Se o que Dois Papas mostra aconteceu ou não, pouco importa. A mensagem de Fernando Meirelles é clara. | JUDAO.com.br

Talvez, nunca saibamos se realmente essa reunião entre os dois Papas realmente aconteceu mas, no fim, não importa. Esse é um filme que passa uma mensagem sobre tolerância em um mundo cada vez mais dividido.

Mesmo se você não for uma pessoa católica, como eu não sou, todos testemunhamos o momento em que Bento XVI se retirou do posto de líder da Igreja Católica e abriu caminho para o papado de Francisco, um argentino considerado “liberal” por parte do setor mais conservador da Igreja. Um momento marcante na história da humanidade que o diretor Fernando Meirelles transformou em filme, Dois Papas, nos oferecendo uma visão próxima do que pode ter acontecido por trás dos muros do Vaticano antes dessa transição.

A história começa em 2006, quando o Papa João Paulo II morre e a Igreja Católica se organiza para escolher o novo líder. Após a vitória do alemão Joseph Ratzinger (vivido no filme por Antonhy Hopkins), a Igreja retorna aos seus costumes mais conservadores, seguindo um caminho diferente do papado anterior.

Frustrado com esse direcionamento, o cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce) acaba pedindo permissão para se aposentar em 2012. Mas, quando a Igreja se torna alvo de denúncias de assédio sexual e escândalos financeiros, Bento XVI convida seu mais severo crítico a Roma para revelar um segredo que abalaria os fundamentos da Igreja Católica: a sua renúncia.

Durante a visita que mudaria a vida de Bergoglio e os rumos da Igreja, começa uma luta entre tradição e progresso, culpa e perdão, pois esses dois homens completamente diferentes devem encontrar um terreno comum e criar um futuro para seus fiéis ao redor do mundo.

Enquanto boa parte dos diretores teriam transformado essa história como um drama pesado sobre um momento emblemático de uma das instituições mais poderosas do mundo, Meirelles escolheu dar leveza ao material com um tom mais espirituoso. Em alguns momentos até um tanto satírico – principalmente com uma trilha sonora certeira -, o filme escrito por Anthony McCarten nos mostra a briga verbal entre Bergoglio e Ratzinger sobre história do papado, da Igreja e os fundamentos da Bíblia. Encenando uma intensa batalha filosófica entre duas pessoas completamente diferentes, você até pode esquecer que aqueles dois homens são o passado e o futuro da Igreja.

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Alterando suavemente entre fatos e ficção, Dois Papas humaniza duas figuras emblemáticas geralmente vistas como guias e fontes de sabedoria por bilhões de pessoas. Ao mostrar os erros que cada homem cometeu ao longo de suas vidas dentro e fora da fé, o filme traça um caminho de mútuo perdão quando conversam sobre as escolhas equivocadas que fizerem. Ao abordar o escândalo de assédio sexual, Meirelles é bastante delicado ao falar o que todo mundo já sabia, mas coloca Bergoglio para dizer exatamente o que estamos pensando – os membros do alto escalão da Igreja não deram a devida atenção ao problema por medo da mancha que o escândalo deixaria.

Apesar dos diversos conflitos e visões de mundo quase opostas, Bergoglio e Ratzinger compartilham o mesmo amor pela sua religião e por seu Deus. Entre respostas atravessadas e discordâncias sobre como a Igreja deveria agir em um mundo em que fiéis não se identificam com tantas imposições, eles encontram um caminho comum para seguir juntos pelo bem da Igreja. Mas, antes das mudanças que a instituição passaria, esses homens também precisavam evoluir e se conciliarem com a cruz que cada um carrega.

Esse roteiro espirituoso e inteligente ganha ainda mais vida nas mãos de Pryce e Hopkins, que parecem se divertir em seus papéis e nos mantém presos à história – dificilmente os dois serão esquecidos nessa temporada de premiações. Claramente, Pryce conhece muito bem o personagem que está interpretando e consegue mostrar todas as características que hoje são tão conhecidas do Papa Francisco.

Fernando Meirelles dirige Jonathan Pryce no set de Dois Papas

Apesar do que o título sugere, Dois Papas fala mesmo sobre a ascensão do Papa Francisco e sua história pregressa. Enquanto diferentes pontos cruciais do passado de Bergoglio são explorados – como a descoberta da sua vocação e a ditadura militar na Argentina -, pouco sabemos sobre Ratzinger antes de se tornar Papa e o filme foca principalmente nas acusações que o Vaticano sofreu no seu período como Chefe da Igreja e Bispo de Roma. Nesse sentido, senti falta de mais informações sobre o passado de Bento XVI, principalmente quando personagens do filme citam seu passado envolvendo o nazismo.

Com uma história que tinha tudo para ser muito didática e até mesmo evangelizadora, Meirelles e McCarten criaram em Dois Papas um enredo bastante humano e inspirador. Talvez, nunca saibamos se realmente essa reunião entre os dois Papas realmente aconteceu mas, no fim, não importa. Esse é um filme que passa uma mensagem sobre tolerância em um mundo cada vez mais dividido.

Seria ótimo se a própria religião e as pessoas que a frequentam seguissem esse mesmo caminho.