Filmes que você provavelmente nem imaginava que eram independentes... Mas são. | Judão

Tem muita produção que fez parte da sua vida, da sua história, que marcou a cultura pop pra valer… e que foi, sim, produzido com pouca grana e sem apoio de grandes estúdios

Quando a gente usa a expressão “filme independente”, o que vem na sua cabeça? Talvez uma trama urbana, intimista, Mary Elizabeth Winstead, Aubrey Plaza, fotografia estourada e saturada, com uma dose de humor ácido mas muuuuuuuito drama, uma trilha sonora repleta daquelas bandas que ninguém conhece até o momento? Ou quem sabe um lance até mais cabeça, cerebral, com cerca de dois diálogos de cinco minutos e duas horas e meia de tomadas no deserto, ao som do vento soprando sem parar, pura poesia visual?

Bom, até que você não tá errado. Mas “filme independente” nem sempre é sinônimo de “filme de arte”. Nunca foi, aliás, esquece isso. Filme independente pode ser ficção científica, aventura, fantasia, musical, religioso, terror... E até uma comédia teen, veja você.

Filme independente vem em todas as formas, tamanhos e gêneros. Saiu do esquema dos estúdios major, aqueles gigantescos, as Warner, Fox, Sony, Paramount, Universal, Lionsgate da vida, é independente. Foi nesse esquema que os maiores cineastas do planeta, hoje cultuados como mestres da Sétima Arte, começaram passando perrengues como independentes, com orçamentos apertados, mas insistiram, PERSEVERARAM e conseguiram não apenas lançar suas obras, mas também transformá-las em ÍCONES que podem até ter sido comprados mais tarde por um grande estúdio, só que teve as sementes plantadas de um jeito BEM diferente.

Aqui temos a história de OITO destas obras, começando com o que talvez seja a principal de toda essa história...

| Star Wars (1977)
Olha só, tamos falando da franquia suprema, de uma verdadeira máquina de merchandising, da verdadeira QUINTESSÊNCIA da cultura pop... Que foi rejeitada por uma galera lá nos primórdios.

Depois do seu sci-fi inaugural, THX 1138 (1971), George Lucas tava no barato de adaptar o Flash Gordon de Alex Raymond, mas não conseguiu os direitos. Depois da United Artists abrir mão do seu Loucuras de Verão (1973), ele conseguiu se garantir na Universal, que não tava querendo nada daquela coisa “muito estranha” de space opera que o sujeito tava querendo vender junto.

A Disney (AH, A IRONIA) também mandou Lucas passear. E aí ele conseguiu que Alan Ladd, Jr., chefão da 20th Century Fox na época, apostasse NELE, no jovem e promissor cineasta e não tanto na caceta da história; no moleque que já tinha investido o seu tempo, que já tinha depositado suas fichas naquele roteiro, que adotou aquele projeto como SEU e que recebeu uma grana pequena pros padrões da época, por volta de US$ 10 milhões, fazendo o negócio render NUM TANTO, que o Ladd, com seus quase 80 anos, deve pensar até hoje no acordo brilhante que fechou na década de 70...

A Fox, pelo menos, com certeza agradece — o chamado Episódio IV tem seus direitos ETERNAMENTE atrelado ao estúdio.

| Halloween (1978)
Um dos maiores clássicos do cinema de horror e aquele que é, definitivamente, o slasher supremo, total e absoluto.

Depois de assistirem ao filme Assalto à 13ª DP (1976), no festival de Milão, o produtor Irwin Yablans e o financiador Moustapha Akkad foram atrás de John Carpenter pra dirigir um filme sobre um assassino psicótico que matava babás, buscando algo tão impactante quanto O Exorcista. O orçamento que deram nas mãos do cara? US$ 300.000, sendo que o próprio cineasta levou US$ 10.000 pra casa para não apenas dirigir, mas também escrever o roteiro e ainda compor a trilha-sonora. O pacotão ainda se completava com a promessa de 10% dos lucros do filme, rodado em apenas 20 dias.

