Um lamento sobre como o Cinema é sagrado | JUDAO.com.br

O Cinema pode ser sobre um monte de coisas. Todas essas coisas giram em torno da experiência humana, como qualquer arte. O Cinema, muitas vezes, pode ser sobre o Cinema.

SPOILER! O Cinema de Quentin Tarantino, esse com C maiúsculo, é, em primeiro lugar, sobre o Cinema. Sobre a narrativa, sobre a mídia, sobre a cultura ao redor e sobre como esse lugar sagrado gera santos e demônios, sendo o próprio Tarantino um santo (ou demônio), inventado por uma igreja sem janelas e com um só altar.

Com o passar do tempo e a chegada da idade, Tarantino foi enxergando mais camadas na relação entre o público e a Tela Grande. Ou qualquer tela que nos transporte, por assim dizer. Em Era Uma Vez em Hollywood, por exemplo, as pessoas vivem através das telas, mesmo que quem estejam vendo sejam elas mesmas.

Quando anunciou que ia fazer um filme focado nos assassinatos cometidos pela Família Manson, todo mundo pensou no tradicional banho de sangue tarantinesco. Mas houve quem tenha pensado também num outro aspecto, algo que também não era de escapar ao cineasta. Quando Sharon Tate e seus amigos foram mortos pelos hippies insanos a mando de Manson, a cultura norte-americana como um todo deu um tropeço. Aquele foi o verão que mudou tudo. Uma tragédia inesperada, explorada pela mídia de maneira exaustiva, com detalhes horrendos, ainda mais por ter atingido gente rica, famosa e querida, gente aspiracional. Daria à luz à década de 1970, que já tinha a Guerra do Vietnã para manter tudo nas trevas. Manson foi o último prego no caixão.

É um pouco difícil para nós brasileiros entendermos o impacto que esse crime teve no dia a dia do americano médio, aquele cara que assistia TV, cinema, ouvia música disco e rock’n roll. Foi como se morresse um herói nacional. O nome de Charles Manson virou adjetivo. Os detalhes daquela noite foram elevados a folclore. Na noite seguinte, o grupo de assassinos mataria ainda duas outras pessoas, totalizando sete (incluindo o bebê de Tate, que estava grávida de 9 meses), colocando a capital do cinema do mundo em um pânico sem precedentes.

Tarantino é inteligente demais, e tem coisas interessantes demais a dizer (mesmo que nem sempre coesas ou relevantes) para simplesmente fazer um banho de sangue com uma mulher grávida sendo esfaqueada até a morte. Ele prefere olhar para sua cidade sagrada e contar uma história humana sobre heróis construídos e como mesmo esses heróis vivem e morrem. Leonardo DiCaprio e Brad Pitt são dois cidadãos comuns dessa Meca: um ator e seu dublê/faz-tudo/melhor amigo, entre os altos e baixos de passar pelos anos como um performer. Você pode estar na moda e você pode sair de moda. O que não pode é desencontrar a sua percepção da sua própria imortalidade com a realidade.

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Lentamente, vemos três dias da rotina de Tate, papel de Margot Robbie, e os personagens de DiCaprio e Pitt, no caso respectivamente Rick Dalton e Cliff Booth. Vemos dramas perfeitamente corriqueiros para o povo da classe artística de Hollywood, em especial da ilusão que Dalton ainda alimenta de que pode e precisa voltar a ser um astro, depois de ter a carreira em queda por anos. Booth é simplesmente um parceiro incorrigível, ouvido, ombro e dedo na cara para tentar limpar um Rick Dalton afundado em álcool, neurose e depressão. Sharon Tate, por sua vez, vive a vida de uma atriz em ascensão – festas com seu marido famoso (Roman Polanski!), cercada de amigos famosos (Bruce Lee!! Steve McQueen!!!).

O que eles têm em comum, além da vida de fama, é que passam um tempo extraordinário olhando para a vida através de algum tipo de tela.

Tarantino joga com a linguagem do cinema, por vezes nos mostrando filmes antigos e reais nos quais o fictício Dalton quase teve o papel principal (com um Leonardo DiCaprio inserido digitalmente), outras vezes nos mostrando os episódios de TV em que Dalton de fato participa. A Sharon Tate de Margot Robbie passa grande parte de seu tempo em tela vidrada na Sharon Tate real, estrelando o filme A Arma Secreta Contra Matt Helm, com Dean Martin e grande elenco.

Sem exceção, todos os personagens passam muito tempo dirigindo seus carros, nadando na música da época, de maneira que, assim como em outros filmes, Tarantino nos confronta com a nossa própria dependência do cinema, da música, da arte. Não como uma coisa necessariamente ruim, mas também não sem um pequeno lamento. Estamos vendo um mundo fantástico numa tela, na qual personagens estão passando seu tempo vendo mundos fantásticos em outras telas, muitas vezes com eles próprios lá dentro. E o quanto sofrem para pertencerem àquele mundo, custe o que custar. O desespero de Dalton não é só por uma questão financeira. Ele precisa voltar a ser alguém, e só será alguém se continuar numa tela, eterno.

