Deadpool fisgado pelo sentimento do Wham!

Deadpool fisgado pelo sentimento do Wham!

Thiago Cardim

11 de Fevereiro de 2016

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A dupla britânica pode ser mais conhecida por lançar George Michael para o mundo, mas também fez ótima música pop, apesar da vida curta


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Da mesma forma que o grande hit dos suecos do Blue Swede se tornou mais do que música-tema, mas praticamente um personagem de Guardiões da Galáxia, a produção de Deadpool aproveitou a fórmula mágica e tratou de criar uma trilha repleta de velharias pop grudentas para embalar a trama do filme, que estreia nessa quinta (11) no Brasil.

Não apenas o working title do filme foi Wham!, o mesmo nome daquela dupla inglesa de rebolado incrível, como a trama deixa bastante claro que Wade Wilson é fã dos caras, chegando ao ponto de explicar a pronúncia correta para a amada Vanessa – eles têm oficialmente um ponto de exclamação no final, o que deve mudar a sua entonação. WHAM!, não Wham. Entendeu? ;D

Além disso, quando descobre seu câncer, Wade promete para a futura Copycat que o casal vai se encontrar de novo em algum momento, e que ele estará do lado de fora da janela com um boombox tocando... Careless Whisper, numa referência à clássica cena de Digam o que Quiserem, de Cameron Crowe.

PODE SER que você não tenha ligado o nome à pessoa e não faça a menor ideia de que música seja essa. Faça então o favor de dar play logo abaixo – e temos certeza que, assim que o saxofone começar a tocar, quem tem pelo menos mais de 25 anos de idade vai sacar exatamente do que estamos falando. :D

AAAAND agora essa música não sai mais da sua cabeça. ;D

Nascido Georgios Kyrriacos Panayiotou, filho de uma família dona de um restaurante grego em Londres, George Michael conheceu sua cara-metade musical, Andrew Ridgeley, ainda na escola, no subúrbio londrino de Bushey. Em 1979, eles se envolveram com uma pequena banda de ska chamada The Executive, ao lado de outros três colegas. O projeto durou pouco, mas Michael e Ridgeley quiseram continuar neste lance aí de música.

Tudo bem que, mesmo ainda adolescente, George Michael era o grande cérebro responsável pelo que viria a seguir, atuando como compositor principal e ainda produtor, cantor e músico instrumental ocasional, mas eles acabaram se tornando uma dupla, que procurou um selo independente chamado Innervision com algumas versões demo de canções debaixo do braço. O nome da empreitada era Wham!, que eles descreviam como sendo o barulho que Michael e Ridgeley faziam quando se apresentavam juntos. Meio que um BOOM, saca?

Vendendo a si mesmos como um duo de rebeldes, dois jovens hedonistas orgulhosos de uma vida sem trabalho ou compromisso, rapidamente se tornariam um sucesso na Inglaterra – e a faixa Wham Rap!, de seu primeiro álbum Fantastic (1983), virou um hit na Terra da Rainha. Quando foram tocar Young Guns (Go for It!) no famoso programa Top of the Pops, as meninas adolescentes rapidamente piraram no visual e na atitude dos dois caras, considerados desde então os precursores das boy bands que surgiriam aos montes nos anos 90. Ao final daquele ano de 83, já eram oficialmente páreo para outros sucessos pop britânicos como o Duran Duran e Culture Club.

Não demoraria até que Ridgeley descobrisse alguns probleminhas legais no contrato dos dois com a Innervision, o que acabou fazendo com que eles tivessem de abrir mão dos royalties de seu álbum de estreia pra poderem assinar com a Epic e seguir em frente.

Para o Wham!, honestamente, não foi grande questão – já que, em 84, viria seu segundo disco, Make It Big, com o esmagador sucesso de Wake Me up Before You Go Go (olha só, e não é que o refrão começou a tocar imediatamente na sua cabeça?). Foi aí que a dupla explodiu de fato nos EUA, onde foi rebatizada durante algum tempo de Wham! UK, porque rolaram tretas de direitos autorais com uma banda IANQUE com o mesmo nome. Isso impediu que eles colocassem seu single em primeiro lugar nas paradas? Mas de jeito nenhum! :D

Wham!

Em março de 1985, o Wham! quebrou mais um recorde ao embarcar numa turnê mundial que incluiu uma surpreendente passagem de dez dias pela China – a primeira na história realizada por um grupo pop ocidental. Rolou até do diretor inglês Lindsay Anderson acompanhar nossos heróis, para realizar um documentário sobre a visita. Aos 45 do segundo tempo, no entanto, o filme batizado de If You Were There, passou por uma reviravolta: nos estágios finais da edição, Anderson foi demitido, a produção foi inteiramente re-editada e rebatizada, agora como Foreign Skies: Wham! In China. Tudo resultado da mão de ferro de um dos seus empresários, Simon Napier-Bell.

