Segunda temporada de Titans começa fazendo sessão de terapia | JUDAO.com.br

A série do DC Universe sobre o grupo de jovens heróis retorna parecendo querer rediscutir o tom equivocado da irregular temporada anterior. AINDA BEM.

SPOILER! Olha só, vamos esquecer por um minuto que a temporada 2 de Titans estreou, depois do gancho misterioso deixado no final da 1, numa espécie de anti-clímax. Tudo se resolve de um jeito meio estranho, automático até, sem a apoteose que se esperava: além dos efeitos do Trigon transformado em sua forma demoníaca serem pavorosos de ruins, a luta entre ele e a filha Ravena, que deveria ser UAU, é nada além de NHÉ.

Mas, no fim, não é isso que realmente importa, acredite em mim. A graça de verdade está em analisar o discurso todo, em prestar atenção em como a trama deste episódio inaugural se desenhou de fato, nos levando diretamente para a criação OFICIAL destes Novos Titãs de um jeito finalmente bastante interessante. Dominados por um Trigon que mexe com o lado mais sombrio de cada um deles, nossos heróis encaram as trevas de seus passados e se pegam não apenas envergonhados delas mas também querendo, enfim, entendê-las e tornar-se pessoas melhores.

Pois quando o diabão é jogado para a dimensão de onde veio, os Titãs veteranos meio que se separam, querendo reavaliar suas próprias existências e o que fizeram até ali, deixando a responsa de treinar e cuidar da molecada (no caso, Ravena e Mutano) nas mãos de Dick Grayson. E por conta de Jason Todd ser apenas Jason Todd (em dez minutos de episódio, aliás, ele rapidamente já se distancia da violenta imagem mais Damien Wayne que caía sobre ele nas primeiras aparições), um senhor de nome Slade Wilson percebe que é hora de sair da aposentadoria. Vixe.

O caso é que este tal lado sombrio foi JUSTAMENTE o que não os roteiristas mais abraçaram ao longo de toda a primeira temporada, fazendo com que os 11 episódios fossem num total beeeeeeeem irregulares, soando um tanto como um grotesco spin-off de Batman vs Superman, meio que vivendo no mesmo universo de músculos saltados, dentes trincados e “quero ser brutaaaal” que marcou a fase DC nos cinemas pré-Shazam! e Mulher-Maravilha.

E o que este season premiere traz de bacana é justamente uma autoanálise, quase como se os roteiristas estivessem dizendo “legal, pegamos pesado mesmo, queríamos que vocês nos levassem a sério, acho que demos uma exagerada, melhor segurar a bronca a partir de agora”. E se esta sensação se prolongar ao longo de toda esta segunda temporada, bom, acho que temos uma ÓTIMA notícia aqui.

Ajude o JUDAO.com.br continuar desafiando a cultura pop. Assine!
A partir de R$5 por mês.

Mais do que ossos quebrados e sangue espirrando pra todos os lados, este S02E01 se foca nos personagens. Pode parecer óbvio, mas era o que realmente faltava até agora, ainda mais sabendo que o elenco vai aumentar, com Aqualad, Superboy, Devastadora, enfim. Deixemos as caras de malvados de lado e vamos mostrar o relacionamento de toda esta galera, os amores, as desilusões, os questionamentos, as mágoas, as piadinhas, os beijos, os abraços.

Tudo que faz deles, conforme a Ravena bem disse, UMA FAMÍLIA.

Fodam-se as lutas, os poderes e esta merda toda. Isso é segundo plano. Já não era hora, em nome de Bast, de aprender que o que importam são as pessoas por baixo das máscaras e das roupas colantes multicoloridas? Isso não é, como muita gente insiste em dizer, uma “fórmula Marvel”. Isso é o único jeito possível de contar uma história — porque seres humanos querem ver dramas humanos, com os quais consigam se identificar.

Talvez, assim, apenas talvez, e eu posso inclusive estar sendo bem Poliana MESMO ao afirmar isso, mas TALVEZ alguém tenha aprendido alguma coisa com a Patrulha do Destino, né? ;)

Titans parece entender que já passamos desta fase dos aspirantes a fodões e aparentemente quer aplicar um pouco mais de humor e leveza ao clima da série. Nada exagerado, mas tem ali uma sutileza que faz a diferença. Assim que Dick chega ao que parece ser a Torre Titã com os três mais jovens da patota (inclua aí também o próprio Robin atual, um Jason Todd que veio a tiracolo atendendo a um pedido do Batman em pessoa), deixando claro que agora ele mesmo assumiu o papel de paizão/mentor, tem algo CLARAMENTE diferente no ar.

Tanto é que o GRANDE momento deste episódio é um diálogo. Sem codinomes e uniformes. Quando Dick Grayson enfim retorna à Mansão Wayne e se senta pra conversar com seu pai adotivo, Bruce Wayne — no caso, um Iain Glen classudo e cheio de pequenas ironias, muito diferente de qualquer Morcegão que já tenhamos visto nas telonas.

Despidos de seus alter-egos, Bruce e Dick meio que lavam a roupa suja sobre os motivos de seu primeiro pupilo ter abandonado Gotham, a missão de vigilante e seu parceiro. E quando o eterno primeiro Menino-Prodígio afirma que quer deixar seu lado trevoso pra trás, que quer aprender a controlar a sua raiva sem necessariamente direcioná-la como culpa para alguém, ele parece ser a voz dos produtores falando sobre a própria série. E faz um sentido da porra.

Tá meio claro que, em algum momento desta segunda temporada, Dick Grayson vai enfim encontrar sua própria identidade e deixar o uniforme de Robin integralmente pro Jason, se tornando enfim o Asa Noturna... coisa que os espectadores (eu incluído, confesso aí) parecem esperar ansiosamente. Mas, no fim, o que eu quero ver DE VERDADE, com ou sem Asa Noturna, é o supergrupo mais interessante da DC — mal aí, Liga da Justiça; perdão pelo vacilo, Sociedade da Justiça — ganhando liberdade para poder ser ele mesmo.

Para poder contar boas histórias que não sejam mera cópia dos gibis mas tampouco um pastiche do que de pior existe nas produções recentes estreladas por super-heróis. Não precisa ser Arrowverse? Tá bom, se a ideia é se distanciar daquele coletivo de séries, que seja. Mas para se posicionar desta forma, não tem necessidade alguma de querer tornar este grupo num bando de clones do Frank Castle, né? Dá pra tentar encontrar uma linguagem própria num mundo que, definitivamente, não precisa de mais um bando de malucos de roupa de couro achando que são júri, juiz e executor. Quando a gente lança luz sobre os personagens, até as suas sombras se tornam mais interessantes.

Um primeiro passo aparentemente foi dado. Veremos daqui pra frente.