Finalmente uma Gotham City no meio do Arrowverse | JUDAO.com.br

Realização de um sonho para os produtores do universo compartilhado do CW, poder oficialmente brincar com os elementos do Morcegão seria um risco ao tornar a protagonista uma espécie de coadjuvante de si mesma — mas o começo, ainda bem, segue um caminho diferente

Quem acompanha este hoje cada vez maior e mais diverso mundinho dos heróis DC na telinha do CW desde o começo, quando os produtores resolveram fazer uma adaptação do Arqueiro Verde claramente inspirada na fase Os Caçadores do Mike Grell, já sacou de longe a fixação que eles tinham pelo Batman. E quanto mais séries o chamado Arrowverse ia ganhando, com mais e mais participações especiais e personagens obscuros surgindo de todos os cantos, as referências ao Morcegão pintavam aos montes, de pequenos vilões a coadjuvantes divertidos. Tinha até quem dissesse que Oliver Queen, durante um tempo, foi o Bruce Wayne possível do CW. Maldade, mas fazia um certo sentido, pelo menos até a terceira temporada.

Porém, contudo, entretanto, todavia durante algum tempo, Gotham City estava OFICIALMENTE fora dos limites. Pincelar uma lembrança aqui e ali era o máximo que se podia fazer pros times de Greg Berlanti e Marc Guggenheim, até que finalmente rodou uma circular dizendo “tá liberado, galera. Usa Gotham aí. Menos o Bruce, tá”. Tudo bem. Porque, de verdade, talvez o Bruce Wayne clássico nem combine tanto assim com o Arrowverse. E foi aí que a Kate Kane entrou no circuito e hoje temos ninguém menos do que a Batwoman estreando sua própria série, fechando um ciclo no mesmo ano em que o Arqueiro Verde se despede da telinha.

Ter a chance de fazer a sua própria batsérie ambientada em Gotham, agora vizinha oficial (ou quase isso) de Central City, Star City, National City e a porra toda, poderia no entanto ser um risco. Porque os produtores e roteiristas poderiam facilmente sucumbir à tentação de fazer a Batwoman viver à sombra do Cavaleiro das Trevas famoso, sabe? Tratá-la apenas como uma desculpa, como um coadjuvante de sua própria série, apenas preparando o terreno para que o Batman desaparecido de Gotham City há três anos enfim retorne.

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Bom, depois de assistir ao primeiro episódio, com Ruby Rose absolutamente à vontade no papel principal, dá pra perceber que este não é o caso. Não existe um Batman rondando nos bastidores, deixando bilhetes ou se comunicando pelo ZAP com ela de fora da tela, como aconteceu no comecinho da série da Supergirl. O Morcegão é apenas e tão somente uma lembrança. Um buraco. Um vácuo que deixou Gotham insegura, indefesa. Uma Gotham que agora conta com a proteção de uma enorme empresa privada de segurança, os Crowns, comandados justamente pelo pai de Kathy, Jacob (Dougray Scott).

A graça é que, apesar de ter elementos da Gotham que a gente conhece, sombria, estranha, gótica, dividida, esta é justamente a oportunidade de mostrar uma NOVA Gotham. Não tem Comissário Gordon, não tem Alfred, não tem Mansão Wayne (os segredinhos do herói se escondem num prédio abandonado da Wayne Enterprises bem no meio do bairro menos glamouroso da metrópole). Não tem nem aquela imensa galeria de vilões do Homem-Morcego, que poderiam ser usados logo na largada, pra tentar chamar atenção. Porra nenhuma: quem chega botando o terror é a Alice, uma psicopata que é tipo uma mistura de Arlequina com Chapeleiro Louco, devidamente ladeada por um bando de malucos mascarados que parecem saídos de um filme do Tim Burton.

O foco aqui é fazer com que Gotham seja o lugar para se contar a história da Batwoman, acima de tudo. E é aí que está o grande acerto.

Claro, veja, esta é uma série do Arrowverse, antes de qualquer coisa. Isso está cristalino, a assinatura está visível em todo lugar — ok, a inspiração maior é de fato a fase da personagem escrita e apresentada por Greg Rucka nas HQs, mas a narrativa, mais ou menos cinza, segue um padrão que, sejamos honestos, quem não curte vai continuar não curtindo. Ponto. Não vamos forçar a sua barra aqui. Não espere algo que sequer respingue narrativamente no universo Netflix da Marvel. Batwoman tá mais pra Arrow naquela ótima segunda temporada contra o Exterminador do que pra Demolidor ou Jessica Jones.

É aquele timing, é aquela pegada de construção de personagem. De um jeito ou de outro, aquela “fórmula”. Tudo bem pra você?

Dito isso, este é um exemplar bastante interessante do Arrowverse que funciona perfeitamente como o substituto natural de Arrow no papel de “série obscura” da vez. Ao final destes primeiros episódios de Batwoman, o tom amargo funciona como um perfeito contraponto de toda a luz e esperança que a Supergirl naturalmente traz. No fim, se cria quase como que uma justaposição entre ambos os programas, do jeito que se esperaria ver entre heroínas construindo seus legados particulares a partir daqueles símbolos bastante reconhecíveis em seus uniformes. Uma dinâmica bastante interessante.

E sim, Batwoman se posiciona de um jeito bem distante da zoeira generalizada de Legends of Tomorrow e do dramalhão insuportável que se tornou The Flash. É uma série cravando seus dentes num lugar bem diferente deste universo compartilhado.

Tem boas cenas de ação, tem lutas que não parecem forçadas e convencem bem da capacidade de Kate, que passou anos afastada da cidade treinando com alguns dos melhores instrutores do planeta. A porradaria é CRÍVEL, ela bate mas também apanha, e a câmera consegue acompanhar bem, fazendo uso de uma fotografia que brinca do jeito certo com as questões de luz e sombra.

Marrenta, Kate tem estilo próprio, faz rir, faz chorar. Intensa em rigorosamente tudo que faz, ela se apaixona com a mesma força que mete um soco na cara, com a mesma coragem que enfia uma roupa de morcego e salta de um prédio. Expulsa do treinamento militar depois que a descobriram lésbica, ela não aceita as regras do exército, a tentativa de ajuda desengonçada do pai. Sentindo-se culpada pelo incidente que causou a morte da mãe e da irmã, ela tem um Beco do Crime pra chamar de seu, o seu próprio quinhão de paranoia para ajudar a temperar a jornada de combate ao crime.

Além de Kate, no entanto, a série se cerca de personagens interessantes e pouco óbvias: da meia-irmã que parece uma garotinha riquinha e mimada mas que se descobre ser uma espécie de “Enfermeira Noturna” costurando ferimentos dos mais pobres, passando pela jornalista Vesper Fairchild (que, nos gibis, teve um envolvimento romântico com o Batman) e chegando até à agente se segurança Sophie Moore — antigo amor da vida de Kate e motivo de seu retorno à Gotham. Ela está longe de ser apenas uma dama em perigo: aliás, não temos aqui o cavaleiro em armadura brilhante em busca de sua princesa, mas sim duas amazonas, uma ajudando a outra. Dá pra dar um nó bom na cabeça de um povo aí, né?

Um ótimo começo, cheio de uma personalidade que eu nem esperaria ver tão assim, de primeira. Que continue desse jeito — e sem precisar clamar pelo retorno do Morcegão, porque esta Gotham não precisa dele, já que agora tem a sua própria capa aberta cruzando os céus.