The Flintstones #1 e a crítica aos nossos tempos modernos | JUDAO.com.br

Novo gibi da DC acerta ao atualizar os principais conceitos da animação dos anos 1960, com dilemas e alegorias bem atuais

The Flintstones é uma das maiores animações da história. Quando você olha friamente, verá um desenho animado simples, até pobre, que repetia acetatos para economizar uns trocados. Porém, além dessa primeira impressão, a série foi pioneira por mostrar que é possível sim fazer animação que fale com o público adulto — e, de quebra, ainda dar uma criticada na sociedade.

Sim, sim, animação que fala para adultos. Por mais que os Flintstones sejam hoje (e até na época) encarados como algo para criança, eles foram o primeiro desenho animado exibido em horário nobre na TV dos EUA, que incorporava os mais diversos elementos das sitcoms e procurava uma forma de cutucar a sociedade dos anos 1960, que já experimentava o desgaste do tal “American Way of Life”.

Com o tempo, essa relação e o foco no público adulto foi se perdendo, transformando The Flintstones numa crítica ao passado que se passava ainda mais no passado.

O que The Flintstones #1, lançado semana passada como parte da nova safra de títulos da Hanna-Barbera pela DC Comics, fez foi justamente atualizar todos esses conceitos dos anos 60. O tom ficou um pouco mais sombrio e as críticas se tornaram atuais — o que é ótimo.

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A HQ, escrita por Mark Russell, desencana daquela versão original, apesar de todas as características estarem ali. Também não embarca em uma história de origem. Afinal, você sabe quem são aqueles que estão em cada página.

Nessa primeira edição, Fred é o funcionário do mês na pedreira do Sr. Pedregulho. Claro que isso vem com algumas responsabilidades, como cuidar dos três novos neandertais que foram contratados pra trabalhar lá. Por que escolher esses caras? Simples: dinheiro não diz nada para eles.

Parece aquele conceito que escutamos em diversos trabalhos: você ganha menos, mas ganha status, oportunidades, “chefe points” (sério, já ouvi essa) e coisas que, bom, não vão pagar suas contas, colocar comida no prato ou ainda bancar sua diversão. Tudo isso enquanto seu superior fica ainda mais rico...

Fred, então, fica responsável por apresentar aos novos parceiros uma vida de luxos que eles nunca vão ter, com comida cara, lutas estilo UFC e tudo mais, atordoando os caras para o fato de que a vida deles ainda é uma merda.

Uma merda também é o trabalho. Todos odeiam, inclusive os neandertais. E quando eles recebem o salário, em dinheiro, vem outra sacada ótima. “O que faremos com isso?”, um deles questiona. “Comprar coisas que outras pessoas odiaram fazer”, responde Fred.

Também foi atualizado o Clube dos Búfalos D’Água. Se antes o grupo era uma paródia da Maçonaria, virou uma crítica aos grupos de ex-militares, tão comuns nos EUA atual. Gente que lutou pelo país, pela “liberdade”, mas que hoje luta para não ser um pária da sociedade. Um papo deprê, mas que reflete muita gente. E que deixa os neandertais chocados, claro.

No final — e, apesar disso ser um spoiler, o legal é ler pra saber como chegaram até lá — os neandertais desistem do trabalho. O motivo? “Parece que todo o ponto sobre a civilização é ter alguém matando no seu lugar”. Pois é.

A história tem seus problemas, sim, mas fazer essa crítica da vida moderna é algo interessante, rico, e que nem sempre os gibis dos EUA conseguem fazer no mainstream. É impossível não se sentir um neandertal. Ou não perceber que o Fred consegue ser mais manipulável do que aqueles que estão ali para ser manipulados.

A arte de Steve Pugh também cumpre bem seu papel. É bem menos cartunesca que a série original, e deixa tudo com um ar de vida real, algo que a história pedia.

No fim, todo o ponto dessa edição é sobre destino, e sobre a imagem que ficará para as gerações seguintes. Morrer como um herói, mesmo sem ser merecido, ou viver para explorar os outros e ser odiado por todo o sempre?

Prefiro continuar lutando para não ter que ser obrigado a escolher um destes caminhos.

E então que parece que NÃO vai mais ter Billie Eilish no #Lolla. Mas também parece que vai ter Billie Eilish no Brasil SIM, sozinha, em "locais grandes". https://t.co/dRXQ1s2KTW