Os 35 anos do Esquadrão Relâmpago Changeman! | JUDAO.com.br

O grupo que apresentou o conceito de super sentai ao público brasileiro, muitos anos antes dos Power Rangers existirem, ainda são lembrados como uma das melhores séries exibidas no bloco nipônico pela extinta Rede Manchete

O termo japonês tokusatsu, de compreensão bastante ampla, pode ser usado para descrever toda e qualquer produção geralmente de gênero (ficção científica, terror, fantasia...), seja filme ou série, mas que seja em live-action e com uso acentuado de efeitos especiais. Assim sendo, ele engloba tanto os filmes do tipo kaiju (oi, Godzilla!) quanto as LONGEVAS franquias Kamen Rider e da família Ultra. Além, é claro, dos chamados Super Sentai.

Vai, não importa a sua idade, você sabe do que se tratam estes últimos: cinco guerreiros uniformizados (às vezes podem ser seis), roupas que se diferenciam basicamente pela cor. O de vermelho geralmente é o líder e eles enfrentam um império de monstrengos alienígenas ou de outra dimensão, sendo que a ameaça do episódio da semana acaba sendo explodida de alguma forma (com uma bazuca de energia, por exemplo) e se torna um monstrão gigante, que ameaça a cidade. Aí o quinteto convoca um robô gigante, senta a paulada no monstro e fim da história.

Claro que esta fórmula clássica para a cultura pop japonesa hoje é bastante conhecida em todo o mundo por causa dos Power Rangers — que, não custa lembrar, é uma produção americana mas que a cada temporada vai lá buscar não apenas referências mas também licenciar a utilização de sequências inteiras do Super Sentai japonês da vez. E os supergrupos são produzidos quase que rigorosamente uma vez por ano pela Toei Company, desde 1975, o que obviamente dá uma fonte inesgotável para que a Hasbro (a mesma dos Transformers, que comprou os Power Rangers da Saban em 2018) faça um novo grupo de Power Rangers, anualmente, até 2099 pelo menos.

Mas todo o conceito de Super Sentai não foi apresentado ao público brasileiro pelos Power Rangers, que só aportaram por aqui por volta de 1994. Porque, em 1988, a extinta TV Manchete arriscaria nas nossas telinhas uma produção chamada Dengeki Sentai Changeman. Batizada por aqui de Esquadrão Relâmpago Changeman, a série, que era a nona da franquia até o momento e estreou originalmente no dia 2 de fevereiro de 1985 na TV japonesa, trazia todos os elementos clássicos do gênero, incluindo um robô gigante formado pelos veículos de cada um dos integrantes do time e que virou desejo de consumo pra um monte de crianças na época, incluindo este que vos escreve.

Ele e o Gyodai, né?

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A história que se estende ao longo de uma única temporada de 55 episódios, cada um com seus 25 minutos, não poderia, na real, ser mais simples: o universo treme diante da ameaça das tropas do tal Império Gozma. Trata-se de uma espécie de planeta vivo que cruza a galáxia em busca de planetas para conquistar e se alimentar de energia vital (pra quem tem a Marvel na cabeça como referência, quase como uma mistura de Ego com Galactus). O planeta usa como projeção mental um holograma chamado Bazoo, que é o “líder” de uma organização formada por seres de diversos planetas, alguns deles inclusive previamente devorados pela estranha criatura e esperando uma chance de ter seus lares restaurados de alguma forma.

O caso é que Gozma, adivinha só, tá vindo pra Terra. Diz que é pra conquistar mas, na real, é pra servir de jantar mesmo. E aí uma organização global ligada às forças armadas para combater ameaças extraterrestres chamada Defensores da Terra começa a recrutar potenciais guerreiros para contra-atacar as forças de Bazoo.

Comandada pelo durão Sargento Ibuki (ele mesmo, secretamente, um alienígena heatheano, nativo de um planeta destruído pelos Gozma), a equipe vive às voltas com uma lendária Força Terrena, que em teoria seria gerada pela Terra em momentos de grande perigo. E quando acontece o primeiro ataque, cortesia do principal comandante de campo de Gozma, o Pirata Espacial Buba, além das buchas de canhão nascidas de ovos e que viríamos a conhecer depois como os nojentos Soldados Hidler, nosso planeta se manifesta. E cinco soldados japoneses ganham poderes que jamais sonhariam, todos inspirados em cinco animais lendários. Era exatamente o que Ibuki queria.