E aí que Halloween fez nada menos do que US$ 47 milhões em todo o mundo, gerou sete sequências (a última delas, Halloween – Ressurreição, com um orçamento de US$ 15 milhões), dois remakes e mais um reboot já devidamente prometido.

| O Exterminador do Futuro (1984)
Tudo começou com um sonho — neste caso, sobre um corpo metálico com facas de cozinha (!) saindo de uma explosão. Ou algo assim.

O ponto é que James Cameron curtiu a imagem e, lembrando da história descrita acima, sobre John Carpenter, meteu as caras e começou a escrever um slasher (mais ou menos) estrelado por um robô. Depois que ele apresentou a ideia ao seu agente e o cara achou uma bosta e sugeriu mudanças, Cameron demitiu o camarada e partiu pra cima.

A primeira pessoa a se interessar pelo roteiro, depois de pronto, foi um certa Gale Anne Hurd, que tinha sido assistente do mestre do B Roger Corman. Aí, o diretor foi ousado e vendeu os direitos de filmagem pra ela por US$ 1 (isso aí), desde que ela prometesse que só produziria se ELE fosse o diretor. Malandrinho...

Ambos tinham amigos na Orion Pictures, parte da MGM. Eles topariam distribuir, se Cameron e sua turma descolassem financiamento pra PRODUZIR o filme em outro lugar. E ele viria das mãos de John Daly, presidente da Hemdale Film Corporation: US$ 4 milhões, que depois viraram US$ 6.5 milhões... e renderiam quase US$ 80 milhões nos EUA e internacionalmente.

| O Garoto do Futuro (1985)
O Atlantic Entertainment Group era um estúdio independente, especializado em filmes de arte e que chegou a lançar, vejam vocês, A Dama do Lotação em território americano, ajudando a tornar Sonia Braga um nome conhecido por lá. Mas o inesperado sucesso de Sonhos Rebeldes, produção teen de 1983 com Nicolas Cage, fez os executivos se interessarem bem mais por pequenas produções indies, de orçamento reduzido, focadas neste público jovem.

Aí, um jovem chamado Jeph Loeb (é, ele mesmo, roteirista de quadrinhos e atual FODÃO da Marvel Television) foi convocado e veio com esta ideia maluca sobre um adolescente que vira lobisomem. Acabou que o protagonista precisava ser alguém com talento e carisma — e Michael J.Fox topou a empreitada, com duas condições: 1) o pagamento teria que ser bem OK; 2) ele teria que gravar em no máximo quatro semanas e ter tempo de voltar para as filmagens de sua série, Caras e Caretas (Family Ties). Deu tudo certo.

Sim, GAROTO DO FUTURO é o título nacional de... Teen Wolf

| Dirty Dancing (1987)
A roteirista Eleanor Bergstein era a filha mais nova de um médico judeu de Nova York e sempre passou os verões na região montanhosa de Catskills, onde participava de competições de dança. Parte disso fez com que ela colocasse uma cena mais, digamos, CALIENTE de gente dançando em Esta é a Minha Chance (1980), com Michael Douglas.

Os produtores cortaram, acharam tudo muito erótico. Foda-se. Ela foi lá e escreveu um roteiro INTEIRINHO focado na dança e em parte de sua própria vida. Eileen Miselle, da MGM, amou, tava tudo certo, vamos rodar. Mas uma série de mudanças de executivos no estúdio colocaram a produção num limbo e depois... bye, bye. A roteirista vagou de estúdio em estúdio, sempre ouvindo “não” como resposta, até que descolou um OK de um lugar completamente inesperado: a Vestron Pictures, estúdio independente e recém-lançado pela bem-sucedida Vestron Inc., líder de distribuição de filmes em home vídeo.

