O início do fim do conteúdo infantil no YouTube? | JUDAO.com.br

Processo milionário dos EUA força plataforma de vídeos a rever sua relação com a molecadinha, estabelecendo uma série de novas medidas que, quando estiverem funcionando pra valer, podem mudar muita coisa… mas talvez nem seja o bastante.

Há cinco anos, eu escrevi uma reportagem aqui pro JUDAO.com.br a respeito da tal Resolução 163, ato administrativo normativo que pretendia cravar os elementos que caracterizavam o que é uma propaganda abusiva focada em crianças — mas, neste caso, usando uma série de termos genéricos que claramente poderia gerar interpretação dúbia. De qualquer maneira, a discussão ali girava em torno do impacto que isso teria na TV, nas revistas em quadrinhos, aquela coisa.

Cortamos então para o ano de 2019 e cá estamos nós discutindo publicidade infantil mais uma vez, só que agora sob o viés da plataforma de consumo de conteúdo que se tornou a favorita da criançada, mais do que qualquer TV Globinho ou mesmo Cartoon Network: o YouTube. Aquele mesmo que, esta semana, foi anunciado como o protagonista de um processo no valor de US$ 170 milhões movido pela FTC (Federal Trade Commission, agência independente do governo americano dedicada à defesa do consumidor) e pela advocacia geral de Nova York por violações contra a lei de privacidade infantil. Como perdedor, no caso.

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É assim: você sabe o que são os algoritmos, não? Aqueles robôs que estão espalhados pela internet e que, além de aprenderem com os seus hábitos de navegação a respeito dos seus gostos para te entregar o conteúdo mais adequado, também selecionam as propagandas certas com o seu perfil, a tal da publicidade segmentada. Aos quatro cantos, o YouTube dizia por aí que sua plataforma só permite a criação de contas por pessoas com mais de 13 anos, que conteúdo infantil deveria ser apenas aquele consumido sob a curadoria do seu aplicativo para crianças, o YouTube Kids. Mas qualquer um que dê uma busca simples por lá vai encontrar milhares, milhões até, de canais totalmente dedicados à meninada.

O resultado? Pouco importa se os mais novos estavam navegando por ali com as contas logadas dos seus pais, por exemplo. Os algoritmos entendiam o que eles estavam assistindo e passavam a entregar propaganda, vejam só, com foco em crianças. E esta propaganda só estava sendo entregue porque, lá no departamento comercial do Google ou então no seu gerenciador automatizado de anúncios, tinha muita gente sabendo deste potencial, de todos estes canais, e usando estes dados para vender este espaço de publicidade para lojas e fabricantes de brinquedos, canais infantis e QUETAIS. Ou seja, violação clara e absoluta da chamada Children’s Online Privacy Protection Act, DORAVANTE denominada por aqui como COPPA, uma lei do começo dos anos 2000 que proíbe a utilização dos dados de crianças abaixo dos 13 anos sem a autorização dos seus pais.

“O YouTube fez uso de sua popularidade com crianças para prospectar clientes corporativos”, afirmou, em entrevista ao Verge, Joe Simons, chairman da FTC. “No entanto, quando se tratava de cumprir a COPPA, a empresa se recusava a reconhecer que partes de sua plataforma eram claramente direcionadas às crianças. Não há desculpa para estas violações da lei”.

Vídeos do Luccas Neto não serão mais monetizados pelo YouTube

Além do acordo pra pagamento da quantia (que, originalmente, devia ser provavelmente BEM maior, ainda que este seja o mais polpudo valor envolvendo o COPPA na história), o YouTube também anunciou uma série de mudanças que mexeram com os brios dos criadores de conteúdo da plataforma. “A prioridade número 1 do YouTube é agir com responsabilidade. Nesse sentido, nada é mais importante do que proteger as crianças e sua privacidade”, afirmou a plataforma, em seu blog oficial. “Diante do crescimento acentuado no conteúdo dirigido a famílias e nos aparelhos compartilhados por pais e filhos, sabemos que a probabilidade de crianças assistirem a vídeos sem supervisão aumentou”.