Tamos falando de Tsurugi, líder da equipe, um ex-jogador de baseball focado e obstinado que assume a persona do Change Dragon (vermelho); Hayate, um bad boy metido a galã, sempre preocupado com o penteado, que se torna o Change Griffon (preto); Ozora, o alívio cômico de humor questionável, sempre com fome e querendo mostrar sua desafinada cantoria no karaokê, vira o Change Pegasus (azul); Sayaka, a cientista equilibrada e com enorme senso de dever, incorpora a Change Mermaid (branco); e por último, Mai, uma motoqueira de cabeça quente que odeia levar desaforo pra casa e não tem paciência pra cantadas baratas, que transforma-se na Change Fênix (rosa).

Além de terem suas força e agilidade ampliadas, os cinco ganham dos Defensores da Terra uma nave que serve como quartel-general (a Base Shuttle) e também seus respectivos veículos de combate que ficam lá armazenados: o Jet Changer (avião pilotado por Dragon), o Heli Changer (helicópero da dupla Griphon e Mermaid) e o Land Changer (veículo de terra de Pegasus e Phoenix). Quando a treta fica gigante, os três veículos se juntam e formam o Change Robô. O meca não vinha pra brincadeira: disparava mísseis da barriga, tinha um canhão em cada ombro, um escudo, uma espada...

Lá do lado dos inimigos, o curioso é que os principais nomes já mostravam uma característica que fica ainda mais clara em Changeman conforme os episódios passam da metade da temporada: a fragilidade. No fim, tudo tinha muitas camadas e era mais do que simplesmente aparentava. Porque da mesma forma que Ibuki era secretamente um ET, vejamos o Comandante Giluke, líder supremo das tropas de Gozma. Servindo Bazoo em busca da recuperação de seu planeta, ele chega a se sacrificar numa batalha contra o Esquadrão Relâmpago, mas depois une sua essência à de um monstro espacial moribundo e se torna o Super Giluke. Tudo pelo seu povo.

Já a Princesa Shima, guerreira que dá muito trabalho aos guerreiros coloridos, a feroz lutadora com uma voz masculina, quando finalmente se liberta do feitiço que a mantinha prisioneira, se junta ao lado dos mocinhos para enfrentar Bazoo. E mesmo Buba, talvez um dos antagonistas mais interessantes de toda a leva de Super Sentai exibidos por aqui, carrega uma história trágica de perda relativa aos seus antigos parceiros de pirataria espacial — e acaba sendo derrotado em um dos melhores episódios da série, que traz uma maravilhosa luta derradeira entre ele e Change Dragon.

E aí temos o Gyodai. Enfim chegamos no Gyodai. O monstro que só sabe gemer de dor e falar o mesmo nome, com um olho no meio da boca e que tem a habilidade de transformar os monstros destroçados em versões gigantescas. O monstrengo desengonçado que era sinônimo de tiração de sarro... até que a gente descobre, no fim, que ele era uma espécie de animal irracional escravizado e mal-tratado. E mais uma vez, a série dos Changeman nos surpreende e mexe com nossos corações, torcendo tudo que dávamos como certo na fórmula dos Super Sentai.

Da maravilhosa e farofíssima canção de abertura, interpretada pelo mestre Hironobu Kageyama (do JAM Project, voz de Cha-La Head-Cha-La do desenho Dragon Ball Z), cantada pela molecada que nem sequer imaginava como falar japonês, aos uniformes com um visual clean e bastante elegante, tudo foi um sucesso imediato por aqui — e a Manchete sacou que tinha uma mina de ouro em mãos com a dobradinha Changeman e Jaspion, ambas hits do programa infantil Clube da Criança.

Logo rolaram dezenas de produtos licenciados, como roupas, bonequinhos, chicletes, álbum de figurinhas, um disco com canções em português, um show realizado em circos (SÉRIO!) e histórias em quadrinhos produzidas aqui no Brasil. Neste último caso, primeiro tivemos a EBAL, que adaptava os episódios da TV, e logo depois quem assumiu a bronca foi a Abril, na lendária Heróis da TV, com tramas que se passariam DEPOIS do fim do seriado. Os autores nacionais — que, ao contrário do que se possa imaginar, não usaram um estilo mangá mas sim uma pegada de arte mais comics americanos — criaram uma espécie de universo coeso com outras propriedades da Toei no Brasil, misturando Jaspion e Changeman com Spielvan (um metal hero que chegou, inclusive, a ser chamado de maneira BEM picareta por aqui de Jaspion II) e com os Maskman (super sentai que viria logo depois de Flashman, o sucessor de Changeman).

Pra quem ficou com saudades ou não conhecia e bateu a curiosidade, a Sato Company, detentora dos direitos da maior parte destas propriedades Toei aqui no Brasil, criou um canal no YouTube, o Tokusatsu TV, no qual disponibiliza grande parte dos episódios, todos com a dublagem original em português. Os rumores sobre as séries irem parar no catálogo do Netflix, apesar da parceria entre as duas empresas, ainda não se confirmaram. Mas como já tá disponível no Amazon Prime, quem se importa, não é mesmo? :)