A grana era curta (US$ 5 milhões, quando na época a média era de US$ 10, 12 milhões). Mas deu certo. Principalmente por tornar Patrick Swayze, um galã relativamente desconhecido, no crush de toda uma geração.

| As Tartarugas Ninja (1990)
Com um desenho animado de sucesso na TV e brinquedos vendendo como água nas lojas, era de se esperar que fazer um filme das Tartarugas Ninja fosse aposta certa em qualquer estúdio, certo?

Bom, no começo da década de 90, quando os produtores fizeram o seu corre pra transformar a história dos cascudos em realidade nas telonas, Disney, Columbia, MGM, Warner e até a Paramount — que, ironia, compraria a franquia anos mais tarde via Viacom — fecharam a porta na cara dos sujeitos. O motivo? Lembra da história da Cannon, que contamos aqui? Pois é, todos os engravatados tavam com medo de que um novo Mestres do Universo se repetisse.

O jeito foi optar pela New Line Cinema que, na época, só lançava filmes pequenos, independentes, fossem eles mais artísticos ou Bzão mesmo, ainda tavam BEM longe de ser a empresa que colocaria O Senhor dos Anéis no mapa.

Com um orçamento de pouco mais de US$ 13 milhões, Leo, Mike, Rapha e Donny faturariam espantosos US$200 Milhões em todo o planeta, tornando-se inclusive durante algum tempo o filme independente com maior arrecadação na história.

| Os Suspeitos (1995)
Bryan Singer conheceu Kevin Spacey em uma festa de lançamento de seu primeiro filme, Public Access, de 1993, em Sundance. O ator ficou tão impressionado com o resultado que prometeu: faria qualquer que fosse o filme que ele e o roteirista Christopher McQuarrie aprontassem depois.

Inspirados inicialmente pelo título de uma coluna da revista Spy e pela ideia de como ficaria legal um pôster com suspeitos numa parede de reconhecimento, eles começaram os trabalhos. Enquanto McQuarrie chegou a escrever NOVE versões do roteiro ao longo de cinco meses, Singer não conseguiu fazer que ninguém se interessasse pelo filme, por mais que tivesse confirmada a presença de Spacey.

A história não era linear, tinha diálogos demais... O máximo que ele conseguiu foram US$ 5.5 milhões com uma empresa europeia de financiamento. Então, seguiu em frente e gravou tudo em 35 dias, pra não perder tempo e nem um centavo desta grana. Exibido em Cannes fora da competição oficial, foi muito bem recebido pelo público e pela crítica. Acabou então sendo lançado em uma sala na cidade de Los Angeles e em três outras em Nova York. A performance foi tão boa que o pessoal da Gramercy resolveu investir em distribuição, abriu as portas e aí numa semana foram 42 cinemas; fez bem e, na semana seguinte, então o filme foi parar em 300 salas.

Nesse esquema, acabou que Os Suspeitos fez sólidos US$ 23 milhões nos EUA, ajudando a construir o nome de Bryan Singer em Hollywood.

Se isso foi uma coisa boa, porém, não sabemos ainda.

| A Paixão de Cristo (2004)
Um filme extremamente violento sobre os últimos dias de Jesus Cristo, com parte das falas em latim e aramaico... e sem legendas? Claro que os grandes estúdios ficariam cabreiros em botar dinheiro aí. Religião é sempre um vespeiro. Mas Mel Gibson não se importou.

O orçamento estimado de US$ 30 milhões, com algo em torno de US$ 15 milhões adicionais só pro marketing, saiu todo do bolso do próprio ator/diretor, através da sua produtora, a Icon Productions. Ele resolveu bancar até mesmo a distribuição do filme dentro dos EUA, depois do medo da Fox (que tinha prioridade na negociação) por conta das polêmicas, inclusive uma acusação de antissemitismo.

O que ajudou a dar uma barateada no projeto? A reutilização dos cenários (devidamente adaptados, é claro) que Scorsese usou para o seu Gangues de Nova York, que tinha acabado de ser rodado. A aposta de Gibson foi acertadíssima: estamos falando do filme independente mais rentável da história, com impressionantes US$ 611 milhões nos EUA e no mercado internacional.