Sam Mendes quer, com um plano-sequência, que você sinta como é estar em um campo de batalha | JUDAO.com.br

Diretor de Skyfall afirma que seu filme de guerra está mais para um “thriller” e esse é um dos motivos

Filmes sobre guerras estão longe de serem uma novidade na indústria cinematográfica e diversas produções do tipo estão nas listas de melhores filmes da história. Seja por uma cinematografia espetacular, como O Resgate do Soldado Ryan (os melhores 15 minutos iniciais da história do cinema), ou abordando os efeitos psicológicos de uma guerra, como Apocalypse Now, alguns dos maiores cineastas da história entregaram seus melhores trabalhos ao explorar o gênero.

Há quem diga que isso vale até pra Christopher Nolan.

Agora, é a vez de Sam Mendes introduzir o público à Primeira Guerra Mundial em 1917, filme dirigido e escrito por ele em colaboração com a roteirista Krysty Wilson-Cairns. A história segue dois soldados em uma missão para entregar uma mensagem que pode salvar milhares de vidas. Mas, para isso, eles precisam carregar essa mensagem por alguns dos campos de batalha mais angustiantes da guerra. E é exatamente essa angústia que Mendes quer que o espectador sinta.

Um vídeo dos bastidores da produção foi divulgado com detalhes comentados pelo diretor e por alguns membros do elenco e equipe técnica sobre o processo de filmagem de 1917, que envolve principalmente filmagem contínua em tempo real. “Cada passo da jornada, respirando cada respiração com esses homens, parecia integral. E não há melhor maneira de contar essa história do que com uma filmagem contínua”, afirmou Mendes.

Filmagem em plano contínuo (o famoso plano-sequência) é um recurso incrível que registra uma ação inteiramente sem cortes, fazendo o espectador acompanhar o objeto de cena durante um período de tempo específico ou simplesmente te colocando para atravessar um ambiente. Não é exatamente fácil fazer uma sequência inteira de uma única vez e o recurso requer uma equipe muito bem alinhada para que a coreografia funcione perfeitamente.

Cineastas como Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Alejandro G. Iñárritu, Alfonso Cuarón e Paul Thomas Anderson utilizaram o recurso em momentos específicos do seus filmes. Isso causa a sensação de mudança em relação ao tempo do filme e ao tempo da história que eles contam. Alguns diretores como Jim Jarmusch e Theo Angelopoulos já rodaram filmes inteiros com um pequeno número de longos planos contínuos e usaram a decupagem e a montagem para construir suas histórias. Em 2007, o cineasta brasileiro Gustavo Spolidoro dirigiu Ainda Orangotangos em um único plano-sequência de 81 minutos.

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Com a duração de 1h50, 1917 se passará em tempo real, mas não será exatamente UM único plano-sequência. Neste vídeo dos bastidores, alguns desafios desse tipo de filmagem foram mostrados, como garantir que o período certo de iluminação fosse igual em todas as filmagens à medida em que a história se desenrolasse. Assim, fica mais fácil esconder as transições entre os cortes — que sim, vão acontecer. Apesar de Mendes disfarçar sobre as técnicas usadas para escondê-los, elas existem.

Exatamente para que a produção saísse do jeitinho como o diretor queria, Mendes passou nove meses se preparando com o fantástico diretor de fotografia Roger Deakins para garantir que as cenas fossem combinadas e cronometradas no tempo certo. Parte dessa preparação incluiu se moverem entre os locais de filmagens para tudo sair perfeito. “Todo local tinha que ter exatamente o tamanho correto para a cena. Tivemos que andar cada passo que os personagens andariam muito antes de projetarmos os cenários e construí-los. Nunca ensaiei um filme por tanto tempo ou com tantos detalhes”, afirmou o diretor.

Para que essa sincronia entre câmera e atores funcionasse em 1917, diversos equipamentos especiais foram criados para ajudar na movimentação da câmera em determinados lugares. As imagens de bastidores mostram algumas dessas criações especiais, como uma câmera transportada por dois operadores correndo por um campo com explosões e fios feitos especialmente para fazer o aparelho flutuar no campo de batalha. Além de câmeras em diferentes transportes, como carros, jipes, motos e caminhões para garantir que o espectador não perdesse absolutamente nada da trajetória dos personagens.

O que diferencia 1917 de produções como Birdman ou Festim Diabólico, grandes plano-sequência rodados quase que inteiramente dentro de uma única sala, é a escala da produção. Os dois protagonistas centrais viajam por uma caótica paisagem ao ar livre e todos os desafios externos de uma produção foram enfrentados pela equipe. Além de se preocupar com a iluminação, Mendes e sua equipe ainda precisaram pensar na posição dos atores principais e de todos os figurantes que um filme de guerra requer. Com os tais cortes suaves e imperceptíveis, uma única posição diferente de um figurante já destrói completamente a fluidez que Mendes e Deakins idealizaram.

Em entrevista à Vanity Fair, o diretor disse que a escolha para filmar em tempo real foi emocional, porque o material “precisa ser visceral e imersivo”. Essa imersão é fundamental para aproximar você ao máximo da experiência em um campo de batalha da Primeira Guerra Mundial e dar veracidade à narrativa. Com uma história essencialmente linear e passando por diversos locais diferentes, Mendes afirma que sua trama está mais para um thriller, o que pode tornar a experiência ainda mais impactante.

Mas, além de escolhas técnicas interessantes, Mendes disse que 1917 é uma história “fundamentalmente humana sobre dois soldados jovens e inexperientes correndo contra o relógio”. Independente da forma, os melhores filmes de guerra carregam o mesmo elemento humano e empático que esse tipo de história necessita.

1917 está previsto para estrear no Brasil em 20 de Fevereiro de 2020.