Basicamente, as mudanças que terão quatro meses para serem efetivamente implementadas começam pela compreensão de que os dados de qualquer pessoa que assista a conteúdo infantil no YouTube serão tratados como se fossem dados produzidos por uma criança – não importando a idade do espectador. “Isso significa que, em vídeos feitos para crianças, vamos restringir a coleta e o uso de dados apenas ao necessário para apoiar a operação do serviço”, explicam eles. “Além disso, não vamos mais exibir nenhuma propaganda personalizada nesse tipo de conteúdo, e alguns recursos se tornarão indisponíveis, como comentários e notificações”, complementam, deixando claro que o AdSense para esta galera simplesmente SUMIU. Ou seja, nada mais de monetização pra quem faz vídeos infantis.

Mas... como diabos identificar quando um conteúdo é infantil ou não? Bom, a ideia é que os criadores informem ao YouTube quando seu conteúdo se encaixar na categoria infantil. Isso, claro, é algo que tem imensas chances de ser driblado. Só que aí... “Também vamos usar aprendizado de máquina para encontrar conteúdo evidentemente voltado para crianças – como vídeos que enfatizam personagens, temas, brinquedos ou games infantis”.

PRONTO. Aí é que a porca DE FATO torceu o rabo. Porque é aí, muito mais do que na exibição de banners e afins, que a coisa complica. Um banner de publicidade, de uma forma ou de outra, é facilmente identificável como PROPAGANDA. É uma intervenção, um corpo estranho, mas que tem um botão X para ser devidamente fechado. Só que esta tá longe de ser a única forma de um canal do YouTube, infantil ou não, ganhar dinheiro. Pois e quando a propaganda não necessariamente é ENXERGADA como propaganda?

Vamos brincar de fazer unboxing?

Vou dar um exemplo aqui: Ryan ToysReview. Nunca ouviu falar? Bom, trata-se de um dos maiores e mais rentáveis canais do YouTube, apresentado por um menino de 7 anos chamado Ryan Kaji. Com seus vultosos 21 milhões de inscritos e um número de visualizações que hoje já ultrapassa a casa dos 25 BILHÕES no todo, ele e seus pais — que administram o canal — embolsaram US$ 22 milhões ao longo de 2018. Qual é a principal reclamação de organizações como a ONG Truth in Advertising, que inclusive entrou com um recurso CONTRA o canal junto à FTC? Não fica claro em lugar nenhum quando estamos falando de vídeos patrocinados num caso como este.

Considere que a ideia principal dos vídeos é o pequeno Ryan fazendo UNBOXING de brinquedos novos que recebe e, bom, rolando pra lá e pra cá com cada uma das novidades? Definitivamente, é algo BEM menos perceptível aqui. “Um adulto talvez seja capaz de perceber quando um influenciador-mirim, como Ryan, está brincando com alguns produtos”, afirma Bonnie Patten, diretor executiva da Truth in Advertising, em outra conversa com o Verge. “Mas o público-alvo, que são crianças de idade pré-escolar, não têm a menor ideia de que estão vendo um comercial. O objetivo é que eles digam: mãe, quero aquilo que o Ryan tem”.

Se para muito adulto já é difícil diferenciar PROPAGANDA de conteúdo orgânico feito por influenciadores, tipo as clássicas “blogueirinhas” do Instagram, o que dirá então de uma criança?

Aqui no Brasil, além dos julgamentos do CONAR (Conselho Nacional de Aurorregulamentação Publicitária), o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor reprime abusos cometidos contra crianças ao proibir a publicidade enganosa e abusiva que se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança. Usando isso como argumento, e focando justamente em youtubers como o pequeno Ryan, que o Ministério Público do Estado de São Paulo entrou com uma ação civil pública e pediu ao Google, no começo deste ano, que retirasse do ar vídeos com protagonistas mirins que fizessem ações veladas de publicidade infantil orientadas ao público infantil.

A ação, que começou graças a uma garota que, em seu canal, premiava seguidores com bonecas e sorteava encontros com a própria youtuber, acabou englobando outros seis espaços de vídeos infantis no YouTube nos quais se via muito desta coisa de brinquedos sendo tirados das caixas e afins. “Diversas empresas, aproveitando-se da hipervulnerabilidade da criança youtuber e da criança espectadora, passaram a enviar seus produtos a esses influenciadores digitais para que eles os desembrulhassem e os apresentassem, como verdadeiros promotores de vendas”, disse assessoria psicossocial do Ministério Público ao jornal Folha de S. Paulo.

Justíssimo, é bom que se diga. Só que este papo todo tem um porém.

O que é infantil mesmo?

