Uma bonita mensagem sobre o poder da aceitação e do perdão | JUDAO.com.br

A mensagem ressoa tão lindamente que vale o risco de embarcar na história de um personagem real tão desconhecido aqui no Brasil, mesmo que você precise fazer uma busca no Google :)

É sempre desafiador para o público brasileiro assistir a um filme sobre uma figura tão conhecida em outro país e quase que completamente desconhecida por aqui, principalmente por ser algo tão pouco relacionável com a nossa realidade. Esse é, portanto, o obstáculo de Um Lindo Dia na Vizinhança, cinebiografia dirigida por Marielle Heller sobre a inesperada amizade entre o apresentador infantil Fred Rogers, ou simplesmente Mr. Rogers, e o jornalista Tom Junod.

O tal Mister Rogers’ Neighborhood foi um programa marcante na vida de diversas gerações de crianças nos EUA. No ar entre 1968 e 2001, a atração abordava temas considerados pesados para os pequenos, como morte, guerra, arrependimento e perdão de uma forma curiosamente apropriada para seres humanos em formação na fase pré-escolar.

Logo nos primeiros minutos, o filme dá o tom da história ao mostrar Mr. Rogers (Tom Hanks) em sua tradicional abertura do programa – ele abre a porta de uma pequena, colorida e aconchegante casa onde tem uma poltrona confortável, um painel de fotos dedicado à pessoas especiais e um reino de bonecos falantes – para nos apresentar seu amigo Lloyd (Matthew Rhys), alguém que Rogers descreve como não ser capaz de perdoar.

A partir daí, o filme segue Lloyd (inspirado em Junod), um jornalista cínico escolhido para escrever um pequeno perfil sobre Rogers em um especial sobre os heróis dos EUA. Acostumado a criar matérias investigativas, ele se incomoda com a tarefa aparentemente ~fácil e, relutantemente, conhece o popular apresentador infantil. Incapaz de acreditar que alguém tão bondoso realmente exista, ele decide descobrir se o ídolo televisivo esconde algum podre, mas acaba entrando em uma jornada de autodescoberta sobre sua própria história de vida.

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O que torna Um Lindo Dia na Vizinhança tão singular é o fato do filme não ser uma cinebiografia sobre uma figura muito conhecida, mas sobre COMO essa figura afetou tão profundamente a vida de alguém. A crescente relação de amizade dos dois homens foi importante para o começo do processo de cura de Lloyd, após o retorno do pai depois de anos de ausência e, principalmente, para o como essa relação complicada afeta o relacionamento do jornalista com o próprio filho recém-nascido.

Partindo do mesmo sistema de aprendizado do programa, Llyod é delicadamente confrontado por Rogers para olhar seus próprios problemas de perto e tentar entendê-los. Sua desgastante jornada emocional é moldada pela filosofia que Rogers usava em seu programa. Brilhantemente, o ápice da sua angústia acontece dentro do castelo de bonecos do cenário do programa, no qual a bondosa Lady Aberlin costumava aparecer para ajudar Rogers a guiar crianças através dos seus próprios sentimentos complicados.

Mesmo sem ser uma cinebiografia focada essencialmente em Rogers, Um Lindo Dia na Vizinhança é uma lindíssima homenagem a este homem que afetou gerações de pessoas, crescidas ou não.

Mas até que esse enfrentamento aconteça, o filme entrega momentos encantadoramente divertidos, focados no encontro do ceticismo de Llyod com a bondade de Rogers. Quando o sagaz jornalista espera conseguir uma resposta mais contundente do apresentador depois de uma pergunta provocadora, Rogers agradece a compreensão de Llyod em pensar como determinada situação o afeta. Mesmo com toda essa doçura, é interessante como o filme deixa claro que Rogers não era um santo, mas um homem empenhado em lidar da melhor forma possível com as próprias frustrações e confrontos.

Parte do sucesso em acreditarmos que aquele homem realmente existia – Rogers faleceu em fevereiro de 2003 – está na interpretação de Tom Hanks, que não se preocupou em simplesmente fazer uma imitação do sujeito, mas sim uma recriação dele. Sua interpretação se molda com a performance de Rhys no papel do filho machucado pelo passado que se fechou para certos sentimentos, mas todos entram em erupção à medida que ele entrevista o apresentador.

Mesmo o filme sendo tão fantástico, a história escrita por Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster pode ser um desafio para o público brasileiro que não conhece Mr. Rogers ou seu programa. Sendo o filme um reflexo do próprio apresentador, os brasileiros que não entrarem de fato no clima podem perder a bonita mensagem de Heller sobre o poder da aceitação e do perdão. Apesar disso, essa mensagem ressoa tão lindamente que vale o risco, mesmo que você precise fazer uma busca no Google depois... ou antes. :)