A separação do Wham!, aliás, também pode ter tido um dedinho de Simon. Reza a lenda que, quando o sujeito decidiu vender uma parte de seus direitos de gerenciamento para um conglomerado sul-africano, Michael e Ridgeley ficaram putos da vida – afinal, eles eram contra as políticas de apartheid praticadas pelo governo do país na época. De qualquer maneira, sendo este motivo real ou não, o fato é que o fim da dupla, depois de cerca de cinco anos de carreira, era inevitável graças ao sucesso da carreira solo de George Michael, focada num público muito mais adulto e “sofisticado” do que a audiência teen primária do Wham!.

A separação foi amigável, não rolaria sem um single de despedida (The Edge of Heaven), um último disco de greatest hits (The Final) e, claro, um show de adeus – que, no caso, aconteceu no dia 28 de junho de 1986, em Wembley, diante de 72.000 pessoas. Ao todo, foram mais de 25 milhões de álbuns e mais de 15 milhões de singles vendidos, números bastante expressivos para uma dupla de carreira tão curta. Os dois se encontrariam nos palcos algumas vezes nos anos que se seguiriam, incluindo um dueto emocionado de seus maiores sucessos no bis do show de George Michael na 2a edição do Rock in Rio, em 1991.

PoOOoOooODCAST!

Sobre a carreira de George Michael, bom, nem tem muito o que dizer, já que o cara virou um verdadeiro ícone pop, muito maior do que o próprio Wham! foi. Já Ridgeley se mudou para Mônaco depois da separação e tentou uma carreira na Fórmula 3 — primeiro fracasso. Então, se mudou para Los Angeles, onde tentou seguir uma carreira como cantor e ator — segundo fracasso. Em 1990, então, voltou para a Inglaterra. Lá, lançaria seu primeiro disco solo, Son of Albert. Adivinha só? Terceiro fracasso. Aí, o cara acabou se aposentando de vez dos holofotes musicais, mas se manteve como compositor de aluguel para diversos cantores/bandas, sempre atuando sob pseudônimos.

Vocês já assistiram aí ao filme Letra e Música (2007), com Hugh Grant e Drew Barrymore? Então, o personagem de Grant, Alex Fletcher, fez parte de uma dupla de sucesso nos anos 80, o Pop, que é claramente inspirada no Wham!. No caso, Fletcher é a representação cinematográfica de Ridgeley, o lado “menos famoso” da dupla.

Tá, mas e Careless Whisper?

Curiosamente, esta é uma das poucas canções cuja autoria não consta como sendo apenas de George Michael, mas também de Andrew Ridgeley. A dupla começou a trabalhar nela quando ainda eram desconhecidos, três anos antes do lançamento, em Watford.

A primeira versão surgiu durante uma visita de Michael à cidadezinha de Muscle Shoals, no Alabama. Lá, ele trabalhou na canção ao lado do produtor Jerry Wexler no Muscle Shoals Studio – mas não ficou satisfeito com o resultado. Aí, decidiu regravar e produzir a dita cuja por conta própria, resultando na versão que finalmente foi lançada. Aliás, vejam, a canção saiu antes como o primeiro single solo de George Michael, no mesmo ano em que entraria no álbum Make It Big, do Wham!. Justamente para evitar confusão, ainda mais no momento em que a dupla começava a explodir nos EUA, o single solo acabou sendo creditado como Wham! featuring George Michael.

Inicialmente na Inglaterra, a música entrou na 12a posição nas PARADAS DE SUCESSO, mas, em duas semanas, conquistou o topo. Aliás, ela foi a número 1 em cerca de 25 países, incluindo os EUA. Lá, se manteve no auge ao longo de três semanas consecutivas, garantindo o título de “maior canção de 1985” concedido pela revista Billboard.

O saxofone é tocado pelo músico de jazz Steve Gregory, conhecido por tocar também com bandas como The Animals e o Queen (ele tocou o solo em One Year of Love, do álbum A Kind of Magic). Ele foi o décimo músico a tocar o riff escrito por Michael, e o primeiro a conseguir entregar o resultado que ele realmente estava esperando.

Careless Whisper

Em sua autobiografia, Bare, George Michael acaba com a graça dos fãs e revela que Careless Whisper não é uma canção dor de cotovelo baseada em um acontecimento real da vida do cantor, em que ele reconheceria uma traição. “Na verdade, nada daquilo foi parte integral do meu desenvolvimento emocional”. Tudo é ficção, criada por um George de 17 anos dentro de um ônibus, a caminho de mais um dia de seu emprego como arrumador de uma sala de cinema.

“Sabe, ainda fico intrigado ao ver o impacto que esta música causa nas pessoas”, afirmou ele, em entrevista para a revista The Big Issue, em 2009. “Será por que tantas pessoas já traíram seus parceiros? É por isso que elas se conectam? Não tenho ideia, mas chega a ser irônico que esta música – que me definiu, de alguma maneira – tenha sido escrita no começo da minha carreira, quando eu ainda era muito jovem. Eu tinha só 17 anos, e não sabia muito sobre quase nada. E, certamente, menos ainda sobre relacionamentos”.

Mas sabe, George Michael, SEU LINDO, acho que você já sabia bastante sobre música, viu? ;)

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