A pergunta faz sentido, até. Porque quando o YouTube diz que seus algoritmos vão passar a entender vídeos que enfatizam personagens, temas, brinquedos ou games infantis como sendo “conteúdo evidentemente voltado para crianças”, fica aí de fato uma zona meio nebulosa. Num OUTRO documento destinado a esclarecer ainda mais a situação, eles ainda tentam dar mais detalhes aqui, deixando claro que parte do que pode ser considerado “conteúdo infantil” envolve crianças ou personagens infantis, programas infantis famosos ou personagens de animações...

Tem certas coisas que, dã, tão claríssimas que são para crianças e ponto. Mas aqui fica uma dúvida: será que os bots do YouTube tão preparados pra dizer se um vídeo que traz o Homem-Aranha, por exemplo, é de um canal infantil ou então de um espaço dedicado a leitores mais velhos de quadrinhos ou mesmo fãs de cinema? Porque, rapaz, se no último final de semana nós descobrimos que tem muitas autoridades engravatadas por aí que, além de cegas pela homofobia no julgamento entre um beijo e ~pornografia, ainda não sabiam bem dizer se Vingadores são coisa pra criança ou não...

“Personagens de animações” é outro termo beeeeeeeem vago aqui, que pode ser MUITA coisa. Um vídeo que analise o novo desenho da She-Ra sob uma ótica feminista pode ser considerado “infantil”?

“Há bastante incerteza no momento, já que não se sabe ao certo o que é a definição de ‘vídeo infantil’. É um termo bem amplo que pode ou não enquadrar muita coisa”, explica o youtuber Hagazo, numa thread no Twitter. “Por exemplo: Minecraft é um jogo jogado em sua maioria por crianças. Será que ele seria enquadrado em ‘tema de vídeo infantil’ e, com isto, todos os vídeos de Minecraft seriam considerados infantis?”. Se a gente for levar a lógica de “aprendizado de máquina” a ferro e fogo, sim. O mesmo vale pra Roblox, Brawl Stars e demais títulos relacionados.

Usando esta lógica: e os vídeos produzidos com/sobre Minecraft mas que tenham como foco alguém da idade da minha filha, entre 15 e 16 anos, por exemplo? São enquadrados necessariamente como vídeos de um jogo “infantil”? E aí, além de perder monetização, perdem comentários, inscrições e afins? É mais forma de apresentação e menos conteúdo em si?

Vejam: trouxe o Hagazo aqui como exemplo justamente porque ele faz um dos canais que meu filho, 8 anos de idade, mais gosta de ver. E eu faço questão de ficar ligado nos vídeos que o pequeno assiste, pra entender o tipo de conteúdo ao qual ele está exposto — e, no geral, gosto bem do que o Hagazo faz, geralmente gameplays de games de Lego e afins, com muito bom humor e responsabilidade, sem palavrões ou aquelas babaquices tóxicas e escrotas que SABEMOS BEM que o universo gamer nos proporciona.

Que o YouTube tinha que ENFIM tomar uma atitude aqui, mas disso não temos a menor dúvida. Mas que é importante deixar claro, o quanto antes, que atitudes são estas DE FATO, também é preciso.

Além de investir em treinamentos obrigatórios para os seus times aprenderam a lidar com esta situação toda, o YouTube promete dar suporte aos conteudistas para que se adaptem. “Sabemos que o processo não será fácil para alguns criadores, e temos o compromisso de apoiá-los nessa transição, oferecendo recursos para ajudá-los a compreender as mudanças”.

Pois muito que bem. O que eu acho aqui? Que, mais até do que deixar toda a tarefa nas mãos de robôs, o YouTube tinha que tratar esta coisa de TREINAMENTOS OBRIGATÓRIOS assim mesmo, em caixa alta. E fazer mais análises QUALITATIVAS de determinados conteúdos, quer sejam eles infantis ou não. Porque, se de um lado é importante combater práticas abusivas do mercado publicitário, por outro é FUNDAMENTAL ser mais rigoroso na curadoria de como tratar vídeos que trazem discursos de ódio e aquelas bizarras teorias da conspiração que só trazem desinformação.

Se eles são especialistas em driblar algoritmos, dar um olé nos bots que tentam definir o que é ou não infantil vai ser fichinha.

Banir esta gente racista, machista, homofóbica é CRUCIAL para tornar o YouTube um espaço seguro para crianças DE VERDADE. Importante começar pensando por aí.