Depois de quase duas horas de charme, música, piadas e um sem-fim de referências obscuras à nata do cinema dos últimos 80 anos, os hippies chegam na Cielo Drive, e nós do público não sabemos o que Tarantino vai fazer, apesar de que depois de Bastardos Inglórios, poderíamos suspeitar. Se no filme sobre o pelotão aliado assassino de nazistas Tarantino muda a história em favor de uma vingança cultural histórica, uma justiça poética, violenta, pop e eletrizante ao terminar o filme com um soldado judeu-americano metralhando Adolf Hitler na cara, aqui ele faz algo ao mesmo tempo parecido e completamente diferente.

Sim, os hippies matadores são massacrados da maneira mais dolorosa, violenta, avassaladora e por vezes gratuita. Um cachorro enorme mastiga os testículos de um dos assassinos enquanto Brad Pitt esmaga a cabeça de uma outra contra tijolos — isso pra não falar do lança-chamas de Leonardo DiCaprio, é claro. Mas pelo menos há uma quebra muito significativa na linguagem. Tarantino, até então, estava escondendo sua “tarantinagem”.

Desde Cães de Aluguel até o final de Os Oito Odiados, você sabe que está vendo um filme escrito e dirigido por Quentin Tarantino. Os personagens existem num mundo caricato, um mundo no qual nem as leis da física nem a maneira como as pessoas conversam são normais. É tudo muito mais estético, com a função de extrapolar, tanto em violência como em linguagem. O estilo de Tarantino virou “marca registrada”. Então as primeiras duas horas e pouco de Era Uma Vez em Hollywood parecem um pouco… Naturalistas demais? Vemos uma história que vai se desenrolando lentamente, mas com muito pouco daquele teor estético, frases de efeito e “diálogos tarantinescos”. Estes estão nas telas, nos shows que Dalton filma, na cabeça do povo.

Então a família Manson entra na “casa errada”, e estamos de volta ao mundo de Kill Bill e Pulp Fiction. Sangue, agressividade, viagens de ácido, um lança-chamas. Até mesmo a ação dos personagens foge à realidade com mais vigor, com algumas reações cartunescas destoando de tudo o que víamos até ali.

Dalton termina o filme sendo convidado à casa ao lado. É chamado para ir onde está a imaculada santa Sharon Tate, em sua casa mitológica, que dali em diante, nesse conto de fadas, será só a casa de uma estrela que está recebendo amigos para uma noite de drinks.

A comparação mais recente que vem à mente é, ironicamente, com Spike Lee. Em seu recente e excelente Infiltrado na Klan, seguimos uma história contada por uma lente um pouco diferente do que estávamos acostumados, olhando para a carreira dele. Lances estilísticos, “marcas de assinatura” de menos, e um foco mais tradicional ao seu storytelling que nos levou até a uma cena perto do final que mais lembrava uma Sessão da Tarde: o cara racista do mau é preso, enquanto os heróis riem no bar, depois que a missão foi cumprida. Só que aí, você está desarmado. E no finalzinho do filme, Spike Lee vem chutar você na boca lembrando não só que ele é Spike Lee, mas que o mundo em que você vive não é uma Sessão da Tarde.

Tarantino faz 90% de seu trabalho mais recente ser um “filme mais tradicional”. Mas é exatamente pelo mesmo motivo: na hora H, ele “se liberta”. Mas isso tem uma função, assim como no filme de Spike Lee: nos faz olhar para a história de maneira diferente. Nos tira do filme para que olhemos não só para os personagens e para o filme, mas para o que estava acontecendo ali, no mundo real. É como se ele quebrasse a quarta parede, mas usando sua própria linguagem cinematográfica, tão conhecida de seu público fiel, ao invés de olhar para a câmera. No cinema, esse foi o momento onde o público-fã do diretor mais vibrou.

Só no Cinema é que heróis, santos e a mítica de uma cidade onde sonhos são construídos pode continuar existindo

Tarantino termina o filme mostrando as quatro vítimas originais daquela noite sãs e salvas, encontrando seu herói. Dalton agora está a caminho de um futuro melhor do que o que teria. Então o título do filme aparece e nos joga pra fora do Cinema. ”Era uma vez”. Acabamos de ver uma fábula. Uma fábula que lamenta o fim das coisas, da inocência de um período que deveria ser de paz e de amor. O mundo real é um pesadelo, e só no Cinema é que heróis, santos e a mítica de uma cidade onde sonhos são construídos pode continuar existindo.

Tarantino envelheceu, mas não perdeu seu fio. Tão preocupado em nos cercar com ninjas, mafiosos, nazistas mortos e cowboys violentos, em seu filme mais ambicioso, ele quer nos cercar com a fragilidade que o tempo traz. 1969 foi o fim de muita coisa para a política, para a sociedade, para a ciência, para a cultura, e foi o começo de tanto mais.

E Era Uma Vez em Hollywood é sobre isso. Um lamento sobre como o Cinema é sagrado.