Na versão animada, A Piada Mortal não tem graça nenhuma | Judão

Faltou ritmo, faltou força, faltou impacto e sobrou um prólogo longo e desorganizado

“Este não é o começo que você esperava”, diz Barbara Gordon, a Batgirl, no papel de narradora, no início de Batman: A Piada Mortal, adaptação do clássico das HQs que sai somente em DVD (sério, não tem Blu-ray) por aqui e, durante a San Diego Comic-Con, terá sua WORLD PREMIERE. Os produtores da adaptação optaram por trabalhar uma espécie de prólogo, totalmente inédito, antes de entrar na trama entre Batman e Coringa propriamente dita. E colocando a Garota-Morcego como protagonista.

Como A Piada Mortal é uma história curta, a tentação de fazer apenas e tão somente uma transposição literal seria muito grande. E isso duraria talvez menos do que a 1h e uns quebrados de duração do filme. Então, por que caralhos não aproveitar para ampliar o escopo, dando mais corpo a uma personagem que come o pão que o diabo amassou nas mãos do Palhaço do Crime?

Legal, então? Não. Não é legal. Porque o prólogo não é integrado ao restante do filme. Ele parece uma outra história, completamente diferente, que foi “colada” no começo. Não tem costura. Arranque dali e você assiste ao resto numa boa. E, porra, nem uma boa história este prólogo consegue ser por si só. É longo demais, chato, cansativo. E óbvio de tudo. Um enredo típico dos gibis de super-heróis dos anos 90.

Barbara Gordon, de combatente do crime, se torna uma menininha que sofre por amor

A Batgirl chuta umas bundas? Chuta. Mas acaba se envolvendo numa trama com um gângster narcisista obcecado por ela, um vilão sem qualquer apelo ou graça, enquanto a heroína fica tentando entender seus sentimentos pelo Batman. É, isso aí, eles reaproveitam aquele relacionamento dos dois criado em The New Batman Adventures, continuação de Batman: The Animated Series (que tinha os mesmos produtores e dubladores deste filme), só que com um Cavaleiro das Trevas insuportável que fica cagando regra até dizer chega. Tudo com direito a um ataque histérico e um amigo gay mais estereotipado do mundo para que ela tenha com quem discutir as suas dores do coração.

Caralho, gente. Aí não. Se vocês queriam tirar a Batgirl da posição de “mulher da geladeira”, legal, faria total sentido. Filme é filme, gibi é gibi, tamos com vocês. MAS NÃO DESTE JEITO, NÉ. Não dava pra ter solução mais preguiçosa?

Parabéns! De combatente do crime, Barbara Gordon se torna uma menininha que só sabe sofrer de amor. :(

Piada Mortal Ao final do prólogo, entramos então na Piada Mortal exatamente como é na graphic novel. Cena por cena, aliás. Em termos de história, tudo segue basicamente a cartilha do roteiro do Alan Moore, com uma pequena inserção ou outra para dar mais volume, em especial no momento em que o Batman enche a bandidagem de porrada para descobrir uma pista de onde diabos o Coringa foi parar depois que fugiu do Asilo Arkham. E aí temos MAIS um problema.

Com uma determinada sequência envolvendo um grupo de prostitutas, o roteiro arrancou a dubiedade da coisa e praticamente desenhou na tela: o Coringa estuprou a Batgirl. Afinal, sempre que ele foge, ele precisa procurar uma garota pra dar uma trepada. Tipo assim... Oi?! De onde tiraram esta porra?

A questão do estupro não fica clara em nenhum momento no gibi e, assim como aquela discussão toda envolvendo o final e a mão do Bats no pescoço do seu inimigo, sempre foi ponto de discórdia entre os leitores — eu, particularmente, nunca enxerguei violência sexual como algo que faz parte do modus operandi do Coringa e, pra mim, a nudez da Barbara exposta serviria ali apenas para ajudar a quebrar ainda mais a mente do Comissário Gordon.

Como um todo, o filme tem sérios problemas de ritmo, de edição, de timing, que acabam tornando a experiência bastante cansativa. A narrativa visual acaba ficando bastante linear, tradicional, diferente dos quadros quebrados, desalinhados e que refletem bastante da loucura do Coringa. Por sinal, o texto do Barbudo Inglês, no original, é incrível, mas só consegue o impacto desejado graças à força da arte do Brian Bolland. E isso faz muita falta no filme. A animação não é ruim como muita gente PRAGUEJOU ao assistir ao trailer. Não. Mas ela é simplesmente... óbvia. Normal demais. Toda limpinha, bonitinha, fofinha. Faltou a sujeira que um conto sobre a sanidade pediria. Faltou ousar, faltou brincar com cortes, com a trilha, com o andamento. Nem a cena em que o Coringa ENTOA e dança a sua canção sobre enlouquecer, que poderia ter ficado brilhante agora com música de fato, teve o impacto que poderia.

A Piada Mortal

Ficou tudo, visualmente, como seria em qualquer episódio de desenho animado da DC. FLAT. E a intensidade das expressões corporais e faciais que Bolland usa com maestria na HQ, simplesmente some aqui. Mark Hamill está ótimo na dublagem do Coringa, por exemplo. Mas em dois momentos cruciais, quando o personagem faz seus monólogos de pura piração, o rosto do palhaço não reflete o que o Hamill está dizendo. Hamill grita, esbraveja, gargalha como um maníaco. E o Coringa não responde. Faltam olhares mais malucos, um sorriso mais aberto, mais dentes sobrando. Falta, em resumo, mais Coringa. Ele não chega a ser 10% tão assustador quanto a versão que Bolland desenhou. O sujeito acaba sendo apenas um maluco de cara branca e cabelo verde.

Uma experiência bastante frustrante, essa. Dá pra citar, sem muita dificuldade, pelo menos uns três ou quatro episódios da série animada do Morcegão nos anos 90 que costuram melhor uma relação entre o Batman e o Coringa. No fim das contas, parece que a praga do Alan Moore pega mesmo, né? ;)

Depois da piada final, rolam uns “créditos intermediários”. Continue vendo depois disso: tem uma cena extra que, cá entre nós, já era meio esperada, ainda mais depois do tal prólogo. Não é nada de muito incrível, mas é simpática, vá. Chega a arrancar um sorrisinho de satisfação da cara do leitor frequente, que vai entender a referência. Mas tenho dúvidas de que um espectador eventual vai sacar do que eles estão falando ali. Enfim... ¯\_(ツ)_/¯