O mal à vista de todos | JUDAO.com.br

Ainda que todo filme de terror busque apontar para algo na vida do seu público, tem muita produção que fica satisfeita com susto e assombração, truque de edição e trilha sonora traiçoeira. O Homem Invisível não é um desses.

Não é todo filme de terror que coloca sua razão de existir nos medos mais realistas das pessoas. Filmes que, como toda boa ficção, usam a sua fantasia para analisar algo terrivelmente palpável, algo capaz de alcançar as pessoas mesmo quando saem do cinema. Embora lá no fundo, bem no fundo, todo filme do gênero busque apontar para algo na vida do seu público, tem muito filme de terror que está satisfeito com susto e assombração, truque de edição e trilha sonora traiçoeira.

O Homem Invisível poderia ter sido, como era planejado, uma peça em mais um Universo Expandido de filmes, dessa vez com os monstros clássicos da Universal. Alguém tirou o projeto da tomada, devolvendo o personagem clássico de H. G. Wells para o limbo, onde o diretor e roteirista Leigh Whannell esbarrou nele. Whannell já pode ser considerado um veterano do cinema de terror, mesmo sendo essa somente sua terceira produção como diretor: ele não só é um dos roteiristas de alguns Jogos Mortais, em especial o primeiro, como também atuou neles. Ele é o fotógrafo cuja situação pouco salubre serve como introdução àquele universo, logo na primeira cena do primeiro longa da série, de 2004. Desde então, Whannell roteirizou bastante coisa, começando a dirigir com o terceiro filme da série Sobrenatural. Em 2018 ele lança Upgrade: Atualização, um filme de terror disfarçado de sci-fi/super-herói bastante intrigante e curiosamente expressivo. Já era um passo para longe do cinema de “fantasma-susto” cuja revitalização, junto com nomes como o da produtora Blumhouse e do diretor James Wan, Whannell ajudou a trazer.

O próximo passo é este filme sobre um cara transparente, meio suspense-terror psicológico, meio slasher clássico. Cecília, papel de Elisabeth Moss, abre o filme fugindo da mansão de seu namorado Adrian (Oliver Jackson-Cohen). Aprendemos, pela insistência dele, que aquele não era um relacionamento saudável, e observamos o poder do trauma que Cecilia sofreu. Pouco tempo depois, ele parece ter cometido suicídio, e Cecília começa a ser assombrada por algo que pode ser loucura, pode ser um fantasma, ou pode ser seu ex-namorado ainda vivo, mas totalmente invisível e completamente obcecado por ela.

O filme não perde tempo em estabelecer o quão desequilibrado Adrian é. Não vemos a construção do relacionamento, mas vemos o quanto Cecilia teme um homem de recursos praticamente infinitos e que considerava-a uma de suas posses. É através dos olhos de Cecilia que entendemos o passado recente dela, nunca duvidando do seu ponto de vista. E é exatamente a credibilidade de Cecilia que se fragiliza para todos os personagens à sua volta quando ela começa a acreditar que seu namorado não morreu.

Talvez houvesse algo de interessante em deixar o público duvidar de Cecilia junto com sua irmã (Harriet Dyer) e seu amigo (Aldis Hodge), mas esse é exatamente o tema central do filme. Estamos junto dela na angústia de ser taxada de louca e de não ter ninguém do seu lado quando um sociopata abusivo decide torturá-la para tê-la de volta. O filme é tanto sobre o terror sobrenatural de uma força invisível atacando alguém quanto é sobre gaslighting, a manipulação emocional e psicológica onde o abusador isola a vítima, fazendo-a duvidar de si mesma.

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A maior força de O Homem Invisível está em quão bem aplicada é a metáfora, além do trabalho de Elisabeth Moss. Depois da fama que atingiu com The Handmaid’s Tale, Moss volta a um projeto onde a liberdade feminina é a base para uma fantasia perigosamente próxima da realidade. E embora seu papel aqui não tenha muita chance de ter nem a nuance e nem a explosão de sua atuação incrível no recente Her Smell, Moss segura o filme com tranquilidade. Exceto nas poucas cenas onde contracena com efeitos especiais e truques de fotografia, ela precisa, sozinha, fazer dois lados de uma perseguição psicológica funcionar. E tanto a loucura quanto a vulnerabilidade e a fúria saem de seus olhos grandes e expressivos, sendo praticamente todo o teor de tensão do filme. Diferente de outros projetos onde esteve envolvido, Whannell está um pouco mais contido no quesito gore, habilmente deixando Moss ditar o peso do medo.

Aliás, é até ligeiramente desanimador que Whannell não esteja experimentando tanto. Em Upgrade houve muita inventividade na câmera e nas sacadas de fotografia, encontrando soluções que completavam o filme, pegando emprestado até linguagem de games para dialogar sobre a temática de controle. Poucas coisas no Cinema daqui estão conversando tanto com o tema, de maneira que a fotografia e direção estão mais de fundo, sendo só “funcionais”, deixando Moss, os efeitos visuais e as reviravoltas realmente surpreendentes no holofote.

Mas para um filme que segue a cartilha Blumhouse de cinema de terror – orçamento lá embaixo, terrorzão lá em cima – O Homem Invisível entrega um dos melhores resultados. Não é só a habilidade de seus atores e o roteiro bem amarrado, mas o quanto ele usa a fantasia para tocar em algo terrivelmente real. A prisão emocional de Cecilia vai soar familiar demais para muita gente, em especial muitas mulheres. A história original, de H. G. Wells, focava no mal que um homem invisível queria fazer a uma comunidade, a um conjunto inteiro de pessoas. O update de Leigh Whannell e Elisabeth Moss focam no quanto um homem com um certo nível de poder pode aprisionar uma única pessoa, mas aprofunda bastante no quão completo pode ser esse aprisionamento.

Platão já dizia que se um cara ficar invisível, a tentação de fazer o mal vai ser irresistível. O Homem Invisível repete aquilo que a gente tá cansado de saber: é só dar pra um homem a ideia de que ele é dono de alguma coisa que ele já vai fazer mal o bastante, à vista de todos, sem ligar para ninguém.