A história do filipino que se tornou vocalista do Journey vai virar filme | JUDAO.com.br

Jon M. Chu, diretor de Podres de Ricos, vai comandar a produção — uma espécie de conto de fadas rock n’ roll sobre um jovem cantor chamado Arnel Pineda

Depois de uma trajetória bastante tumultuada, acho que nem a Fox acreditava que Bohemian Rhapsody, doravante conhecido como “o filme do Queen”, fosse dar tão certo quanto deu. Bom resultado de bilheteria, grana no bolso, público feliz, estatuetas do Globo de Outro pra ADORNAR a prateleira e até uma possibilidade concreta de disputar o Oscar, quem diria.

A chance das biografias de grandes estrelas do rock se tornarem, portanto, os novos filmes de super-heróis é BEM grande. Já tem Rocketman engatilhado pra sair em breve contando a trajetória de Elton John; já tem The Dirt, dos agora aposentados alucinados do Mötley Crüe, pra pintar logo logo no Netflix; e a Dona Warner bem que tava atrás de uma história roqueira única pra chamar de sua. Acabou de encontrar.

O estúdio fechou acordo para transformar em filme a história da vida de Arnel Campaner Pineda, nascido na cidade de Manila, capital das Filipinas. E com uma direção de peso: ninguém menos do que Jon M. Chu, cineasta responsável pela pérola de nome Podres de Ricos, aka Crazy Rich Asians.

“O sucesso de Podres de Ricos me colocou no caminho de lutar por mais histórias inspiracionais que representem novas perspectivas ao redor do mundo”, explica Chu ao Deadline. “Esta história em particular ficou na minha cabeça desde que li pela primeira vez sobre ela alguns anos atrás. Um verdadeiro conto de fadas sobre o triunfo do espírito humano. Um herói inesperado, um talento inegável, o poder da música e um palco global (neste caso, literalmente) são ingrediente que eu amo nos filmes”. Além disso, só ajuda o fato de que o diretor também é fã da banda na qual Pineda canta.

Ah, sim. A banda a qual nos referimos é o Journey, um dos mais destacados do chamado “rock de arena”, donos de hits como Don’t Stop Believin’, Open Arms, Faithfully e a maravilhosa Separate Ways (Worlds Apart). Originalmente um grupo de ares mais progressivos surgido em 1973 na cidade de San Francisco, os caras acabaram enveredando para uma seara mais pop, mais “comercial”, a partir de seu quarto disco, Infinity (1978), o primeiro com o lendário vocalista Steve Perry.

Venderam um bocado, em especial na década de 80, lotando estádios e dominando as paradas de sucesso. Mas isso até chegar, claro, o começo dos anos 90, quando o ROQUE mais fofo começou a ser devorado por seu primo mais raivoso, mal-humorado e de camisa de flanela.

Em 1995, a banda ensaiou um retorno até que bem-sucedido, mas cerca de três anos depois veio o baque: Perry, que se tornou a personificação do Journey, anunciou que estava abandonando o grupo. Neal Schon (guitarra e fundador) e Jonathan Cain (teclados) começaram imediatamente a busca por um substituto. Steve Augeri (Tyketto) assumiu a bronca e até que durou bastante, três discos ao longo de nove anos.

Mas em 2006, seus problemas crônicas na garganta forçaram os rapazes a procurarem um novo dono pro microfone. O pau pra toda obra Jeff Scott Soto chegou a tocar com eles durante alguns meses, mas não durou. E em pleno 2007, nostalgia dos anos 80 bombando, os sujeitos tavam novamente sem cantor.

E foi aí que a história toda ficou mágica MESMO.

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Arnel teve o gosto pela música incentivado desde cedo pela mãe, que o colocava para ouvir cantoras como Karen Carpenter e Barbra Streisand. Ao crescer, seus pais o colocaram em diversos pequenos concursos de cantoria para crianças... só que a carreira que parecia deslanchar teve um abalo assim que seu mãe faleceu quando ele tinha 13 anos de idade, de uma doença cardíaca. O tratamento deixou a família humilde com uma série de dívidas e seu pai, sem grana para pagar o aluguel da casa, decidiu se mudar e contar com o apoio dos parentes pra cuidar da criançada enquanto tentava arrumar uma grana. O garoto resolveu fazer a sua parte: abandonou a escola e começou a trabalhar.

Ganhava dinheiro recolhendo garrafas, jornais e pedaços de metal, que vendia para a galera que trampa com reciclagem. Chegava a dormir muitos dias nas ruas, com pouco o que comer, só pra economizar tempo e dinheiro para continuar trabalhando no dia seguinte. Mesmo assim, conforme crescia, contava com o apoio dos amigos para continuar cantando — e aos 15 anos, enfim entrou pra sua primeira banda, Ijos, que tocava ao vivo numa cadeia de pizzarias. Sua banda seguinte, Amo, ganhou dois concursos musicais, incluindo um da Yamaha, que o levou a tocar em Hong Kong. Passou por uma chamada Intensity Five e por outra chamada New Age, sempre tocando onde conseguia, em restaurantes, bares, onde pintasse. Chegou até a se mudar pra Hong Kong por um tempo, convidado por um caçador de talentos, tocando seis noites por semana em um popular restaurante chamado Grammy’s.

Foi só em 1999 que voltou pras Filipinas, a pedido de um selo da Warner, quando lançou seu primeiro disco solo. Começou a fazer um relativo sucesso local, chegando a tocar em rádio tanto sozinho quanto com outros projetos musicais como as bandas 9mm e, finalmente, aquela que mais lhe traria destaque, The Zoo. Apesar de terem lançado um primeiro disco de canções originais, eles chamavam bastante atenção em suas apresentações pelos covers de bandas como Survivor, Aerosmith, Led Zeppelin, Air Supply, The Eagles, Stryper... e Journey.

Pula de novo pra 2007, quando Neal Schon ainda tava procurando um vocalista pra banda. Eles chegaram até a fazer uma audição com Jeremey Hunsicker, da banda tributo ao Journey chamada Frontiers, mas não deu muito certo. Tentaram trazer Perry de volta, mas também não aconteceu. Até que Schon foi parar no YouTube. E viu os muitos vídeos de Arnel cantando com o Zoo. E se apaixonou pela voz do sujeito.

O músico entrou em contato com Noel Gomez, fã e amigo de Arnel que tinha sido o responsável por subir aqueles vídeos todos, procurando um contato de Arnel. Quando o filipino recebeu um e-mail de Neal Schon convidando-o para um teste com o Journey, achou que era piada e desencanou. Nunca respondeu. Mas Gomez insistiu e, tá bom, Arnel acabou dando corda. Dez minutos depois, Schon ligou. Era verdade.

No fim, Arnel viajou para San Francisco, fez o teste e, mesmo nervoso, mesmo tenso, agradou aos futuros colegas de banda. Em dezembro de 2007, foi oficialmente anunciado como novo vocalista da banda — e sua estreia seria em fevereiro de 2008, justamente no palco do tradicional Viña del Mar International Song Festival, no Chile.

Com produção de Marty Bowen, da Temple Hill Entertainment (responsável pela franquia Crepúsculo), o filme ainda sem nome está em busca de um roteirista, mas de qualquer forma um bom ponto de partida é o ótimo documentário de 2012 Don’t Stop Believin’: Everyman’s Journey, que conta justamente a história de Arnel e cujos direitos, claro, TAMBÉM foram comprados pela Warner.

O próximo passo é garantir a licença de uso das canções originais do Journey, considerando que a maior parte dos clássicos são escritos por Perry/Schon. Não devemos deixar de acreditar!