RESENHA! Star Trek: Sem Fronteiras

Nesses 50 anos de Jornada nas Estrelas, o reboot encontra o equilíbrio perfeito entre emoção, ação e aventura

Quando penso sobre a tripulação clássica da Enterprise, a primeira coisa que vem à minha cabeça é a relação entre aqueles personagens. Todos eles isolados no espaço, contando apenas uns com os outros, em uma missão de cinco anos em busca de novas formas de vida, civilizações. Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve, mas enfrentando emoções e dificuldades bem terrenas.

Quando rolou o reboot de Jornada nas Estrelas, lá em 2009, JJ Abrams e a Paramount nos deram a oportunidade de revisitar essa relação, conhecendo-a bem no comecinho – por mais que fosse um novo universo, uma nova realidade alterada pelas ações do vilão Nero. Essa afinidade cresceu mais no filme e chega em Star Trek: Sem Fronteiras como o verdadeiro coração da história. Mais do que nunca, esta voltou a ser uma história sobre pessoas.

Quando o filme começa, nós reencontramos a Enterprise já na segunda metade da famosa missão de cinco anos. A essa altura, a tripulação é uma família, com seus defeitos, qualidades e problemas. Porém, é uma família forjada na solidão e na autopreservação, superando barreiras étnicas e culturais para criar laços únicos, que ficarão para toda a eternidade.

Só que é difícil encontrar motivação quando a nossa vida vira uma grande rotina — vamos combinar, o espaço tem muito mais vazio do que coisas pra se ver. É o caso do Capitão Kirk. Ele finalmente encontra esse dilema, que a versão original do personagem também teve, só que com um agravante: este Kirk não entrou para a Frota Estelar porque se sentiu inspirado pelos feitos do pai, contados à exaustão pelo próprio, mas porque foi perseguido pela bravura dele, que deu a vida para salvar toda uma tripulação.

Há coração também na saudade do Sulu. Quando ele reencontra a família, mesmo que por alguns segundos, dá pra sentir toda a emoção daquele momento. É essa cena rápida que estabelece a motivação daquele personagem, que o leva pra frente durante todo o resto da história.

E é essa mesma sequência, que celebra a vida, que faz o link para a seguinte, que traz uma grande homenagem ao Leonard Nimoy. Não que ela celebre a morte – isso seria ilógico, já diria um grande amigo de orelhas pontudas – mas sim o legado deixado para aqueles que seguem a vida. Legado esse que passa a pesar nos ombros do jovem Spock, da mesma forma que já vinha pesando para o jovem Kirk.

Com Sem Fronteiras, Star Trek volta a ser uma história sobre pessoas

Quando a ação e a porradaria começam, fica clara essa veia mais moderna de Jornada nas Estrelas, iniciada por Abrams em 2009. Justin Lin, de Velozes & Furiosos, é realmente uma grande adição à jogada, com ótimas cenas de ação. Tudo funciona muito bem. Ainda sim, mesmo nessas horas, o coração continua lá – outro mérito de Lin e do roteiro co-escrito por Simon Pegg (o Scotty) e Doug Jun. Ele está, por exemplo, em como Spock e o Dr. McCoy se relacionam na hora do aperto, com aquela amizade na qual um ama o outro, mas nunca dizem isso e se cutucam para seguir em frente. E está na motivação do vilão Krall, interpretado pelo Idris Elba. É a solidão e o ódio que movimentam as ações do antagonista, em um paralelo interessante com as mesmas dúvidas de Kirk no começo do filme.

São estas relações de amor, ódio, traição e amizade que guiam o filme — como guiavam os melhores episódios da série clássica. Inclusive, ajudam a introduzir uma nova personagem ao cânone da série, Jaylah (Sofia Boutella). Mas, esse foco nos relacionamentos pode ter deixado menos tempo para explorar o grande plano do Krall. Algumas soluções são bem simples, principalmente na última parte da história, mas entendíveis quando você olha para o todo e onde o filme chega quando acabam as suas 2h02min de duração.

Star Trek: Sem Fronteiras é como um abraço caloroso daquela pessoa que você ama tanto após uma longa viagem — seja para os fãs das antigas ou aqueles que vieram com o reboot. Os 50 anos de Jornada nas Estrelas não poderiam ter uma celebração melhor. ;)

E então que parece que NÃO vai mais ter Billie Eilish no #Lolla. Mas também parece que vai ter Billie Eilish no Brasil SIM, sozinha, em "locais grandes". https://t.co/dRXQ1s2KTW