Nós assistimos à Uma Segunda Chance para Amar pra você não precisar fazer isso | JUDAO.com.br

Temáticas sem desenvolvimento apropriado, previsível e sem graça. Acontece…

Então é Natal (“e o que você fez?” veio automaticamente na sua cabeça, desculpa) e os tradicionais filmes edificantes com essa temática começam a POPULAR as telas, como o caso de Uma Segunda Chance para Amar, uma comédia romântica dramática um tanto esquecível que chega aos cinemas brasileiros essa semana.

Co-escrito por Emma Thompson e Bryony Kimmings, a trama segue Kate (Emilia Clarke), uma jovem que percorre Londres em uma rotina deprimente de pular de sofá em sofá em uma série de más decisões pessoais. Com o desejo de seguir uma carreira em teatro musical, ela tem um emprego “normal” em que se veste como elfa e vende decorações e bugigangas em uma loja onde é Natal o ano todo. Sendo uma grande fã de George Michael, Kate acredita que ambos foram incompreendidos e subestimados em seu tempo.

Entre seus problemas está sua mãe croata – personagem que Thompson interpreta com um sotaque incômodo que parece uma piada de mau gosto – constantemente preocupada com a saúde da filha, curada de uma doença há pouco tempo. A óbvia visão negativa de Kate sobre a vida é consequência dessa enfermidade grave e extremamente traumática que ela não quer analisar profundamente.

Um dia, a vida de Kate muda quando surge Tom (Henry Golding), um cara simples que usa sua bicicleta para fazer entregas e vive constantemente em um mundo muito próprio, admirando Londres de cima. À medida que eles se aproximam, ele dá conselhos sobre como ela pode começar a se curar e encontrar sua própria felicidade.

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Dirigido por Paul Feig, Uma Segunda Chance para Amar tem sérios problemas de ritmo que colaboram para você sentir que pegou essa história no andar da carruagem e perdeu alguma coisa importante durante o caminho. É como se você sentasse para ver uma série do meio e tivesse que perguntar para a pessoa ao lado o que aconteceu para a história chegar ali.

Esse problema de ritmo se mantém em todo o filme e gera outros problemas, especialmente na forma rápida como Kate passa pela tradicional mudança presente em filmes de natal quando se transforma de uma pessoa egoísta e despreocupada que menospreza todo mundo para uma jovem cheia de vida que vê na ajuda ao próximo a verdadeira felicidade. Não sei se algo significativo foi perdido na sala de edição ou se o problema está na estrutura do roteiro, mas faltou uma construção mais convincente dessa transformação radical.

Entre altos e baixos – mais baixos que altos -, Uma Segunda Chance para Amar não desenvolve identidade própria e tem um claro desequilíbrio entre comédia e drama. A personagem de Thompson é um exemplo disso ao ter uma história pregressa incompleta sobre uma fuga da antiga Iugoslávia, mas, ao mesmo tempo, ser a tentativa de alívio cômico em diversos momentos esquisitos.

Em tempos de Brexit, a história ainda tenta entregar lampejos de discursos sociais, mas tudo parece oco demais quando o próprio filme insiste em dizer que um personagem com nome alemão ama chucrute e é chamado de “Boy” porque a personagem chinesa simplesmente não consegue dizer seu nome. Tentando abraçar uma história mágica sobre o poder das segundas chances, da ajuda ao próximo e um discurso social fora do tom, o filme parece uma mistura de temáticas que nunca realmente se conectam como deveriam em uma clara falta de inteligência emocional. Os temas estão ali, mas parecem jogados de qualquer jeito.

Com as músicas de George Michael praticamente desenhando a história de Kate, há pouco espaço para o espectador absorver a história sozinho – tocar Move On no momento que Kate contempla tristemente suas escolhas de vida não é exatamente uma escolha brilhante. Entre todos esses problemas, Emilia Clarke faz o que pode com uma protagonista que anda por Londres com os cabelos molhados e o rosto manchado de rímel, sendo a imagem óbvia do descontrole.

Além de uma chuva de temáticas sem desenvolvimento apropriado, Uma Segunda Chance para Amar peca com uma desconcertante previsibilidade que tira a graça do que poderia ser um filme divertido, charmoso e espirituoso de Natal. Esse filme não merece uma segunda chance.