Um filme tão doce e amoroso que parece um abraço quente | JUDAO.com.br

Ainda assim, Greta Gerwig consegue fazer um filme que ressoa sobre o direito de qualquer mulher escolher o que quiser fazer de sua vida.

Dificilmente um livro clássico passa impune de adaptações cinematográficas em Hollywood. Com Mulherzinhas, romance escrito pela autora norte-americana Louisa May Alcott publicado em dois volumes em 1868 e 1869, não foi diferente. A história, que detalha a passagem da infância lúdica para a vida adulta das quatro irmãs March, é vagamente baseado na autora e em nas próprias irmãs.

Essa não é, porém, a primeira adaptação. Essa história já foi contada no cinema em 1917, nas o filme mudo dirigido pelo britânico Alexander Butler acabou se perdendo no tempo. Desde então, o livro ganhou outras seis adaptações diferentes com atrizes como Katharine Hepburn, Elizabeth Taylor e Winona Ryder, além de versões para a Broadway, para a televisão e até óperas. Em 2019, foi a vez da impressionante Greta Gerwig entregar uma adaptação reformulada do conto clássico.

O livro segue as quatro irmãs, Meg, Jo, Beth e Amy, que vivem com sua amada mãe Marmee, lutando para sobreviver durante a Guerra Civil Americana. Enquanto o pai está na guerra, as jovens formam um vínculo com Laurie, um jovem vizinho que mora com o avô rico, além de lidarem com a tia March, uma senhora idosa um tanto julgadora que tenta orientar as jovens a conseguir um bom casamento com um homem de posses.

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Para qualquer um familiarizado com o livro e as diversas adaptações, a versão de Gerwig será uma surpresa, já que a roteirista e diretora reorganizou a história adicionando cenas que contextualizam a vida atual das personagens, como momentos de Jo batalhando como escritora em Nova York e Meg casada e convivendo com problemas financeiros. Retirando alguns personagens secundários originais, o foco de Gerwig é essencialmente a família March, principalmente nessas jovens mulheres crescendo e aprendendo sobre vida e escolhas.

Com uma narrativa constantemente indo e voltando no tempo, Adoráveis Mulheres mostra os eventos mais importantes da lúdica infância que moldaram suas personalidades e escolhas na fase adulta. Essa é uma história muito bonita sobre família, amor, sacrifícios e desafios que temos que fazer à medida que perdemos o véu de inocência da infância. E assim como a vida, o longa ganha contornos mais profundos e complicados com o avanço da narrativa, mas Gerwig é certeira em cada ponto. Entretanto, a cineasta também entende a importância da união dessas irmãs independente da adversidade ou das personalidades conflitantes.

Adoráveis Mulheres tem um elenco verdadeiramente alinhado em contar essa história no tom certo, desde as personagens principais até o time de apoio. Finalmente vemos Emma Watson em seu melhor desempenho e personagem desde o final da franquia Harry Potter ao interpretar uma mulher que se casou por amor, mas precisa lutar diariamente contra as adversidades de uma vida longe de ser abastada. Mas, até pelo tempo que passa em tela, Saiorse Ronan é um dos grandes destaques. Sua Jo tem um forte espírito livre com um enorme senso de independência e um grande coração, mas constantemente se deixa levar pelo temperamento incandescente. Repare como Ronan raramente está parada em suas cenas e sua energia nervosa é gritante. Existe uma profunda e sincera humanidade em Jo que a distância das tradicionais personagens literárias que sofrem com o acaso e nunca tem culpa da própria sorte, o que a torna muito relacionável – essa é uma herança do romance que foi reforçada nessa nova adaptação.

Não é à toa que Gerwig abre e fecha com o foco em Jo. Além de uma das personagens principais, ela também é a narradora da própria história, algo que a personagem sempre quis ser. No entanto, a interpretação mais surpreendente é de Florence Pugh como Amy, a irmã mais nova. Assim como acontece no romance, as adaptações anteriores a mostravam como uma criança mimada e vaidosa, algo que a personagem realmente demonstra ser durante sua infância.

Nas mãos de Pugh e com a orientação de Gerwig, Amy se transforma em uma adulta inteligente e com raciocínio prático, algo muito característico da própria Jo, apesar de cada uma ter uma conduta diferente. Enquanto Jo se rebela contra o tradicional sistema em que o casamento é o único caminho para as mulheres, Amy entende que essa é a melhor forma de ter uma vida confortável e segura. Ela é muito consciente do papel que esperam de uma mulher nessa sociedade e decide exercê-lo por escolha – mesmo que saiba que essa pode ser a ÚNICA escolha: “Vou me tornar um ornamento para a sociedade”.

Além de Amy e Jo, Adoráveis Mulheres celebra todos os diferentes tipos de mulheres e dá espaço para cada uma delas brilhar do seu jeito. E esse é o cerne do feminismo, a opção da mulher ser o que quiser e como quiser porque é SUA ESCOLHA. Essa escolha é um ponto muito importante do filme de Gerwig e é mostrado de diversas formas no decorrer da narrativa. Claro que essa ainda é uma sociedade restrita e a família March faz o que pode para seguir seu próprio caminho, mas é refrescante ver como Gerwig dá toques atuais à esse enredo.

Fazendo um belíssimo tributo à Alcott, Gerwig faz de Adoráveis Mulheres um filme doce e amoroso que parece um abraço quente, mas ainda ressoa sobre o direito de qualquer mulher escolher o que quiser fazer de sua vida.