Um estudo profundo sobre sociedade e insanidade | JUDAO.com.br

Um filme cru que não justifica as ações do seu protagonista e nos faz refletir sobre o declínio de uma sociedade doente

Um dos filmes mais aguardados e comentados de 2019, Coringa finalmente chega aos cinemas com um ENSURDECEDOR debate sobre violência e saúde mental, no meio de um momento de profunda falta de fé e esperança na sociedade.

Dirigido por Todd Phillips, somos apresentados à uma variação da história de origem do vilão clássico da DC Comics e conhecemos Arthur Fleck, um homem que trabalha se apresentando como palhaço, mas tem o sonho de se tornar um comediante de sucesso. Vivendo em uma Gotham City tradicionalmente miserável, algo próximo da Nova York dos anos 1980, Arthur é assediado em seu trabalho e ignorado por seus colegas, que o acham esquisito demais para se aproximar dele.

O homem tem depressão crônica diagnosticada e depende da assistência do Estado para ter acompanhamento médico e conseguir seus medicamentos prescritos, mas eles dificilmente ajudam em sua instabilidade mental.

Tentando tirar o melhor do pouco que a vida lhe oferece, Arthur cuida de sua mãe doente que sempre o instigou à ser feliz e gentil com os outros, mesmo que a maioria das pessoas ao seu redor não retornem o sentimento. O grande ponto é que, ainda que tente levar este mantra adiante, o sujeito vive em uma cidade que borbulha de indignação pela discrepância entre ricos e pobres, então todos vivem infelizes.

A vida de Arthur é uma sequência de infelicidades, decepções e desesperança, mas ainda assim ele se esforça para se enquadrar nos padrões dessa sociedade distorcida. A virada do protagonista começa quando sua vida vai então desmoronando e sua saúde mental se torna cada vez mais instável, principalmente quando a cidade corta o financiamento para a clínica na qual Arthur faz o seu tratamento. Ali tudo vai por água abaixo.

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Coringa é um filme doloroso, inquietante e perturbador – inegavelmente magnífico visualmente pelas mãos do diretor de fotografia Lawrence Sher -, que causa uma imensa ansiedade ao vermos a construção de alguém com sérios problemas psicológicos pegar um caminho sem volta em direção à psicopatia. Essa é uma história sombria e verdadeiramente trágica sobre um homem danificado além do reparo e sem a devida atenção de quem deveria ajudá-lo.

Esqueça todas as interpretações cinematográficas anteriores do personagem, porque essa é a versão mais macabra e assustadoramente verossímil do vilão. Um grande trunfo da produção é você nunca pensar na memorável interpretação de Heath Legder em O Cavaleiro das Trevas, que definitivamente não é comparável à essa nova versão dolorosa, profunda e cheia de camadas em sua caminhada para se tornar o Coringa que (quase) conhecemos.

Phoenix entrega uma interpretação angustiante e fascinante nesse material que é um estudo de personagem sobre a insanidade. Desde o início, Arthur parece sinistro e fora do lugar, mesmo em sua tentativa desigual de se enquadrar em uma sociedade já distorcida. E detalhe que, sim, existe um equilíbrio em Coringa que é fundamental para não legitimar as ações do protagonista, ainda que possamos simpatizar com alguns traumas da sua vida.

Habilmente, a película caminha cuidadosamente em uma linha fina entre tornar o personagem um pouco simpático aos nossos olhos e mostrar que ele é uma pessoa perigosa, mesmo com sua inicial persona enganosamente mansa. Mas não se engane: Coringa, o personagem, é um vilão e o roteiro soube apontar o momento EXATO em que ele ultrapassa essa linha. É como se a câmera nos dissesse: “está vendo o que ele fez? Nenhum herói faria isso”.

Phillips soube introduzir cuidadosamente elementos essenciais da história do Batman que podem verdadeiramente te surpreender e até refrescar um enredo já bastante conhecido. Mas, se trocássemos os nomes dos personagens, Coringa funcionaria facilmente como uma história independente e sem qualquer ligação com os quadrinhos. E é exatamente por isso que o filme acerta tão bem: ele não segue regras já estabelecidas pelos heróis no cinema atual.

Coringa parece se passar em uma Gotham retrô, mesmo carregando características atemporais — seja por sua narrativa pertinente ou pelo trabalho do designer de produção Mark Friedberg, que se preocupa em não ser óbvio demais sobre o tempo em que a história se passa. Existem detalhes visuais escolhidos a dedo que colaboram para a construção dessa história, como a cidade degradada e pronta para explodir à primeira faísca.

A história soube utilizar muito bem a tradicional característica do vilão que é ser um verdadeiro agente do caos. Suas ações reverberam pela cidade mesmo que ele nunca tenha pensado previamente em se tornar o símbolo de algo. A situação que ele cria está muito além do que desejou e fala muito mais sobre uma cidade destruída do que sobre a influência da sua própria psicopatia sobre essas pessoas.

Em entrevista para o site The Wrap, Phillips comentou que estava surpreso com a repercussão negativa da sua história, porque acredita que o cinema precisa criar discussões, principalmente sobre violência. Neste ponto, ele não está errado, porque Coringa é perfeito para discutirmos até que ponto chegamos como sociedade para vermos um óbvio vilão como um herói. Um símbolo. Um mito.

Basicamente, é sobre o quanto precisamos estar oprimidos e enraivecidos para apoiar e reagir positivamente à violência. Mesmo quando a população finalmente reage à sua degradante situação, dificilmente vemos uma união real do povo por mudança. É um ato puramente violento e anárquico, sem organização, sem líderes.

Coringa é um filme cru que não justifica as ações do seu protagonista e nos faz refletir sobre o declínio de uma sociedade doente e completamente perdida em sua própria desgraça. A angústia e o peso que você, espectador, sentirá no final é um sinal de que o filme valeu a pena.