A história muito bem contada de um garoto jovem demais para aguentar o peso da vida | JUDAO.com.br

A impressionante estreia em longas-metragens de Alexandre Moratto em um filme produzido pelo Instituto Querô

2019 é um ano marcante para o cinema nacional. Além de filmes fantásticos e socialmente relevantes, o público está cada vez mais interessado no que a nossa indústria cinematográfica tem para oferecer. Entre essas produções está Sócrates, a impressionante estreia em longas-metragens de Alexandre Moratto.

Co-escrito com a roteirista Thayná Mantesso, o filme acompanha a história de Sócrates (Christian Malheiros), um garoto de apenas 15 anos, que sofre uma reviravolta quando sua mãe morre. Lutando para sobreviver por conta própria, Sócrates busca por uma vida digna enquanto lida com o isolamento por causa da sua sexualidade.

Sócrates é verdadeiramente impressionante por ser impecável em todos os aspectos do filme — destaque especial para a belíssima fotografia e extraordinária cinematografia de João Gabriel de Queiroz — mas também pela história envolvendo a produção. Esse é o primeiro filme produzido pelo Instituto Querô, uma organização sem fins lucrativos apoiada pela UNICEF com objetivo usar a produção cinematográfica como ferramenta para capacitar jovens de baixa renda entre 16 e 20 anos do litoral santista.

A equipe inteira de Sócrates foi composta principalmente por adolescentes que aprendiam sobre a profissão e ofereciam suas próprias vivências para essa história, o que tornou Sócrates uma história recheada de verdade que foge da tradicional visão afastada das dificuldades das pessoas marginalizadas. Parte dessa verdade também está na interpretação de Malheiros ao entregar seu desamparo e crescente solidão com apenas o olhar.

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Moratto não utiliza sua câmera para explorar a miséria da vida de Sócrates, mas faz um relato íntimo da perda e da necessidade do protagonista em pensar em assuntos práticos como sua própria sobrevivência, que o impedem de realmente sofrer pela morte da mãe. Enquanto corre para conseguir um emprego, ter uma casa e se alimentar, Sócrates ignora seu luto e é engolido pela vida adulta sem ter idade ou maturidade suficiente para isso.

Em meio à tudo isso, Sócrates conhece Maicon (Tales Ordakji), um jovem poucos anos mais velho que possibilita o mínimo de consolo para ele, mesmo que essa não seja uma fonte confiável de segurança permanente. Um ponto importante é que a homossexualidade de Sócrates é apenas mais uma parte sobre quem ele é, não um ponto central na sua história. O roteiro não reduz esse aspecto e a homofobia é a causa da sua solidão familiar, mas outros pontos sobre o personagem também são importantes para sua construção, como a presença da mãe, mesmo após sua morte.

O diretor ainda dosa o tom da busca frenética do protagonista por segurança, preferindo seguir uma ótica mais urgente do que necessariamente desesperadora. Em nenhum momento o roteiro arrasta a aflição de Sócrates por tempo demais ou torna a história uma espécie de celebração ao sofrimento. Mesmo com todos os problemas vividos em tão pouco tempo, Sócrates é resiliente e explora todas as opções possíveis para sua situação. Ainda assim, o filme nunca perde de vista que Sócrates nunca desiste porque simplesmente não existe outra opção. Os roteiristas fazem um trabalho delicado e impressionante de entregar informações e elementos dramáticos no momento certo e nos direcionam precisamente nessa história.

Quando não resta qualquer alternativa, fica apenas o sofrimento cru de um garoto jovem demais para aguentar o peso da vida e da perda prematura. Após uma despedida íntima e poderosa nos últimos minutos, quando a tela finalmente escurece e o filme termina, resta apenas a esperança que a maré mude e não engula mais o protagonista.