantes, que seriam por eles mesmos apenas uma minoria barulhenta, mas também quem pegou carinho pelos personagens graças àquele desenho dos anos 1990. Aliás, até hoje conheço gente cuja referência maior aos mutantes, fora dos cinemas, são aqueles 76 episódios, divididos em 5 temporadas — e exibidos com sucesso entre os anos de 1992 e 1997, inclusive no Brasil.

Produzida e distribuída pela mesma Saban Entertainment dos Power Rangers, X-Men: The Animated Series era inspirada, narrativa e visualmente, na bem-sucedida fase escrita por Chris Claremont e com arte de Jim Lee — mas chegou a adaptar outros arcos icônicos da história dos mutantes como A Saga da Fênix Negra (de um jeito, aliás, muito melhor estruturado do que as duas tentativas fracassadas em se levar esta história para as telonas). Aparentemente, porém, não é só nisso que a série se... inspirou, digamos assim.

O processo de plágio é movido por Zoltan Krisko, um sujeito da Flórida que está representando a si mesmo na movimentação jurídica toda. Ele afirma ser o representante legal da obra do lendário compositor húngaro Gyorgy Vukan e também diz, com todas as letras, que os produtores/compositores se inspiraram ATÉ DEMAIS no trabalho de Vukan para a abertura da série cômica/policial húngara Linda, exibida por lá entre 1984 e 1991. “Era um nome enorme na Hungria e toda uma nação podia identificar a série através de sua trilha-sonora icônica”, afirma o documento do processo.

A gente sugere que você, antes de qualquer coisa, escute as duas canções, que vamos posicionar aqui uma na sequência da outra. E depois voltamos a conversar.

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De acordo com Eduardo Lycurgo Leite, autor do livro Plágio e outros estudos em Direitos de Autor, a expressão “plágio” significa “a cópia, dissimulada ou disfarçada, do todo ou de parte da forma pela qual um determinado criador exprimiu as suas ideias, ou seja, da obra alheia, com a finalidade de atribuir-se a autoria da criação intelectual e, a partir daí, usufruir o plagiador das vantagens advindas da autoria de uma obra”. Longo, né? Fique só com a parte da “cópia dissimulada ou disfarçada” que tá tudo bem.

Claro que existe uma diferença clara entre “cópia” e coisas como uma paródia ou mesmo uma homenagem declarada — vivemos hoje no mundo dos samples, trechos musicais inseridos no meio de uma música que eletrônicos e rappers conhecem tão bem. Afinal, o que seria de AmarElo, do Emicida, sem a citação de Sujeito de Sorte, do Belchior? Mas vamos lá: o que Rod Stewart fez com sua Da ya think I’m sexy? não foi um sample nem nada do tipo. Foi apenas e tão somente COPIAR um trecho musical enorme de Taj Mahal. Assim como, vamos lá, fez Vanilla Ice em sua Ice Ice Baby, aquela mesma que traz o riff de Under Pressure, do Queen, numa similaridade sobre a qual o músico insistiu, durante um bom tempo, simplesmente não existir.

Na lei, tanto de lá quanto de cá, não existe EXATAMENTE uma definição quantitativa ou critério mais objetivos do que pode ou não caracterizar plágio: corre por aí, e quem é minimamente interessado no assunto já deve ter ouvido falar sobre, um papo de que uma canção que “copia” até oito compassos de outra não pode ser acusada de plágio. Ainda que algumas decisões possam ter sido tomadas levando isso em consideração (o que pode caracterizar jurisprudência), no geral dá pra dizer que é balela. Aqui no Brasil, por exemplo, a lei que fala sobre propriedade intelectual, a 9610 promulgada em fevereiro de 1998, diz que é permitida “a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de qualquer natureza, ou de obra integral, quando de artes plásticas, sempre que a reprodução em si não seja o objetivo principal da obra nova e que não prejudique a exploração normal da obra reproduzida nem cause um prejuízo injustificado aos legítimos interesses dos autores”.

Musicalmente, as duas músicas de abertura não se parecem, apenas em termos de produção/modo de execução. Porque se você parar pra prestar atenção DE FATO nos compassos e acordes, bingo, tem algo beeeeeeem similar ali. Bem similar a ponto de ser idêntico. O processo movido por Krisko diz que a canção-tema dos X-Men é “substancialmente similar ao tema de Linda. Ela foi resultado de uma cópia não-autorizada do trabalho de Vulkan, com algumas alterações menores. O tema sonoro, o andamento (ritmo), a harmonização e o som (instrumentação) são idênticos”.

O processante acredita que os envolvidos na produção da série animada dos mutantes possam ter tido contato com alguém da cena cinematográfica húngara nos anos 1980 e aí uma coisa levou à outra. Mas ele, em si, nunca tinha ouvido a canção dos X-Men até o ano de 2017 — e foi aí que começou a montar as bases para o processo, movido contra um BOCADO de empresas: Marvel, Warner Chappel Music, The Walt Disney Corporation, Fox Corporation, Buena Vista Television e até Amazon e Apple (empresas que oferecem o desenho num formato on-demand). Além disso, também entraram na roda os produtores originais, Shuki Levy e Haim Saban, mas também o próprio Ronald “Ron” Wasserman, compositor original da faixa.

“A trilha sonora dos X-Men é amplamente lembrada como uma das trilhas mais icônicas de qualquer série de animação nos anos 1990”, afirma o texto jurídico. “A trilha de X-Men contribuiu para uma ampliação substancial do sucesso comercial dos X-Men”. Em outras palavras? Usou? Pois bem, te perdoo se você me pagar uma bela fatia de direitos autorais em grana, bufunfa, cascaio, faz-me-rir.

Vale lembrar, OBVIAMENTE, que não foi à toa que Zoltan Krisko se mexeu na cadeira pra agilizar o processo — justamente porque X-Men: The Animated Series obviamente vai entrar pra programação do Disney+, o Netflix do Pateta. E porque foi justamente ESTE ANO em que criadores como Larry Houston, diretor da maior parte dos episódios da série dos X-Men, se tornaram mais vocais com relação à levar pra Disney uma proposta de continuar os trabalhos desta série numa vindoura sexta temporada. “A única coisa que quero mais do que qualquer outra é retomar de onde paramos”, disse ele, pro THR, deixando no ar que vão conversar ainda com o serviço de streaming para tentar encontrar um caminho.

“Bom, já faz bastante tempo e eu podia estar completamente errado e talvez o tema talvez tenha sido escrito antes”, afirmou o próprio Ron Wasserman, compositor da canção (e de outros temas lendários, como aquele dos Power Rangers) numa entrevista pro site da Marvel que agora está aparentemente fora do ar (mas o SyFy comenta aqui). “Mas o processo foi, eu acho, apenas assistindo aos cortes e criando esse ritmo, para que eu tivesse uma faixa de clipe básica e começasse a escrever o tema a partir daí, que se moveu com os cortes e com a emoção que eu estava vivendo. Parece que isso sempre foi pontuado na imagem. Eu acho que marquei a imagem em oposição ao editor que a editou na música. Não me lembro bem”.

Meio confuso. Será que o Ron pelo menos se lembra de uma série que assistiu lá na Hungria...? ;)