Com nova trilogia, Star Wars virou coisa de criança mimada | JUDAO.com.br

Pra que toda uma nova trilogia, se justamente o que é novo nessa saga incomoda TANTO a ponto de ser completamente rechaçado?

Se você não viveu essa história, com certeza já ouviu falar dos pais que educam a criança direitinho pra que então venham os avós e deseduquem completamente, uma vez que é pra isso que servem os avós, mesmo. E não, não quero dizer que os avós transformam as crianças em mal-educadas; mas toda uma coisa de não comer isso ou aquilo, não ter isso ou aquilo, não poder fazer isso ou aquilo, vai pro saco quando os avós é que tomam conta.

Dorme tarde, vê filme violento, come doce, foda-se.

A questão é que uma criança não tem muito o que fazer além de crescer, né? A parte da boa educação eventualmente vence, mas a relação com os avós vira essa coisa de mimos, realmente especial, mas que sabemos que não serviria de muito na vida real. Nem tem que servir, aliás. Ajuda a formar caráter, mas não leva a muitos lugares.

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Sempre que um filme de uma grande franquia estreia, especialmente aqueles que fecham ciclos, rola aquela coisa de maratona dos outros todos, pra chegar com tudo TININDO na cabeça. Na minha preparação para Star Wars: A Ascensão Skywalker, porém, eu resolvi assistir apenas aos filmes dessa trilogia, iniciada em 2015 — O Despertar da Força e Os Últimos Jedis*.

Foi uma boa decisão e uma má decisão ao mesmo tempo: eu talvez tivesse me irritado muito mais com O Despertar da Força, já que as referências a Uma Nova Esperança estariam todas frescas demais na minha cabeça e eu provavelmente não conseguiria suportar os olhos rolando dentro da minha cabeça.

Eu gosto do JJ Abrams, de verdade. Entendo DEMAIS o que ele fez com esse Episódio VII, era até necessário em termos mercadológicos — não inventar muita coisa, usar o que já se sabe que funciona e é conhecido e partir daí. Falei sobre isso, na época. Mas não dá, em termos cinematográficos, que é o que me interessa, pra achar algo tão sensacional assim. Algumas coisas, como o BB-8, claro, são CINEMÁGICAS. Mas é só mais do mesmo, né?

E então veio a percepção da decisão ruim que eu tomei depois de assistir a Star Wars: Os Últimos Jedis*. Existe uma grande possibilidade de eu gostar MUITO mais dele se tiver os outros sete filmes frescos na cabeça. Porque se com apenas um eu fiquei boquiaberto com o trabalho de Rian Johnson, no filme e na saga como um todo... Porra.

Os Últimos Jedis* é um respiro de ar fresco. Cheiro de carro novo, Coca-Cola gelada. Um banho gelado no calor depois de um dia de trabalho, uma cama com lençol limpo te esperando logo depois. Coisas que a gente conhece há tempos, já fez e sentiu várias vezes, mas é sempre como se fosse a primeira vez. Um momento que a gente quer viver pra sempre.

Novos personagens ganhando suas próprias aventuras e desenvolvimento (Finn e Rose são o maior destaque nesse sentido aqui), antigos tratados com todas as HONRARIAS merecidas. Lugares novos sendo explorados, criaturas (até os malditos Porgs!) surgindo, a Força sendo explorada de maneiras nunca antes vistas. Uma história que abandona a espiral em que vive desde os anos 1970 e, tal qual a nave comandada por Hordo, cruza tudo o que conhecemos pelo caminho e deixa todo mundo estarrecido, boquiaberto, em silêncio.

Rian Johnson conseguiu reacender a tal fagulha da Rebelião, exemplificada de maneira realmente empolgante naquele moleque que usa a Força pra pegar a vassoura, antes de olhar pro céu e erguer o UTENSÍLIO tal qual um sabre de luz de cor fria. Ele jogou pro POVO a necessidade e a vontade de lutar contra o mal opressor.

É perfeitamente compreensível a estranheza que muitos sentiram com esse filme. Uma estranheza que, pra alguns, se tornou ódio. Como se não fosse permitido tocar o que lhe é sagrado. Como se ele fosse dono da história. Como se evoluir, progredir, fosse algo ruim. Aliás... Isso te lembra alguma coisa?

...e aí JJ Abrams retornou ao cargo de diretor e roteirista em Star Wars: A Ascensão Skywalker, que enfim estreia e encerra a história iniciada por George Lucas em 1977.

JJ Abrams dirige Daisy Ridley em Star Wars: A Ascensão Skywalker

Tal qual avós que simplesmente ignoram a boa educação (e regras) que os pais da criança resolveram dar, pensando no futuro dela, no seu desenvolvimento e crescimento, Star Wars: A Ascensão Skywalker ignora o que consegue de Os Últimos Jedis* e ressignifica o resto baseado única e exclusivamente numa necessidade ridícula de mimar fãs.

É fã e quer service? Então vai tomar no meio do seu cu assiste aos filmes que você já conhece e gosta. Pra que criar algo novo, se justamente o que é novo incomoda a ponto de ser completamente rechaçado?

Em Star Wars: A Ascensão Skywalker voltamos aos desertos e à neve, à Estrela da Morte, a planetas conhecidos, batalhas históricas, ao silenciamento de personagens e aventuras (Finn e Rose são o maior destaque nesse sentido aqui), ao mais absoluto subdesenvolvimento dessas mesmas aventuras e personagens. Voltamos aos clássicos, INCLUSIVE pra eventualmente corrigir algum caminho (podemos falar sobre isso depois, já que SPOILER). Em Star Wars: A Ascensão Skywalker, voltamos à tal espiral que a Saga vivia desde os anos 1970.

A fagulha de esperança da Rebelião é tirada do povo e entregue à General Leia Organa, que depois de ter o chamado com seu código pessoal ignorado, consegue reunir aquele monte de navinha que vimos no trailer (incluindo a Ghost, de Star Wars Rebels).

Pouca coisa tem mais significado nesse filme do que a reconstrução do capacete de Kylo Ren. Sim, eles chegaram A ESSE PONTO.

Claro, não dá pra ignorar o fato de que, com o fim ~definitivo dessa Saga, algumas coisas precisariam ser retomadas, homenageadas, referenciadas. Mas num ano que temos Watchmen quase que ao mesmo tempo em nossas mentes, é até meio ofensivo o caminho que Star Wars: A Ascensão Skywalker segue. Um caminho que, apesar de muito divertido em alguns momentos (Babu Frik!) e emocionante em outros, é preguiçoso, seguro, sem riscos. Sem graça.

Sem força.

Ouvi, enquanto esperava o meu Uber na saída do cinema, uma pessoa que também tinha assistido ao filme conversando com outra, no telefone, dizendo que o filme fazia referência a todos os outros, homenageava, era perfeito justamente por isso. Entendo quem curte, faz todo sentido. Mas não consigo compreender quem se SATISFAZ com isso.

Star Wars merecia ser mais cinema, merecia ter fãs diferentes. Star Wars merecia mais. Mas quem vai audaciosamente onde ninguém jamais esteve é a outra franquia, né? ¯\_(ツ)_/¯

* Últimos Jedi não dá. Simplesmente não dá. Nunca vai dar.